“O combate ao machismo tem que existir em todos os ambientes, inclusive no jornalismo”, diz Ana Paula Araújo, que lança livro sobre a cultura do estupro

Kassia Nobre | 07/10/2020 11:16
A jornalista Ana Paula Araújo acaba de lançar o livro Abuso - A cultura do estupro no Brasil (Globo Livros). 

A obra é resultado de quatro anos de pesquisas, viagens pelos quatro cantos do país, e mais de uma centena de entrevistas com vítimas e seus familiares, criminosos, juízes, desembargadores, psiquiatras, psicólogos e outros especialistas. 

“A ideia foi percorrer o país ouvindo todos os lados envolvidos nesse assunto tão pesado, porém necessário. Conciliar com meu trabalho na TV não foi fácil. Aproveitava para viajar nos fins de semana de folga, feriados e as vezes fazia ida e volta a lugares menos distantes no mesmo dia”, relata. 

Ana Paula analisa casos que chocaram o Brasil, de anônimos e pessoas públicas, e outros tantos que, apesar de bárbaros, ficaram perdidos em meio ao constrangimento das vítimas e à lentidão da lei para mostrar como o estupro afeta toda a rede familiar e deixa marcas indestrutíveis na vida de quem o sofre.

O Portal Imprensa conversou com a jornalista sobre a produção do livro e os desafios do jornalismo na cobertura de casos de abuso. 

Ana Paula Araújo apresenta o Bom Dia Brasil e faz parte do rodízio de apresentadores do Jornal Nacional. Em 2011, Ana Paula fez parte da equipe do Jornalismo da Globo que ganhou o prêmio Emmy Internacional pela cobertura da ocupação do Complexo do Alemão no ano anterior, quando ficou por oito horas ininterruptas no ar. Abuso é seu livro de estreia. 

Crédito:DIvulgação Globo Livros

Portal Imprensa - A obra teve quatro anos de pesquisas, viagens pelo país e mais de 100 entrevistas com vítimas e familiares, criminosos, psiquiatras e diversos especialistas no assunto. Gostaria que você contasse um pouco sobre esse processo de investigação.

Ana Paula Araújo - A ideia foi percorrer o país ouvindo todos os lados envolvidos nesse assunto tão pesado, porém necessário. Conciliar com meu trabalho na tv não foi fácil. Aproveitava para viajar nos fins de semana de folga, feriados e as vezes fazia ida e volta a lugares menos distantes no mesmo dia. Isso foi um dos fatores que deixaram o trabalho de pesquisa tão longo. Outro fator foi psicológico. O mergulho nesse assunto, entre tantos depoimentos dolorosos e outros revoltantes, de criminosos, as vezes drenava minha energia e eu precisava fazer pausas antes de retomar o trabalho

Portal Imprensa - Você poderia citar histórias que mais chamaram a sua atenção durante a construção do livro?
Ana Paula Araújo - Todas foram muito difíceis de ouvir, mas algumas me marcaram mais que outras. Uma delas foi o resgate de duas adolescentes da Ilha do Marajó que eram violentadas constantemente pelo próprio pai. Ele já havia sido preso pelo crime, mas foi solto pela justiça e estava de volta à mesma casa. Cheguei acompanhada de um delegado para fazer as entrevistas. Lá estava o pai abusador. Longe dele, as meninas contaram que os estupros continuavam acontecendo. O delegado então coordenou o resgate das meninas, junto com a mãe e mais duas irmãs menores no nosso barco. Acho que foi o momento mais tenso de toda a pesquisa

Portal Imprensa - Qual foi a motivação ou as motivações para a pesquisa sobre o tema da cultura do estupro no Brasil?
Ana Paula Araújo - A motivação foi perceber que esse tema permeia a vida de todas nós, mulheres. Desde abusos menores, dentro do transporte público ou no ambiente de trabalho, até os estupros que acontecem na rua ou dentro de casa, todas nós temos histórias desse tipo de violência pra contar. Mas percebo que as mulheres estão se unindo, se mobilizando e denunciando cada vez mais. Achei importante dar minha contribuição

Portal Imprensa - O livro sugere alguns questionamentos: Por que o estupro é um crime ainda tão comum no Brasil? Por que a vítima muitas vezes é tão – ou mais – julgada pela sociedade do que o próprio criminoso? Por que é tão difícil fazer uma denúncia? Como a obra buscou esclarecer tais temas?
Ana Paula Araújo - Soa como clichê, mas a resposta está na nossa sociedade machista. É a ideia de que o homem vale mais que a mulher que está por trás do preconceito e da desconfiança contra as vítimas. E elas mesmas compram esse discurso e se sentem culpadas e com vergonha. Nossos policiais, juízes, médicos fazem parte da mesma sociedade e assim, ao invés de cumprir o papel de acolher, acabam na maioria das vezes cometendo uma nova violência contra a vítima, ao tratá-la com deboche, descaso, descrédito e não respeitar os direitos que a própria lei prevê para quem sofre violência sexual.

Portal Imprensa - Como você enxerga o papel e os principais desafios do jornalismo na cobertura de casos de estupro? O jornalismo acerta ou precisa melhorar?
Todos precisamos melhorar, o combate ao machismo tem que existir em todos os ambientes, inclusive no jornalismo. Nosso papel é sempre denunciar  e nunca relativizar a violência, contra quem quer que seja, mas especialmente contra crianças, que são as maiores vítimas de estupro. Percebo cada vez mais uma preocupação em assumir esse papel. Os veículos de imprensa tem a obrigação de lutar por valores fundamentais, como a liberdade, o respeito e o fim da violência