“A Verdade da Mentira estreou no momento importante de eleição. Não poderia ter sido um momento melhor”, diz Petria Chaves

Kassia Nobre | 27/10/2020 13:32
Há poucos dias do período eleitoral, o documentário brasileiro A Verdade da Mentira estreou para o público. 

O filme investigou as causas e consequências da disseminação de conteúdos falsos no ambiente digital e o impacto deste fenômeno para a sociedade. 

O Portal Imprensa conversou com a jornalista Petria Chaves sobre a produção que conta com entrevistas de Pedro Dória, editor do Canal Meio; Angela Pimenta, presidente do Projor; Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa e diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN); Laura Chinchilla, ex-presidente da Costa Rica e Observadora da OEA; Marco Aurélio Ruediger, diretor da FGV DAPP; Thiago Rondon, diretor do Instituto Tecnologia e Equidade (IT&E), entre outros. 

“O filme trouxe uma linguagem bem simples, bem objetiva, apartidária, a gente mostra o jogo de todos os lados envolvidos, a gente mostra como é um sistema e não só uma coisa de partidos. Então por isso é um filme necessário para todos nós porque a sociedade precisa discutir isso”, disse Petria. 

O documentário ficará disponível nas plataformas digitais NET NOW, Looke e Vivo Play e também pode ser assistido no www.averdadedamentira.com.br. O canal HISTORY estreará a produção com exclusividade em PayTV no dia 08 de novembro, às 20h45.

A Verdade da Mentira é uma produção ELO Company, em coprodução com canal HISTORY e o Instituto Tecnologia e Equidade (IT&E).
 
Crédito:Divulgação Assessoria



Portal Imprensa - Gostaria que você contasse sobre como surgiu a ideia do documentário "A Verdade da Mentira".
Petria Chaves – A ideia do documentário nasceu muito antes de ser A Verdade da Mentira. Nasceu de um paper que foi feito pelo Instituto Tecnologia e Equidade sobre como a desinformação afeta o período eleitoral no Brasil. Então, eles fizeram todo um estudo e uma análise sistêmica sobre como a desinformação poderia mudar processos eleitorais na nossa sociedade. 

Com isso em mãos, o Instituto queria trazer de uma maneira mais ampla para a sociedade esse conteúdo. Primeiro que o instituto trabalha muito próximo da FGV [Fundação Getúlio Vargas] e da diretoria de análise de políticas públicas trocando informação com análise de dados. Quando o instituto entrou em contato com a Elo Company, a Elo imediatamente abraçou a ideia porque entendeu que ali tinha um conteúdo cívico e de consciência muito forte e eles vêm apostando muito neste conteúdo de construção da sociedade. Então juntou a fome com a vontade de comer. O instituto com o material vasto, a diretoria de análises de políticas públicas fazendo um trabalho consistente e a Elo querendo mostrar isso de maneira documental. 

A Sabrina, diretora da Elo, e a Maria Carolina Telles, diretora do filme, me convidaram para criar um fio para que a gente entendesse o processo da desinformação. Com isso, a gente trouxe outros agentes, por exemplo, as agências de checagem. 

A gente teve o presente de filmar, uma filmagem inédita, dentro da Agência Lupa, conversando com a Cristina Tardáguila. A gente pôde mostrar os aplicativos que eles usam para mapeamento das notícias falsas e o documentário começou a ficar mais completo.

A gente teve a alegria de conversar com o Aos Fatos. Eu costumo brincar, já falei isso para a Tai Nalon, que eles são os guerrilheiros da notícia verdadeira porque está na alma da Tai e da equipe esta apuração, esta checagem. Acompanhamos o debate eleitoral no QG do Aos Fatos. 

Então, era uma ideia que vinha de uma pesquisa acadêmica, um trabalho consistente da GV, o braço da Elo para o documentário, daí o convite veio para que tivesse uma jornalista para que eu pudesse fazer este fio da meada junto com a Maria Carolina Telles. Nós desenhamos juntas esse caminho. Aí a gente foi escolhendo os entrevistados para que a gente pudesse desenhar não só o perfil político, mas principalmente o perfil psicológico, emocional ao consumir a notícia falsa.  

Portal Imprensa - O combate à desinformação é um dos principais desafios do jornalismo atual. Como o documentário pode ajudar nesta luta contra as fake news?
Petria Chaves - Nosso documentário ajuda na luta contra a desinformação porque ele coloca luz nos processos emocionais com os quais a gente consome informações. Então quando a gente assiste ao documentário, você vai perceber que ele não omite uma opinião. A gente sempre está dando baliza em cima de fatos e ele traz essa análise comportamental que eu acredito que coloca luz no nosso comportamento e nos atos falhos ao consumir e compartilhar notícia falsa. Eu acredito que o A Verdade da Mentira, junto com outros documentários que estão saindo neste momento, são mais uma ferramenta de empoderamento dos processos de decisões que eu tomo em relação à informação. Ele é mais uma arma que a gente vai ter como sociedade para entender o processo pelo qual qualquer um de nós cai nessas notícias falsas. O documentário colocou luz nisso por meio de inteligência, pesquisa, ciência humana, política para nos mostrar com clareza como a gente consome informação falsa. Como diz o historiador Yuval Harari, ter clareza e lucidez é poder. Ele é mais uma ferramenta que vai nos ajudar a conquistar este poder de consciência para o voto. 

Portal Imprensa - O documentário investiga as causas e consequências da disseminação de conteúdos falsos no ambiente digital. Você poderia falar um pouco sobre esta investigação? O que mais a surpreendeu neste "mundo" das notícias falsas?

Petria Chaves - A nossa investigação partiu do pressuposto de que a disseminação de notícia falsa vem sendo um personagem, um agente importante na nossa escolha do nosso voto, na nossa política. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi a entrevista com as agências de marketing político e a facilidade com que candidatos podem comprar estes robôs para disseminação das informações que eles querem. Claro que de uma maneira não clara e de uma maneira muito bem articulada, mas me surpreende o poder das redes e de como a gente conhece pouco sobre como funciona o palco digital. Parece que demorou muito tempo para que a gente levasse a sério as redes digitais. A política, a Justiça, a sociedade.

A gente achou que as redes sociais eram brincadeira, era se conectar com amigos. A gente demorou muito tempo para entender a relevância do digital, que é só um palco para potencializar os nossos comportamentos. Agora, a gente está correndo atrás de um tempo perdido por não entender como isso funcionava e algumas pessoas e políticos entenderam e usaram disso. O documentário fala que a mentira na política sempre existiu, só que agora ela está numa escala muito maior. Então a minha surpresa foi perceber o trabalho importantíssimo das agências de notícias e até de ficar um pouco angustiada porque, se a disseminação de notícia falsa acontece em escala exponencial, a gente precisa de soldados que estão ali checando as informações falsas promovidas e potencializadas por robôs. A minha surpresa tem a ver com a questão do marketing digital, e a gente ainda ter uma sociedade que é corrupta em essência e como a gente vai fazer uma virada do jogo de que não vale tudo nas eleições. Será que a gente vai conseguir fazer esta virada? Essa é uma pergunta que ficou para mim depois do filme. 

Portal Imprensa - Estamos em um ano eleitoral. Você acredita que o Brasil repetirá o cenário de desinformação e notícias falsas de 2018? 
Petria Chaves - É até uma pergunta que eu faço para um dos entrevistados, o Pedro Doria, eu pergunto como você imagina que vai ser a eleição de 2022. Ele diz para mim que é absolutamente impossível de responder. Em 2014, a gente não imaginou 2018 e agora vai ser impossível falar como vai ser 2022. Além de a gente ter uma dificuldade de prever esse cenário, a gente ainda está no meio de uma pandemia e a gente também viu o fenômeno das notícias falsas na pandemia. Não tem como a gente falar, a gente vai assistir. Porém, talvez por serem eleições municipais e os ânimos não estarem tão doídos e acirrados como em 2018, acredito que para 2020, a nossa grande preocupação é o linchamento virtual que pode acontecer pelo Brasil em tempos de redes sociais nessas eleições municipais.  

Portal Imprensa - Quem é o público-alvo do filme? Quem você acha que precisa assistir à "A Verdade da Mentira"?
Petria Chaves - É a população brasileira. É a nossa sociedade. São os consumidores de notícia. São os meus vizinhos, os seus vizinhos, o pessoal do seu trabalho, do meu trabalho porque o filme trouxe com uma linguagem bem simples, bem objetiva, apartidária, a gente mostra o jogo de todos os lados envolvidos, a gente mostra como é um sistema e não só uma coisa de partidos. Então por isso é um filme necessário para todos nós porque a sociedade precisa discutir isso. A gente precisa amadurecer como sociedade nas nossas escolhas. Dentro de escolas, para jovens que possam assistir nos seus 13, 14 anos. Eu me lembro de que, quando eu tinha esta idade, já era uma grande interessada por jornalismo. Então eu vou ficar muito feliz se eu conseguir ver este documentário dentro da escola, dentro da universidade. A gente não brinca que é a tia do zap que manda notícia falsa. O público-alvo do filme é todo mundo que usa a rede social e que está preocupado minimamente com o cenário que nós temos de desinformação e pessoas que não queiram cair na notícia falsa e ter aquela vergonha de ser o propagadoras da notícia falsa. Espero que a gente possa contribuir para um pouquinho mais de consciência neste processo.  

Portal Imprensa - O documentário estreou no dia 26 de outubro. Qual é a expectativa sua e da equipe?
Petria Chaves - É melhor impossível. Estamos em contato com agentes importantíssimos de articulação da sociedade civil para que a gente possa debater o filme, desinformação e discurso de ódio. 

Estamos animados e com a sensação de que a gente está fazendo a nossa parte, colocando mais um tijolo em torno da consciência para esta construção de mais lucidez no nosso momento de votar e de escolher. Interessante que não é só para o voto, é a escolha para tudo o que a gente faz. O apelo emocional nas redes atinge várias áreas da nossa vida.

O documentário está indo para as pessoas neste momento importante de eleição e de escolha. Não poderia ter sido um momento melhor para o lançamento.  

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