Justiça Eleitoral amazonense censura reportagem do Intercept sobre herdeiro de rede de hospitais

Redação Portal IMPRENSA | 18/11/2020 17:46
Publicada pelo Intercept em 13 de novembro, a  reportagem “Candidato de Manaus conta com o hospital da família, a covid e o Judiciário para subir nas pesquisas” acabou censurada dois dias depois pela Justiça Eleitoral amazonense, a pedido do candidato derrotado à prefeitura de Manaus Ricardo Nicolau, do PSD.

Segundo a jornalista do Intercept Nayara Felizardo, a matéria contava como o candidato "aproveitou o acesso privilegiado que tinha ao interior do hospital municipal de campanha de Manaus para gravar imagens vestido de branco e visitando leitos de pacientes como se fosse um médico – ele não é".
Crédito: Reprodução Intercept

O candidato reclamou que a matéria promoveu “racismo intelectual” ao informar que ele não tem ensino superior completo. Em sua campanha, o candidato teria exibido depoimentos de pacientes agradecendo ao “doutor Nicolau” pela cura da covid-19, levando o eleitor a crer que ele é medico.

"Algum desavisado poderia pensar que o 'doutor' é médico. Mas, ao deixar claro para o público que isso não é verdade, fomos obrigados a deletar uma reportagem porque ela era intelectualmente 'racista', colocação constrangedora frente ao racismo real que milhões de brasileiros sofrem diariamente", protesta Nayara.

Relações pessoais
Nicolau ficou em 4º lugar, com 12% dos votos. Ele é um dos herdeiros do grupo Samel, rede de hospitais privados que administrou o hospital de campanha de Manaus via parceria público-privada com a prefeitura da cidade.

A reportagem censurada também mostrava que parte das ações judiciais movidas pelos adversários de Nicolau caíram no gabinete da juíza eleitoral Margareth Rose Cruz Hoaegen, "grande amiga de Jeanne Nicolau, cunhada do candidato". "A juíza também esteve no aniversário de Jean Cleuter, advogado de Ricardo Nicolau", informa Nayara.

"Nossa reportagem incomodou o candidato Nicolau. Ele não queria apenas a exclusão da matéria, mas que a Justiça Eleitoral retirasse todo o Intercept do ar. Nicolau entrou com quatro representações praticamente iguais contra a publicação no Tribunal Regional Eleitoral no sábado, 14", prossegue a jornalista. 

Uma das representações "caiu nas mãos do juiz Alexandre Henrique Novaes de Araújo, que, assim como a juíza Hoaegen, também tem relações próximas com o grupo Samel e com a família Nicolau".

"Araújo manteve o site no ar, mas determinou a censura do texto alegando que 'a publicação imputa fatos sabidamente inverídicos', sem discriminar que fatos são esses. Até agora, não sabemos o que, na reportagem, era 'sabidamente inverídico'."

O juiz Araújo esteve em agosto no aniversário de Alberto Nicolau, irmão do candidato derrotado Ricardo Nicolau e diretor-presidente do grupo Samel.  Na decisão que determinou a censura da reportagem do Intercept, Araújo afirma que o texto fez uma “propaganda negativa e depreciativa da imagem de Nicolau”.