Comitê internacional cobra investigação de assassinato de repórter durante ação militar na Colômbia

Redação Portal Imprensa | 20/08/2020 11:46

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas solicitou esta semana às autoridades colombianas que investiguem com rapidez e transparência o assassinato de José Abelardo Liz, jornalista da rádio indígena Nación Nasa Estéreo, e determinem se militares do Exército foram responsáveis pelo crime.

Crédito:Reprodução / Twitter
Abelardo Liz


Liz foi baleado e morto no dia 13 de agosto durante uma ação militar para retirar membros do grupo indígena Nasa de terras próximas à cidade de Corinto, no oeste do país, segundo reportagens da imprensa local.


O repórter filmava toda a ação quando foi atingido por três tiros. Imagens do último vídeo feito pelo jornalista foram usadas em reportagem sobre a ação militar produzida pela Nasa Estéreo e publicada no YouTube (assista abaixo). Um segundo civil também foi morto, e outro ficou ferido, de acordo com as reportagens.



O Exército tinha o intuito de remover o povo Nasa de terras que eles afirmam ser seu território ancestral e que já ocupam há seis anos. Já os militares afirmam ser propriedade privada, porque legalmente a terra é de uma empresa açucareira.


Dora Muñoz, porta-voz da Nasa, disse que os soldados “atiraram indiscriminadamente” contra civis e acertaram Liz no peito. Ela disse que o hospital de Corinto não tinha equipamento para operar o jornalista e ele morreu em uma ambulância a caminho de outro hospital na cidade vizinha de Cali.


Abelardo Liz tinha 34 anos e era membro do grupo indígena. Ele apresentava um programa diário de notícias e cultura chamado El Sabor de la Tarde.


Exército culpa “guerrilheiros de esquerda” pelas mortes


Em um vídeo compartilhado nas redes sociais no dia 13 de agosto, após a notícia da morte de Liz, o general Marco Vinicio Mayorga Niño, comandante da divisão cujas tropas participaram da operação, culpou a Nasa e os guerrilheiros de esquerda pelas duas mortes.


“Atacaram a força pública quando ela se encontrava cumprindo seus deveres constitucionais, causando lesões em seus integrantes. Houve um ataque de um grupo armado camuflado entre a comunidade indígena. As tropas do Exército Nacional nunca acionaram suas armas contra a comunidade indígena, ao contrário, responderam ao ataque desmedido do grupo armado”, declarou o general.


Ele também afirmou que os “guerrilheiros de esquerda” tentaram sequestrar tropas e roubaram equipamentos de comunicação do Exército.


“O assassinato do jornalista José Abelardo Liz é uma tragédia e as autoridades devem investigar minuciosamente as circunstâncias de sua morte e responsabilizar os responsáveis”, disse Natalie Southwick, coordenadora do programa do CPJ para as Américas do Sul e Central, em Nova York. “Os militares colombianos devem parar de tentar desviar a culpa pela morte de Liz, e as autoridades precisam se comprometer a conduzir uma investigação transparente, especialmente sobre as alegações de que ele foi baleado e morto por soldados”.


A representante do Ministério da Defesa da Colômbia, Oriana Garcés, não comentou sobre a morte de Liz e citou um comunicado (veja abaixo) do General Mayorga reafirmando o que havia sido dito no vídeo.



Dora Muñoz negou que os membros da comunidade Nasa estivessem armados e disse que os militares haviam impedido a equipe médica de entrar em contato com Liz para ajudá-lo depois que ele foi baleado.


A Fundação para a Liberdade de Imprensa, com sede em Bogotá, descreveu o uso da força pelo exército contra os indígenas da Nasa como “desproporcional” e disse que “rejeitou” a descrição dos acontecimentos pelos militares. O comunicado também acusou os militares de obstruir passagem para um caminhão que tentava levar Liz a um hospital.


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