Veículos da Venezuela fazem aliança de fact-checking para atuar durante processo controverso de eleições no país

Redação Portal IMPRENSA | 05/11/2020 12:05

Um processo eleitoral controverso marcado para 6 de dezembro, na Venezuela, em que partidos de oposição se recusam a participar alegando fraude, é o pano de fundo da criação de uma aliança entre organizações de fact-checking do país para verificar dados e combater a desinformação durante a escolha dos representantes do Legislativo.

Crédito:Pexels

A Venezuela Verifica reúne sete organizações e é coordenada pelo Instituto Prensa y Sociedad de Venezuela . As primeiras matérias serão publicadas em novembro, mas o objetivo é que o trabalho seja apenas um aquecimento para algo maior que possa ser realizado em 2021.


As eleições motivaram a iniciativa porque é hoje uma das grandes discussões políticas na Venezuela, onde muitas pessoas não reconhecem o processo eleitoral como válido. A oposição se recusa a participar por argumentar que o processo é fraudado para beneficiar o Partido Socialista, que governa o país, e a União Europeia chegou a pedir  que o pleito fosse adiado, mas o pedido foi negado pelo governo de Nicolás Maduro.


"O processo de 6 de dezembro na Venezuela é muito particular, rejeitado por boa parte da comunidade internacional ocidental, pelas principais democracias da região e da Europa", afirma Eugenio Martínez, coordenador do Cocuyo Chequea.


Além disso, a oposição convocou uma consulta popular entre 5 e 12 de dezembro, para que os cidadãos possam dizer se concordam ou não com as eleições parlamentares. 


Nesse cenário, a verificação de dados vai focar menos em desmentir boatos sobre os métodos de votação, por exemplo, e mais em esclarecer as consequências das eleições para o país, afirma Martínez.


"O projeto não é voltado apenas para as eleições parlamentares do dia 6 de dezembro, na verdade ele tem que ir muito além, porque são dois eventos que praticamente competem entre si, por assim dizer, e pouca informação está sendo oferecida sobre como eles estão sendo organizados, o que acaba, infelizmente, deixando os cidadãos confusos", disse em entrevista ao LatAm Journalism Review.


A iniciativa foi inspirada em projetos similares que ocorreram na Colômbia, Argentina, Brasil e México. Em um primeiro momento, o grupo vai divulgar as verificações nos sites e redes sociais das organizações integrantes, mas há planos de criar um portal próprio da aliança. 


Antes disso, no entanto, grupo precisa uniformizar os parâmetros de checagem e as etiquetas para classificar o conteúdo como verdadeiro, falso etc.


Outro obstáculo que deverá ser enfrentado é a dificuldade para acessar informações públicas na Venezuela. Segundo a jornalista Marianela Palacios Ramsbott, coordenadora e cofundadora da aliança, o governo não divulga, por exemplo, dados macroeconômicos básicos com regularidade. Com a falta de informações confiáveis, cada organização de fact-checking terá que desenvolver a sua própria base de dados.


"Realmente a limitação dos dados públicos aqui na Venezuela é uma das piores da América Latina. Em um país com tão pouca informação pública oficial disponível, com sites completamente desativados, sem ter informação estatística primária, que em qualquer outro país do mundo é normal, isso complica muito o trabalho de fact-checking. Mas ainda assim muitos jornalistas, ótimos jornalistas, estão fazendo seu trabalho", disse ela.


Participam da aliança os seguintes meios: Cocuyo Chequea (Efectococuyo.com), ObserVe (Ininco-Universidad Central de Venezuela), CotejoInfo y Observatorio de Fake News (Medianálisis.org), Cazadores de Fake News, EsPaja (Transparencia Venezuela) y Chequéalo (ElDiario.com). Também apoiam a iniciativa o Observatorio Global de Comunicación y Democracia, Probox e EsTendenciaVzla.

O projeto está buscando financiamento para 2021 e organizações interessadas em se juntar ou em apoiar a aliança podem entrar em contato pelo email venezuelaverifica@gmail.com.


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