Jornalistas Chico Otavio e Vera Araújo lançam livro-reportagem sobre o assassinato de Marielle Franco

Kassia Nobre | 03/12/2020 10:16
Os jornalistas investigativos Chico Otavio e Vera Araújo acabam de lançar o livro-reportagem “Mataram Marielle” (Intrínseca). 

A obra narra como o caso foi determinante para revelar o submundo da criminalidade carioca. Além de apontar inúmeras falhas nas investigações e mergulhar nas principais linhas de apuração adotadas pela polícia, a dupla analisa os conflitos que Marielle enfrentava dentro do próprio partido, o PSOL.

“Ao mergulharmos nas investigações, abrimos a tampa do esgoto onde se escondiam os ratos do crime organizado como, por exemplo, os matadores de aluguel do Escritório do Crime. A polícia sabia de sua existência, mas nada fazia. São dezenas de crimes sem solução! Como pode isso?  O leitor também vai encontrar a história do crime organizado e as forças ocultas que existem no Rio de Janeiro. Há fatos inéditos sim, mas não vou dar spoiler. Leiam o livro”, explica Vera.

O Portal Imprensa conversou com os jornalistas sobre a investigação que resultou no livro-reportagem de um crime que ainda não tem respostas. 
 
“A rigor, a investigação continua. O nosso trabalho não terminou no ponto final do livro. Até porque ainda existe um inquérito em andamento sobre os mandantes. Foram muitas as histórias relevantes, mas se há uma acima de todas foi a nossa descida ao subterrâneo criminoso da cidade e olhar de perto como as quadrilhas operam. Quando começamos, Vera me alertou: Está preparado? Vamos abrir as portas do inferno”.  E foi exatamente o que aconteceu”, afirma Chico. 

CHICO OTAVIO é repórter e professor de Jornalismo na PUC-Rio. Iniciou a carreira em 1985, na Última Hora, passou pela sucursal do Rio de Janeiro do Grupo Estado, produzindo reportagens para O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Agência Estado. Em 1997, transferiu-se para o jornal O Globo, onde cobre Política. Ganhou sete vezes o Prêmio Esso.

VERA ARAÚJO é repórter investigativa em O Globo, além de advogada, tendo passado por Jornal do Brasil e O Dia. Em 2005, revelou a existência de grupos paramilitares na região de Jacarepaguá (RJ) que extorquiam dinheiro de moradores. Foi dela a ideia de batizá-los como milícias. Pela reportagem, ganhou o Prêmio Especial Tim Lopes de Jornalismo Investigativo (2009). Entre outros prêmios, recebeu o Imprensa Embratel (2003), o Esso Sudeste (2009), o Tim Lopes (2010) e o Troféu Mulher Imprensa (2012).

Crédito:Divulgação Intrínseca

Portal Imprensa - Gostaria que vocês contassem sobre o processo de criação do livro. Como começou a investigação e quanto tempo ela durou? Se pudesse contar histórias que chamaram a atenção de vocês durante o processo seria interessante. 
Vera Araújo - No dia do crime, 14 de março de 2018, estava fora do estado, descansando numa pousada à beira do mar no Nordeste, em meu segundo dia de folga. Por volta de 22h, meu editor me liga para avisar sobre um homicídio no Centro do Rio, mas ainda sem saber quem era a vítima. Havia uma suspeita de que era uma parlamentar.

Atônita, troquei mensagens por WhatsApp para algumas fontes da polícia e retornei a ligação para o meu chefe: 'Mataram a Marielle'. A essa altura, a redação tinha se mobilizado para fazer uma segunda edição para anunciar a execução da quinta vereadora mais votada da cidade e do motorista Anderson Gomes. Pretendia tirar duas semanas, mas voltei ao fim da primeira. Mergulhei de cabeça no caso. Ainda de folga, fui a um ato ecumênico na escadaria da Câmara dos Vereadores e aproveitei para dar uma espiada no gabinete de Marielle.

De lá, peguei o metrô da Cinelândia direto para o Estácio, onde ocorreu o duplo homicídio, a fim de buscar testemunhas e analisar a cena do crime. Uma semana depois, Chico Otavio e eu nos unimos, numa parceria inédita, para investigar o caso. Ele com a experiência na política, eu com meus 30 anos acompanhando as áreas de segurança pública e política.

À medida que avançávamos na apuração, produzindo nossas próprias linhas de investigação, percebemos que havia muitas dúvidas, uma vez que as notícias saíam picotadas. Era um crime complexo, de altos e baixos. O leitor, muitas vezes, se perdia com as versões. Daí surgiu a ideia do livro, montar o quebra-cabeças. Nos dividimos: fiquei com a parte da investigação em si e Chico com a análise da política. Não foi fácil escrever e, ao mesmo tempo, dar conta do noticiário do jornal. Nos dividimos em fazer as entrevistas fora do horário de trabalho normal. Algumas delas fazíamos juntos e discutíamos a veracidade das informações.

Há várias situações interessantes que vivenciamos. Uma delas foi o fato de eu ter encontrado testemunhas antes da polícia. Se não tivesse voltado à cena do crime, certamente as duas pessoas que estavam no momento da execução não teriam sido procuradas pela polícia, após a matéria ter sido publicada. Também tem a existência do Escritório do Crime, grupo de matadores de aluguel. Foi indo ao submundo do crime que encontramos esta linha de investigação. A polícia tinha até medo de pronunciar o nome da facção, que foi para as páginas de jornal pela primeira vez em nossas reportagens. Todas essas histórias e outras foram para o livro, que fluiu. 

Chico Otavio - A rigor, a investigação continua. O nosso trabalho não terminou no ponto final do livro. Até porque ainda existe um inquérito em andamento sobre os mandantes. Foram muitas as histórias relevantes, mas se há uma acima de todas foi a nossa descida ao subterrâneo criminoso da cidade e olhar de perto como as quadrilhas operam. Quando começamos, Vera me alertou: Está preparado? Vamos abrir as portas do inferno”.  E foi exatamente o que aconteceu.

Portal Imprensa - Vocês são jornalistas experientes na cobertura no Rio de Janeiro. Gostaria que vocês contassem um pouco sobre a rotina de investigação, as dificuldades de trabalhar num ambiente complexo do Estado em meio a milícias e traficantes. Em algum momento, vocês sentiram medo ou insegurança no exercício da profissão? 
Vera Araújo - É uma rotina extenuante e repleta de cuidados na área de segurança. Desde que descobri as milícias, em 2005, passei a tomar cuidado. Afinal, vivemos num estado onde o crime organizado circula livremente e a impunidade reina. A busca de fontes confiáveis, não apenas uma ou duas, é importante para evitar exposições desnecessárias. Contudo, há situações em que é necessário se infiltrar. A insegurança nos ronda o tempo todo, nos atormenta na hora de dormir, mas o medo é necessário para nos manter em alerta e não abusarmos da nossa própria sorte.  

Chico Otavio - Nosso maior problema foi não saber em quem confiar numa investigação com tantas reviravoltas. Três trocas de delegados. Linhas de suspeitas distintas. Informações falsas. Divergências entre policiais e promotores. Brigas entre o Ministério Público do Estado e o Ministério Público Federal. Crimes posteriores com jeito de queima de arquivo. Um forte viés político que resvalou no próprio presidente da República. Sem dúvida, em mais de 30 anos de profissão, foi um dos mais casos mais complexos e trabalhosos.

Portal Imprensa - Como vocês analisam a cobertura da imprensa nacional sobre o caso Marielle? O jornalismo faz um bom trabalho ou ainda apresenta falhas?  
Vera Araújo - A imprensa teve um papel fundamental no Caso Marielle. Assim como procuramos nossas próprias linhas de investigação, sem depender da polícia ou do Ministério Público, colegas de outros veículos de imprensa também correram atrás de informações, mantendo as perguntas sempre em evidência: 'Quem matou e mandou matar Marielle e Anderson?' e 'Qual foi o motivo?'. De um modo geral, o jornalismo fez sua parte, mas não pode deixar o caso cair no esquecimento. Ainda mais no Rio, onde um caso acaba suplantando o outro.

Chico Otavio - Uma cobertura com a concorrência que gosto, pois me motiva. Os veículos de comunicação, tradicionais e novos, e os jornalistas independentes se empenharam muito. Num tema tão importante, sempre há alguns atropelos, mas nada que comprometesse. De uma maneira geral, o jornalismo deu a sua contribuição.

Portal Imprensa - Quem vocês gostariam que lesse o livro de vocês? Quem é o público-alvo da obra?   
Vera Araújo - Todas as pessoas que buscam a verdade. Os inquietos, que não aceitam respostas prontas. Também seria importante que os recém-formados na carreira mantenham a chama do jornalismo investigativo. Chico e eu somos considerados experientes em nossas áreas e continuamos correndo atrás como focas, mas o que nos move é justamente a paixão pelo jornalismo diferenciado, o que gasta sola de sapato. 

Chico Otavio - O público-alvo é, basicamente, quem está atrás de uma história importante. Na hora de escrever, não pensei em determinado tipo de leitor. Quis escrever para todos os interessados, sejam eles iniciados ou não no caso. O grande diferencial do livro foi ter juntado todas as pontas da história numa única narrativa, numa linguagem bem acessível. 

Portal Imprensa - O que o leitor pode esperar da obra? Fatos inéditos sobre o caso Marielle?  
Vera Araújo - Detalhes de um crime que abalou as estruturas democráticas. Estávamos numa intervenção federal, quando militares estavam à frente da segurança pública do Rio.  Ao mergulharmos nas investigações, abrimos a tampa do esgoto onde se escondiam os ratos do crime organizado como, por exemplo, os matadores de aluguel do Escritório do Crime. A polícia sabia de sua existência, mas nada fazia. São dezenas de crimes sem solução! Como pode isso?  O leitor também vai encontrar a história do crime organizado e as forças ocultas que existem no Rio de Janeiro. Há fatos inéditos sim, mas não vou dar spoiler. Leiam o livro.

Chico Otavio - O livro tem algumas revelações importantes, como por exemplo as conversas da Marielle pelo Whatsapp nos dias que antecederam o crime. Mas bacana mesmo foi mostrar os bastidores: como chegamos a alguns furos que mudaram o rumo das investigações. O nosso trabalho em dupla, como funcionou essa química. Nossa relação com as fontes. Enfim, todos os desafios que enfrentamos.