Jornalista Mauri König lança seu primeiro livro de ficção

Kassia Nobre | 09/10/2020 11:12
Especialista na área investigativa e premiado na cobertura sobre corrupção, o jornalista  Mauri König acaba de lançar o seu primeiro livro de ficção.

“Corações corruptos: a política nunca mais será a mesma” narra a história de suspense sobre um serial killer que passa a arrancar o coração de políticos corruptos.
 
O Portal Imprensa conversou com o jornalista sobre o lançamento da obra e a influência do jornalismo na sua composição.

“É impossível ficar indiferente às injustiças produzidas pela corrupção depois de tratar disso por 30 anos. Então, tudo o que aprendi e descobri no jornalismo serviu de insumo para este livro. Ele contempla muito do que cobri como jornalista e sintetiza um inconformismo com esse estado das coisas. A ficção me deu uma liberdade que o jornalismo jamais daria: o livre juízo. No jornalismo eu preciso provar o que digo e não posso sequer julgar, na ficção posso julgar e condenar. E punir aqueles que todos nós gostaríamos de ver punidos”. 

Mauri revela que os personagens do livro são reflexo da vida real. “Embora nenhum deles esteja identificado por nomes e a história não esteja enquadrada num espaço-tempo. Cada um sintetiza umas dezenas, talvez centenas, de políticos que nos rodeiam todo o tempo e a qualquer tempo”. 

Mauri é autor dos livros “Nos bastidores do mundo invisível”; “O Brasil Oculto”, “Narrativas de um correspondente de Rua” e “Processo de Produção Jornalística”. 

A obra Corações corruptos está disponível em e-book no site da Amazon

Crédito:Divulgação



Portal Imprensa - O livro “Corações corruptos” é a sua primeira obra de ficção. Gostaria que você contasse sobre a ideia da escrita do livro. Como foi o seu processo de criação?
Mauri König - Passei três décadas escrevendo com o compromisso jornalístico de provar a todo instante o que dizia, em uma linguagem de fácil compreensão. Depois passei dois anos num mestrado, cuja linguagem é mais técnica, formal. No entremeio, uma especialização em jornalismo literário apareceu como um respiro criativo. Depois de escrever quatro livros sobre jornalismo, estava na hora de um desafio. A literatura de ficção me pareceu um caminho natural.

Foi demasiado difícil se aventurar pela ficção, é um trabalho custoso e macerado criar uma realidade própria, com personagens próprios. É difícil acertar a mão quando se está tanto tempo amarrado a padrões narrativos, então este livro foi concebido há uns 10 anos, com escritas e reescritas intercaladas por longos períodos. Nos intervalos, fui extraindo o perfil dos personagens a partir das minhas próprias reportagens ou de terceiros, com o que saía na imprensa. Cada personagem esteve antes nas páginas dos jornais.

Portal Imprensa - O livro narra sobre um serial killer que arranca corações de políticos corruptos. Você é um jornalista premiado na cobertura sobre corrupção estatal. Quanto da sua experiência na reportagem impactou na sua narrativa ficcional?
Mauri König - O jornalismo me permitiu conhecer os meandros de diferentes tipos de corrupção, desde contravenções cotidianas até grandes esquemas operados em gabinetes políticos e nos bunkers do crime organizado. Políticos, policiais, militares, pedófilos, empresários, traficantes e criminosos dos mais variados perfis sempre estiveram no meu radar de cobertura. O jornalismo nos ensina a seguir o dinheiro, o que significa seguir o poder, e onde há poder há uma boa possibilidade de haver corrupção.

É impossível ficar indiferente às injustiças produzidas pela corrupção depois de tratar disso por 30 anos. Então, tudo o que aprendi e descobri no jornalismo serviu de insumo para este livro. Ele contempla muito do que cobri como jornalista e sintetiza um inconformismo com esse estado das coisas. A ficção me deu uma liberdade que o jornalismo jamais daria: o livre juízo. No jornalismo eu preciso provar o que digo e não posso sequer julgar, na ficção posso julgar e condenar. E punir aqueles que todos nós gostaríamos de ver punidos.

Então dá para dizer que o Mauri König ficcionista não existiria sem o Mauri König jornalista. O jornalista nutriu o ficcionista. Seja um, seja outro, nunca fui adepto do meio-termo e, portanto, não tenho falsos pudores em dizer que este livro é um espaço de justiçamento, o lugar de descarrego das pulsões reprimidas em nome da boa conduta social. O grande barato da literatura de ficção é que ela nos concede o direito de ser e de fazer o que bem entendermos. Isso é libertador.

Portal Imprensa - Podemos afirmar que há componentes da realidade na obra? Talvez personagens baseados na realidade?
Mauri König - Quase tudo neste livro é baseado no mundo real e em personagens reais. Todo livro tem um pé na realidade, ainda que seja uma pegada invisível. Mesmo as distopias têm uma referência na realidade, para antagonizá-la ou para sugerir outras possibilidades. A realidade é inevitável a qualquer escritor. À época do lançamento, o livro 1984, de George Orwell, soou distópico, irreal, mas a realidade nele descrita hoje é tão vívida quanto presente. Gabriel García Márquez deixou claro umas quantas vezes que os personagens de Cem anos de solidão, obra máxima do realismo fantástico, foram inspirados em gente de carne e osso.

Do mesmo modo, os personagens do meu livro são reflexos da vida real, embora nenhum deles esteja identificado por nomes e a história não esteja enquadrada num espaço-tempo. Cada um sintetiza umas dezenas, talvez centenas, de políticos que nos rodeiam todo o tempo e a qualquer tempo. A fauna política é repleta deles, do vereador que compra votos ao prefeito que desvia recursos públicos, do governador que maquia as contas públicas ao presidente falastrão que compra o apoio de deputados e senadores com o dinheiro que não lhe pertence.

Todos os personagens do livro têm o seu avatar no mundo real, sobretudo em países onde há uma constante insatisfação com a classe política. O ineditismo é o perfil do serial killer, seus métodos de execução e suas motivações para isso. Agora cabe ao leitor fazer as suas descobertas.

Portal Imprensa - Quais habilidades jornalísticas você acredita que o ajudaram na construção do livro?
Mauri König - Grande parte do patrimônio de um jornalista é sobre o que ele escreve e como ele escreve. Sempre cobri temas de forte impacto social, e isso se reflete neste livro. Creio que meu ponto forte no jornalismo é a escrita, reflexo, talvez, da formação anterior em Letras. A prática diária do jornalismo nos permite melhorar a capacidade de nos fazer entender, ora mais objetivos, ora mais subjetivos. Então, procurei mesclar diferentes linguagens, trazendo para a narrativa diálogos triviais do cotidiano e reflexões que beiram pretensões filosóficas. A experiência nos ensina a usar a estratégia narrativa conforme a conveniência, de forma a não entregar o ouro logo de cara, o que é essencial em uma obra de suspense.

Portal Imprensa - Quem é o público-alvo do livro? Quem você gostaria que lesse a obra?
Mauri König - Este livro usa a estratégia do suspense para explorar os efeitos da política na vida de todos nós. É certo que o personagem oculto na história, o serial killer, recorre a métodos extremos, mas de que outra forma se conseguiria chamar atenção para algo tão danoso e que parece ter se naturalizado? Creio que o livro vá interessar a quem gosta de um bom suspense, com mistérios e reviravoltas. Vale ainda para quem não se conforma facilmente com o estado de coisas no meio político.