Instituto AzMina lança ferramenta para monitorar violência política contra mulheres nas eleições municipais

Redação Portal IMPRENSA | 06/11/2020 09:54
O Instituto AzMina, junto ao InternetLab e em parceria com o Instituto Update, lançou o MonitorA, ferramenta desenvolvida para avaliar o fenômeno da violência e do discurso de ódio contra as mulheres no âmbito da disputa política.

Na primeira análise, a ferramenta monitorou o perfil de 123 candidatas às prefeituras e câmaras municipais no Twitter e registrou quase 11.000 tuítes com termos ofensivos em apenas um mês. 

Ao menos 1,2 mil deles eram xingamentos direcionados diretamente às candidatas, que geralmente apelam a estereótipos relacionados ao corpo, à sexualidade, à estética e à beleza. 

“A ideia deste projeto é sair de um conhecimento empírico de que as mulheres candidatas são atacadas nas redes e mostrar isso com dados. Queremos mostrar que a violência contra as mulheres na política acontece porque elas são mulheres. Ainda que meus ataques tenham motivações políticas, eu vou atacá-la com xingamentos machistas e misóginos que falam do corpo e da capacidade intelectual da candidata. Então eu vou xingá-la de gorda, burra, vagabunda”, explica a gerente de projetos no Instituto AzMina, Bárbara Libório.  

O monitoramento ainda seguirá durante toda a campanha eleitoral, no primeiro e segundo turno, e deverá contemplar também outras redes sociais como Instagram e YouTube.
 
Crédito:Divulgação Instituto AzMina


Análise
Entre 27 de setembro e 27 de outubro, o MonitorA analisou os comentários no Twitter de candidatas de nove partidos políticos, de diferentes espectros ideológicos, que concorrem a cargos de vereadoras, prefeitas e vice-prefeitas, em cinco estados: São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pará e Santa Catarina, além das candidatas às prefeituras dos municípios de Rio de Janeiro e Porto Alegre.  Ao todo, foram identificados 93 mil tuítes com referência às candidatas monitoradas.
 
Para efeito de análise, foram considerados somente os tuítes que geraram engajamento (like e/ou retweet), um total de 1,2 mil postagens com xingamentos ou cerca de 40 por dia. Os termos ofensivos foram classificados de acordo com os atributos a que se referiam, como ofensa moral, intelectual, aparência física, descrédito (desmerecimento), gordofobia e transfobia, entre outros. 
 
Segundo o Instituto AzMina, os resultados do levantamento serão fundamentais para a compreensão do papel das redes sociais no processo eleitoral e sobre o quanto questões de gênero, classe, raça e sexualidade perpassam o debate político e como influenciam a percepção de candidatos e eleitores.

“Com este monitoramento, nosso propósito é contribuir para a discussão da violência de gênero em termos de políticas públicas e privadas nas redes sociais”, complementa Bárbara.
 
“Esse projeto vai dar acesso ao cotidiano de campanhas online de mulheres e ajudar a compreender os contornos das violências que ocorrem, tendo em vista inclusive que as mulheres são múltiplas” acrescenta Mariana Valente, diretora do InternetLab.

Candidatas mais atacadas
Entre as 10 candidatas mais atacadas, estão três das 35 postulantes a prefeita monitoradas.  A maioria dos tuítes ofensivos à Joice Hasselmann (PSL), candidata à prefeitura de São Paulo, caracterizava gordofobia.  À segunda colocada no ranking, Manuela D’Ávila (PCdoB), em Porto Alegre, foram direcionados termos ofensivos como bandida e hipócrita, além de descredibilização por sua filiação partidária. Logo na sequência, está Benedita da Silva (PT), no Rio de Janeiro, alvo, principalmente, de racismo e machismo. Há ainda candidaturas que são alvo de comentários transfóbicos, como é o caso da co-deputada Érika Hilton, que disputa uma vaga na Câmara de São Paulo. 

Crédito:Divulgação Instituto AzMina
 

A ferramenta de análises de dados desses dados foi desenvolvida pela empresa Volt Data Lab. O MonitorA conta também com a parceria de veículos locais dos estados monitorados: Marco Zero Conteúdo),  BHAZ, Amazônia Real, Portal Catarinas  e Agência Mural, que produzirão conteúdo sobre seus respectivos locais de atuação. 
 
Sobre AzMina 
AzMina é um instituto sem fins lucrativos que combate os diversos tipos de violência que atingem mulheres brasileiras. A iniciativa produz uma revista digital, um app de enfrentamento à violência doméstica, uma ferramenta de monitoramento dos direitos das mulheres no Congresso Nacional, além de campanhas para combater a violência contra a mulher no Brasil.
 
Sobre InternetLab
O InternetLab é um centro de pesquisa em direito e tecnologia. Desenvolve pesquisas em temas de direitos humanos e tecnologia, orientadas a políticas públicas, e publicamos na forma de livros, relatórios, artigos e guias. Trabalha no tema de violência de gênero na internet desde a sua fundação, bem como mulheres e privacidade, ativismo feminista.