"Quando falamos de startups, outras habilidades são importantes para garantir que uma empresa jornalística sobreviva”, alerta Fabiana Zanni do Google

Redação Portal IMPRENSA | 10/09/2020 14:23
Como desenvolver novos negócios de jornalismo e o empreendedorismo no setor? O mídia.JOR realizou um bate-papo entre Philip Smith, especialista de startups nos EUA, e Fabiana Zanni, diretora de parcerias LATAM no Google, para falar sobre o assunto. A mediação da conversa foi feita por Lúcio Mesquita, curador do evento. 

Os profissionais compartilharam suas experiências e dicas sobre o que fazer e o que não fazer, ao começar um empreendimento jornalístico. 

GNI Startup Lab
Fabiana Zanni trabalha há 4 anos na Google como Cross Partner Manager e ajuda publishers, principalmente publishers de notícias, a prosperar no espaço digital. 

“O programa do qual estou encarregada, aqui no Brasil, se chama de GNI Startup Lab. É um projeto pioneiro no Brasil e no Google, que apoia startups de notícias em seu estágio inicial de desenvolvimento. Foi projetado para oferecer um programa de imersão de 13 semanas no Google for Startups Campus em São Paulo para empreendedores comprometidos em desenvolver produtos jornalísticos”. 

Fabiana explica que as startups selecionadas receberão US$ 2 mil além de treinamentos, mentoria e workshops. 

“A ideia é oferecermos a eles conteúdo sobre produtos, modelos de negócios, vendas, marketing, investimento, financiamento e desenvolvimento de comunidade. No final do programa, a ideia é ter essas startups preparadas para um dia de demonstração para potenciais investidores”. 

Devido à pandemia, o programa, que era para iniciar em abril deste ano, foi interrompido. A ideia agora é que o programa seja 100% à distância para oferecer conteúdos e experiência às startups que já fizeram suas inscrições. 

“Existem ideias maravilhosas por aí, assim como existem jornalistas maravilhosos no mercado. Bem preparados para fazer seu trabalho como jornalistas, mas quando falamos sobre startups, outros conjuntos de habilidades são muito importantes para garantir que uma empresa possa sobreviver neste novo ambiente. E é por isso que para nós é muito importante ver, nas equipes, pessoas que entendam de tributação, por exemplo, de negócios, do lado comercial. Isso para que possamos ter uma conversa com pessoas mais preparadas para coletar as informações que estamos compartilhando, compartilhar informações entre eles, e ir para o próximo nível quanto ao desenvolvimento da empresa”. 

O programa recebeu mais de 200 inscrições de todo o país, com propostas de startups sediadas no Brasil focadas em desenvolver produtos jornalísticos com apuração original ou teor explanatório.  



Lab Bootcamp 
Philip Smith é um consultor e coach veterano. O seu trabalho é ajudar startups a aumentar seu público e jornalistas a empreender.  

Ele coordena nos EUA e no Canadá o GMI Startups Lab. “Eu coordeno uma parte, o Startups Lab Bootcamp. O bootcamp são 8 semanas online, totalmente remoto, de uma experiência de desenvolvimento profissional que visa ajudar jornalistas interessados em iniciativas de notícias locais ou focadas em um único assunto. O objetivo é ajudá-los a remover o risco de sua ideia. E remover o risco quer dizer analisar fatores e variáveis para uma empresa bem-sucedida, antes de lançar, e avaliar se podem eliminar os fatores mais arriscados”, afirma. 

O foco do projeto de Philip é nas notícias locais, por isso o projeto tem parceria com o Local Independent Online News Publishers, uma associação profissional de mais de 400 sites independentes de notícias locais nos EUA e Canadá. 

“A gênese do bootcamp veio de padrões que eu via quando entrevistava jornalistas que tinham começado seus sites de notícias de qualquer natureza. Fiz dezenas de entrevistas, em Stanford. E o padrão basicamente era: ou eu estou inspirado, por ter uma visão do projeto em que quero trabalhar; ou desesperado, porque fui demitido ou vejo demissões pela minha redação. E normalmente eles saem, montam um site e começam as reportagens. E 6, 8 ou 12”.



Investimento 
Sobre o capital e investimento necessários para iniciar um novo projeto, Philip relatou sobre as experiências de fundadores com quem conversou: 

“Nas entrevistas que fiz, a maior parte do capital usado vinha de uma compensação por aquisição ou demissão talvez uma linha de crédito pessoal ou cartões de crédito no primeiro ano, talvez um único patrocinador que se comprometa antes de começarem a publicar, com US$ 25 mil, algo assim. Mas há custos inevitáveis para a maioria das startups de alguns milhares de dólares, independente do projeto. Custos de hospedagem, de e-mail, de alguns equipamentos e à medida que sua plataforma tecnológica e backend ficam mais sofisticados, você acrescenta serviços de terceiros e tudo se soma. Então, não é algo que possa ser feito 100% de graça”. 

Fabiana complementa a fala do colega sobre a necessidade ou não de uma quantidade  considerável de dinheiro para lançar iniciativa jornalística de notícias. 

“Você pode começar do nada mesmo, sem nenhum dinheiro para fazer uma proposição e começar a crescer. Mas não podemos esquecer que, mesmo quando você faz isso, você deve ser pago, você deve ter uma maneira de alcançar sustentabilidade e isso é um desafio enorme. No Brasil, como nos EUA, na verdade acho que a situação é ainda pior, não vemos muito apetite para investimentos neste tipo de empresa. Ainda assim, vemos alguns casos, quando acontece, às vezes, tem uma causa por traz. Vemos investidores que realmente acreditam no impacto que as notícias podem gerar na sociedade e estão dispostos a colocar algum dinheiro nisso”. 

Dicas 
Philip compartilhou dicas de o que fazer ao começar um empreendimento jornalístico, entre elas: "Estabeleça uma meta muito clara em termos de quanto dinheiro você precisa para se sustentar no final de seu terceiro ano. E faça a conta regressiva do que precisa ganhar no ano um, ano dois, e faça calcule como você vai chegar lá.” Além de outras ideias Philip defende  "pense em contribuir para a diversidade, através de sua iniciativa. Como em ter uma conduta ética e fazer a coisa certa."

Já Fabiana compartilhou dicas do que NÃO fazer ao começar um empreendimento jornalístico. "Não tente continuar repetindo coisas, não tome o passado como base para o que você está fazendo. Há muitas coisas a aprender com o passado e todos nós estamos aqui porque fomos ensinados e alimentados pelo grande jornalismo que foi feito por essas grandes empresas que acompanhamos enquanto crescíamos. Tire o melhor disso, mas não tente recriar estas iniciativas, avance e faça algo de diferente, criativo com base nisso e no que você tem em mãos, que são ferramentas, tecnologia, informação e pessoas dispostas a experimentar coisas novas."  E incentiva "por último, definitivamente, não desista muito cedo.” 

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