Jornalista Renata Tomaz analisa o fenômeno dos youtubers mirins em livro

Kassia Nobre | 20/01/2020 13:10
A jornalista e pesquisadora Renata Tomaz acaba de lançar o livro “O que você vai ser antes de crescer? – Youtubers, infância e celebridade” (Edufba). 

A obra propõe uma reflexão sobre a relação da mídia com a infância e das crianças com as redes sociais. A autora analisou o fenômeno dos/as youtubers mirins. 

"Em linhas gerais, eu diria que um dos grandes impactos do fenômeno midiático dos youtubers mirins é a percepção da própria criança de que ela poderá ocupar um lugar social que antes lhe custava muito tempo. "Ser alguém na vida", ou seja, ser reconhecido pelo que faz, exigia muitos anos na escola e muito investimento de toda ordem dos responsáveis", explica. 

O Portal IMPRENSA conversou com a jornalista sobre a pesquisa que foi resultado de sua tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Crédito:Edufba

Portal IMPRENSA - A obra propõe uma reflexão sobre a relação da mídia com a infância e das crianças com as redes sociais. Conta como foi o processo de produção da pesquisa. Como surgiu a ideia de pesquisar sobre o assunto? 
Renata Tomaz - Essa última pesquisa dá continuidade, de certa forma, aos estudos realizados no mestrado, onde comecei de fato a investigar a relação da infância com a mídia. Decidi avançar no assunto, porque a primeira pesquisa despertou outras questões, que precisavam de um pouco mais de fôlego para serem abordadas. A principal delas era entender de que modo as mídias, em suas múltiplas linguagens, afetam os processos de socialização das crianças no contexto brasileiro. Não apenas como pesquisadora, mas como mãe (tenho um filho de 10 anos), queria entender melhor o papel das tecnologias, dos textos, das imagens, dos vídeos e das auto-representações nos modos através dos quais as crianças se inserem no universo social. Diante da amplitude da questão, escolhi o YouTube como meu objeto de pesquisa para observar o fenômeno de uma infância cada vez mais publicizada. Fiz isso através de uma etnografia, por meio da qual imergi no mundo das crianças que produzem e consomem vídeo para a internet.

Portal IMPRENSA  - Você estudou o fenômeno dos\as youtubers mirins. Como você analisaria este fenômeno e o impacto dele para as crianças? 
Renata Tomaz - A meu ver é, antes de tudo, um fenômeno midiático que revela como as crianças se valem da comunicação mediada por computador para serem e estarem no mundo. Os impactos dos usos que elas fazem dessas tecnologias são múltiplos e dependem muito do contexto dessa criança. Para algumas, o YouTube é a nova TV aberta, considerando que a programação infantil está quase completamente restrita aos canais pagos. Para outras, trata-se de uma plataforma de produção de vídeos que poderão conferir certa fama a seu nome. Em linhas gerais, eu diria que um dos grandes impactos do fenômeno midiático dos youtubers mirins é a percepção da própria criança de que ela poderá ocupar um lugar social que antes lhe custava muito tempo. "Ser alguém na vida", ou seja, ser reconhecido pelo que faz, exigia muitos anos na escola e muito investimento de toda ordem dos responsáveis. Em minha pesquisa, ouvi meninos e meninas dizerem algo como: "eu não preciso crescer para ser o que eu quero, eu posso ser hoje". Essa possibilidade, ainda que muito restrita a uma parcela de crianças, circula no imaginário da infância e faz com que esse período da vida ganhe novos contornos na nossa sociedade. Além de um tempo de crescer para ser alguém, a infância também é um tempo de ser alguém antes de crescer. As crianças passam a considerar que não precisam ser adultas para realizar uma série de coisas e para serem reconhecidas por isso. Essa percepção pode fazer com que as crianças não queiram (ou nem mesmo aceitem) esperar tanto por algo que queiram realizar. Não é que a infância tenha diminuído ou desaparecido. Pelo contrário. O fato é que ela comporta mais do que comportava.

Portal IMPRENSA - Você fala de novas experiências para os primeiros anos de vida a partir do uso das mídias digitai.  Quais seriam estas novas experiências? 
Renata Tomaz - Novamente, isso depende muito do contexto da criança. Mas uma delas está ligada aos processos de projeção e identificação. Quando a gente pergunta a uma criança o que ela quer ser quando crescer, de certo modo, está perguntando com que tipo subjetivo ela se identifica. A resposta pode ser jogador de futebol, professora, médico, cantora, modelo, motorista. Essas figuras estão vinculadas a alguém, comumente um adulto, por meio de quem as crianças se projetam, imaginando o que serão um dia. Com essa oferta sem precedente de representações de crianças ocupando lugares de relevância social, a própria figura infantil se torna um modelo do que ser. Além de buscarem figuras modelares, as crianças se tornam essas figuras para outras crianças, tornam-se exemplos de como ser e estar criança em diferentes realidades. Carregam uma responsabilidade que antes era cobrada das personalidades adultas que agradavam aos pequenos. Muitas crianças com quem conversei demonstravam a necessidade de serem responsáveis, em função de outras crianças.