Novo modelo de financiamento do jornalismo deve permitir independência editorial, afirma professor Mário Messagi

Deborah Freire | 14/10/2020 11:48

O jornalismo no Brasil e na América Latina sempre manteve relação com o poder estatal, como principal fonte de financiamento. Veículos brigam por subsídio e governos brigam por espaço na mídia, em uma relação que além de complicada precisa ser urgentemente combatida. Essa é a avaliação do jornalista Mário Messagi Júnior, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná.

Crédito:Reprodução / Arquivo Pessoal


Ele falou sobre os desafios do jornalismo brasileiro atual em entrevista ao programa Diversidade em Ciência, da Rádio USP. Para Messagi, autor da pesquisa “Liberdade de informação jornalística na percepção dos jornalistas”, que está em andamento, o setor passa por diversas crises, e uma delas é a de financiamento.


“O jornalismo passa por momento muito aflitivo, temos uma crise no modelo de negócio, já que a publicidade está indo para outros caminhos, uma crise do papel como um todo, porque as pessoas consomem hoje menos informações através do papel, e uma crise do modelo de televisão tradicional, dessa estruturada em grade, que exige que você espere a programação”, cita.


A crise econômica, Messagi explica, está muito relacionada à internet e às possibilidades de publicidade e marketing que foram abertas às empresas, retirando do jornalismo o monopólio das estruturas para massificar um produto.


As empresas, ele aponta, hoje apostam em veículos próprios e marketing direto, mas ao mesmo tempo, a desvinculação entre publicidade e imprensa tem o benefício de libertar o jornalismo de interesses comerciais.


O professor acredita que as fontes de financiamento alternativas que devem ser buscadas precisam permitir a independência das matérias e reportagens e a manutenção da linha editorial do veículo. “Essa é a pergunta de um milhão de dólares: ‘Como descobrir o próximo modelo de financiamento que permita um jornalismo mais autônomo em relação às fontes e não dependente delas?’”.


O assunto também foi tema do mídia.JOR, debate promovido pela Revista e Portal IMPRENSA, exibido na internet e na TV Cultura no início de setembro.


Rasmus Nielsen, Diretor do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, da Universidade de Oxford, citou que existem veículos não tão grandes que têm obtido sucesso com fontes alternativas de receita a partir da valorização do jornalismo, por meio de assinaturas, por exemplo. 


Juan Señor, presidente da Innovation Media, disse que já se trata de um “reconhecimento global” o fato de que “o jornalismo independente é valioso e deve ser pago”.


Em consonância com a fala de Messagi, ele defende que os veículos parem de vender anúncios para vender jornalismo, e reforça a importância de se investir nas redações.


Opinião pública


Na entrevista exclusiva para o mídia.JOR, a diretora digital da BBC News Naja Nielsen conversou com Lúcio Mesquita sobre a força do jornalismo preciso e imparcial da emissora em um mundo de opiniões polarizadas na mídia social: “Se olharmos pesquisas muito sólidas, cerca de 70% da população, incluindo os mais jovens, prefere notícias que não vêm de um ponto de vista específico. Significa que, para a BBC, não há dúvida de que a imparcialidade está no cerne da nossa contribuição para este mundo”.


O professor Mário Messagi também aponta um perigo para a imprensa nesse período de supervalorização da opinião. Em um momento em que qualquer pessoa pode opinar e das formas mais absurdas, o jornalismo precisa se distanciar do opinativo, ele afirma.


“O jornalismo tem que ter uma forma de se distinguir da opinião, seja com mais análise, mais investigação ou mais informação. Se o jornalismo se deixar levar pelo perigo de se aproximar demais da publicidade, de se aproximar demais da opinião, porque dá cliques, ele pode perder muito da sua distinção”, afirma.


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