Jornalista Juremir Machado lança livro com cartas inéditas do ex-presidente João Goulart

Kassia Nobre | 05/03/2020 09:27
Os bastidores do governo do ex-presidente João Goulart por meio de cartas são o enredo do novo livro do jornalista Juremir Machado da Silva. A obra “A Memória e o Guardião” (Civilização Brasileira) revela documentos escritos por cidadãos comuns e autoridades brasileiras e internacionais destinados a Jango. 

O livro reuniu 927 itens, como cartas, telegramas, relatórios, informes, cartões de Natal, de aniversário, de Ano Novo, entre outras congratulações. 

“Há intrigas, denúncias, articulações. É um mergulho em nossa brasilidade histórica. Mais do que tudo, uma mostra consistente da comunicação entre o presidente da República e a sociedade”, explica  o autor. 

O Portal IMPRENSA conversou com Juremir sobre a pesquisa que resultou na obra. “O Brasil de hoje mostra-se sem retoques no Brasil de ontem. O presidente parece cercado por um enxame de pedintes de todos os escalões”, complementa. 

Juremir é autor de diversos livros, entre eles, História regional da infâmia (2010) e Raízes do Conservadorismo Brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social (2017). 

Crédito:Divulgação Civilização Brasileira


Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse sobe o processo de pesquisa do livro. Como você chegou aos documentos (cartas inéditas) do ex-presidente João Goulart?
Juremir Machado - Os documentos chegaram a mim. Como já publiquei os livros Getúlio (Record, 2004), 1930 (Record, 2010) e Jango, a vida e a morte no exílio (L&PM, 2013), muitas pessoas me procuram com documentos sobre essa época e esses personagens históricos. Quando Jango caiu, pediu a um assessor chamado Wamba Guimarães que tratasse de proteger a correspondência da qual ele se encarregava no dia a dia. Fiel entre os fiéis, Wamba partiu com duas malas de papéis. Ficou com elas no seu quarto, no interior de São Paulo, por 50 anos, até morrer. O neto de Wamba, Ricardo Guimarães, me procurou. Queria vender o material para montar um quarto enfermaria para a avó.

A Unimed Federação-RS, graças aos seus dirigentes Nilson May e Alcides Stumpf, comprou o acervo, que ficará disponível na Casa da Memória, em Porto Alegre, espaço documental da Unimed Federação RS. Fiquei com o privilégio de poder explorar o material inédito em minha pesquisa. Tenho feito isso nos últimos anos. Tem sido apaixonante. É um mundo de relações guardado ali.

Portal IMPRENSA - O que as cartas podem contar sobre o ex-presidente e sobre a história do país?
Juremir Machado - São cartas, minutas de memorandos, informes especiais, relatórios, rascunhos de projetos, informes sobre conspirações, muita coisa. O que mais chama a atenção é quantidade de pedidos ao presidente. Todos pedem e pedem de tudo. Pedem ex-presidentes, senadores, deputados, governadores, militares da ativa e da reserva, cidadãos comuns.

Pedem favores, empregos para parentes, cargos, transferências, empréstimos para comprar a casa própria, um cavalo preto, dinheiro, passagens de avião. Jango despacha. Acertos políticos são feitos. Há documentos sobre partilha de cargos em caso de eleição. Uma radiografia dos bastidores do poder no cotidiano se dá a ver. O Brasil de hoje mostra-se sem retoques no Brasil de ontem. O presidente parece cercado por um enxame de pedintes de todos os escalões.

Portal IMPRENSA - Quais são as correspondências que mais chamaram a sua atenção e por quê?
Juremir Machado - Chama a atenção o fato de que inimigos pedem tanto quanto amigos. JK pede, Tancredo Neves também. Magalhães Pinto, que ajudaria a derrubar o governo, pede sem constrangimento. Governadores estão sempre na fila. Pessoas comuns pedem bastante porque se sentem desamparadas. Tudo passa pela presidência, até a nomeação ou transferência de um contínuo do Banco do Brasil. Jango mostra habilidade, paciência, ponderação, disponibilidade. Uns pedem e agradecem. Outros cobram. Há intrigas, denúncias, articulações. Pede-se muito emprego para parente. Enfim, é um mergulho em nossa brasilidade histórica. Mais do que tudo, uma mostra consistente da comunicação entre o presidente da República e a sociedade. Há formas de pedir e de conceder. Cabe analisar o discurso, as narrativas, a retórica, o imaginário, as relações estabelecidas. O poder e sua legitimidade parecem assentar-se sobre esse instável equilíbrio comunicacional de influência e reciprocidade.