Uso do termo ‘vandalismo’ na cobertura de protestos no Carrefour divide opiniões entre jornalistas

Deborah Freire | 23/11/2020 12:09

A cobertura dos protestos contra a rede Carrefour no fim de semana, onde o cliente José Alberto Silveira Freitas foi assassinado por seguranças, em uma loja na cidade de Porto Alegre, no dia 19, dividiu opiniões até entre jornalistas.

Crédito:Reprodução / Leo Orestes

Na CNN e na Globo, âncoras de programas jornalísticos classificaram como vandalismo os atos praticados por manifestantes em alguns supermercados, onde prateleiras foram quebradas e objetos queimados, para chamar atenção para a violência e o racismo na rede varejista.


As palavras “vândalos” ou “vandalismo” foram usadas por William Bonner no Jornal Nacional, Patrícia Poeta no É de Casa, Monalisa Perrone na CNN Brasil e pelo site da CNN.


Além da repercussão no Twitter onde os nomes dos apresentadores figuraram no trend topics, outros profissionais da imprensa consideraram a referência errada.


Diego Sarza, âncora também da CNN, escreveu no Twitter que vandalismo é o racismo praticado no Brasil. “Vandalismo é ter medo de apanhar, de morrer por causa da cor da pele. Vandalismo é ter menos oportunidades e por aí vai... Minha solidariedade a todos os familiares do Beto e, por extensão, a todas as vítimas de racismo no Brasil. Vidraças voltam pro lugar. Vidas não. Noite!”



Victor Ferreira, repórter da Globo News, recorreu ao dicionário para defender que a palavra “revolta” teria mais a ver com os atos que ocorreram no fim de semana do que “vandalismo”.


“Ao dicionário: as vidraças quebradas do Carrefour têm muito mais a ver com revolta do que com vandalismo. Vandalismo, aliás, pressupõe destruição gratuita. Um sujeito alcoolizado que derruba um orelhão por esporte é um vândalo. Revolta, indignação, insurreição... são outra coisa. Não se trata de defender ou não a atitude de quem jogou pedras no Carrefour, não entrei nesse mérito; mas de dar aos fatos o nome que eles têm. Neste caso foi uma revolta provocada pelo assassinato brutal de um homem. O resto é diversionismo.”


No programa Brasil Urgente, na Band, Luiz Datena disse que repudiava o vandalismo, mas considerou que a cobertura jornalística inverteu a relevância dos fatos.


“É claro que eu tenho que repudiar o vandalismo, isso é inaceitável, mas mais inaceitável ainda é um lugar público, que recebe clientes, matar uma pessoa que é um cliente dessa maneira, isso é o mais execrável”, afirmou.


“O que não justifica é ter um ato racista, canalha e assassino e de repente querer inverter a história das coisas”, completou Datena.


Douglas Belchior, fundador da organização Uneafro, a pedido do colunista Ricardo Kotscho, do UOL, avaliou as manifestações. Ele questionou o fato de haver mais comoção com vidraças e prateleiras quebradas do que com os negros assassinados, e disse que a invasão a algumas lojas do Carrefour foi uma “reação legítima do movimento [...]. Não foram vândalos, foram manifestantes. Foi uma reação de manifestantes do movimento negro revoltados com a situação [...]. Jovens negros que estão cansados de ser mortos pela polícia, e que de alguma maneira precisavam dar uma resposta à altura".


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