Portais bolsonaristas ganham visibilidade no Google com ajuda de sites governamentais, diz pesquisa da Agência Pública

Redação Portal IMPRENSA | 23/11/2020 10:04
Reportagem da Agência Pública mostrou que a página do Exército e sites governamentais ajudam no desempenho de portais bolsonaristas no Google. 

A matéria das repórteres Ethel Rudnitzki e Laura Scofield contou também que veículos da imprensa, na intenção de investigar e combater a desinformação propagada por sites bolsonaristas, acabaram fazendo backlinks a esses domínios e transferindo sua autoridade a esses portais.

Segundo a reportagem, portais de notícias conservadoras têm servido como propaganda para o governo Bolsonaro, divulgando a atuação dos ministérios com textos elogiosos, que depois são compartilhados pelos influenciadores bolsonaristas em suas redes. Essas postagens são muitas vezes republicadas ou referenciadas em sites oficiais do governo.

A reportagem mostrou que, no dia 14 de fevereiro, o portal Brasil Sem Medo, comandado por admiradores de Olavo de Carvalho e autointitulado “o maior jornal conservador do Brasil”, entrevistou o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. A entrevista não serviu apenas como propaganda para o ministério, como também deu maior visibilidade ao site olavista – também conhecido por disseminar notícias falsas, como a afirmação de que a pandemia não aumentou o número de mortes no Brasil, desmentida pela Agência Lupa.

A entrevista foi republicada pelo portal do Ministério das Relações Exteriores (MRE), que direcionava os leitores ao site original através de um link – ou backlink, na linguagem técnica. Com esse redirecionamento de público, o link contribui para o desempenho do Brasil Sem Medo nas buscas do Google, fazendo o site aparecer com maior destaque para quem busque termos relacionados na plataforma. 

Notícias Falsas 
A Agência Pública analisou todos os backlinks feitos a 13 portais alinhados com o governo Bolsonaro e acusados de disseminar notícias falsas. Alguns deles, como Terça Livre e Brasil Sem Medo, estão associados a pessoas investigadas no inquérito das fake news, como Allan dos Santos e Bernardo Küster. Portais como Conexão Política, Senso Incomum, Jornal da Cidade Online e Pleno News, muitos dos quais propagam informações falsas sobre a pandemia de coronavírus, já tiveram seus conteúdos checados e marcados como falsos por agências profissionais de checagem de fatos. 

O levantamento mostra que, além do MRE, outros 14 sites governamentais linkaram conteúdos desses 13 portais bolsonaristas pelo menos 926 vezes –723 links foram feitos pelo site oficial do Exército brasileiro. Pesquisadores alertam que o alto índice de backlinks de um site para outro é um dos fatores que podem apontar para a existência de uma “rede” entre eles. 

Crédito:Agência Pública


Backlink da imprensa 
Segundo a reportagem, o domínio UOL, que abriga os sites da Folha de S.Paulo, da revista Piauí e de outros veículos de imprensa, tem uma nota de autoridade estimada de 87 pontos. Tamanha credibilidade foi transferida para os portais Jornal da Cidade Online, Renova Mídia, Conexão Política, Brasil Sem Medo, Caneta Desesquerdizadora, Crítica Nacional e Estudos Nacionais, linkados em matérias publicadas pelo UOL.

A Pública também cometeu esse erro. Em matérias que denunciam envolvimento de políticos, conflitos de interesse e notícias falsas propagadas por cinco desses sites bolsonaristas, fizemos backlinks a eles.

Jaime Longoria, pesquisador da Rede Internacional de Checadores (IFCN, na sigla em inglês), alerta que “algumas vezes o objetivo final da desinformação é justamente conseguir que jornalistas falem sobre aquilo para que seja amplificado”. Uma dessas formas de amplificação pode ser justamente o backlink.

“Se eles querem apontar para um site e falar ‘esta é a pior fonte de desinformação de todas’, então devem tomar o cuidado de que aquele backlink seja marcado como ‘no follow’. Isso significa que as ferramentas de busca não vão considerar aquele backlink na reputação online do site linkado”, explica Emily Taylor. Isso pode ser feito por meio do código do site, do HTML ou diretamente do publicador.