"Defender o jornalismo dos ataques que vem sofrendo é nossa prioridade máxima", diz candidato a presidente da Abraji

Leandro Haberli | 25/11/2019 12:41

Encabeçando chapa única na eleição para a diretoria da Abraji no biênio 2020-2021, que se encerra nesta segunda, 25, Marcelo Träsel, 41, é professor de jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Além de falar sobre os planos de sua gestão à frente da entidade, na entrevista a seguir concedia ao Portal IMPRENSA ele analisa os ataques sofridos pelo jornalismo no Brasil e no mundo e explica porque arrisca chamar o momento atual de o "mais desafiador para a imprensa desde a redemocratização". "Os riscos estão longe daqueles vividos por jornalistas sob um regime ditatorial como o período de governos militares brasileiros, ou aqueles que vivem hoje em países como a Nicarágua ou a Venezuela. Ainda assim, a cada dia os repórteres encontram mais empecilhos à sua atividade."


Portal IMPRENSA - Quais os principais desafios da Abraji nos próximos anos?
Marcelo Träsel - O principal desafio parece ser a relação entre os jornalistas e instituições como governos, partidos, casas legislativas, movimentos da sociedade civil, entre outras, num ambiente de extrema polarização. A Abraji vem registrando desde 2013 cada vez mais ataques a repórteres no exercício de sua profissão, o que é muito grave. Defender os jornalistas e o jornalismo de tais ataques é a nossa prioridade máxima.
Além disso, uma das preocupações principais da nossa gestão será ampliar a presença da Abraji nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, bem como nas periferias e cidades do interior de todas as regiões do Brasil. Temos certeza de que a associação e o jornalismo podem se beneficiar de maior diversidade social e cultural, a qual garante maior pluralidade de perspectivas na cobertura dos fatos. O combate aos desertos de notícias também será fortalecido com a presença da Abraji. Nossa chapa se compromete a buscar formas de facilitar a participação de repórteres, estudantes e professores cuja situação sócio-econômica seja difícil, no Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, nosso principal evento. Por outro lado, pretendemos dar mais espaço para que essas pessoas mostrem o bom jornalismo que é produzido fora das regiões Sul/Sudeste e dos grandes centros urbanos.
Também queremos ampliar a contribuição da Abraji para a inovação e o empreendedorismo no jornalismo brasileiro, pois entendemos que o jornalista capaz de inovar e empreender está mais preparado para atuar no mercado profissional e levar informação a seus públicos com maior eficácia.
Crédito: Reprodução YouTube
Encabeçando chapa única, novo presidente da Abraji foi eleito para o biênio 2020-2021
Portal IMPRENSA - Qual o número de associados da Abraji hoje e como aumentar essa base?
Marcelo Träsel - É difícil dar uma resposta precisa, porque o número flutua. No momento, a associação tem cerca de 300 sócios em dia com a anuidade. Historicamente, a base de associados oscila entre 200 e 300, embora venha mostrando uma suave tendência de crescimento. Em geral não há campanhas de associação, mas os projetos da Abraji, em especial o congresso e os cursos,  divulgam a entidade para cada vez mais jornalistas. Uma das metas da nova gestão é criar benefícios especiais para sócios, que possam servir como um atrativo a mais, além da satisfação de colaborar na construção de uma entidade que assumiu protagonismo na defesa da liberdade de expressão, do acesso à informação pública e que oferece capacitação a milhares de jornalistas todo ano. 

Portal IMPRENSA - A Abraji  acredita que o momento atual é um dos mais desafiadores para a imprensa no Brasil?
Marcelo Träsel - O atual momento parece ser o mais desafiador para a imprensa desde a redemocratização, sim. Os riscos estão longe daqueles vividos por jornalistas sob um regime ditatorial como o período de governos militares brasileiros, ou aqueles que vivem hoje em países como a Nicarágua ou a Venezuela. Ainda assim, a cada dia os repórteres encontram mais empecilhos à sua atividade, seja por sofrerem ataques diretos da militância ou autoridades quando noticiam fatos que governos prefeririam esconder, seja porque muitos funcionários públicos estão sob um clima de perseguição e evitam fornecer dados ou falar com jornalistas. Além disso, discursos de diversos matizes políticos vêm tratando o jornalismo como antagonista, não mais como um contrapeso ao poder do Estado necessário para uma democracia saudável. O momento inspira, no mínimo, cautela.

Portal IMPRENSA - Como lidar com o assédio a jornalistas nas resde sociais?
Marcelo Träsel - As críticas e ataques à imprensa costumavam, para usar uma expressão recorrente hoje em dia, ser dirigidas a CNPJs, não a CPFs. O assédio de militantes nas redes sociais faz parte de um quadro mais geral de degradação da civilidade, que põe em risco a democracia. No Brasil e no mundo, ainda estamos aprendendo quais são as melhores formas de reagir a esse tipo de perseguição. Em 2018, a Abraji lançou um guia para lidar com o assédio contra jornalistas nas redes digitais, com algumas dicas que as vítimas podem aplicar de imediato quando se veem envolvidas nesse tipo de situação. No momento, a associação está desenvolvendo um convênio com a OAB, para oferecer apoio em aspectos nos quais a Abraji não tem capacidade ou mandato para atuar, como procedimentos judiciais. Além disso, acompanhamos as ações de outras entidades que enfrentam os mesmos desafios mundo afora, para aprendermos com as experiências dos outros.

Portal IMPRENSA - Além de ataques contra jornalistas, as redes sociais são o principal meio de disseminação de fake news. No ano que vem, teremos novas eleIções. Como se preparar para isso? 
Marcelo Träsel - Do ponto de vista do repórter, o mais importante é redobrar a cautela com as informações recebidas dos candidatos e demais atores sociais diretamente envolvidos na campanha, mas também com aquelas recebidas do público em geral, via redes sociais. Sobretudo, devemos tomar cuidado com vídeos, imagens ou dados sensacionais demais para serem verdade - em geral, não são verdadeiros, mesmo!  Além disso, os jornalistas podem contar com as agências de checagem de fatos para ajudar a desbancar os boatos e a desinformação. As parcerias entre redações podem ser muito frutíferas neste sentido, como demonstrou em 2018 o sucesso do projeto Comprova, que talvez possa ser replicado em nível regional por iniciativa das comunidades profissionais locais. Estamos tentando viabilizar a terceira edição do projeto, que vai ser direcionada ao combate à desinformação em nível local. A First Draft, parceira da Abraji no Comprova, oferece diversos materiais gratuitos sobre o tema. Estão em inglês, mas na página do Comprova no Facebook há vídeos em português com algumas dicas. Uma outra medida eficaz para combater a desinformação no nascedouro pode ser a incorporação da checagem na cobertura, evitando reproduzir aspas mentirosas em manchetes, mas já oferecendo a correção no próprio título ou lide. É interessante se atualizar a respeito dos procedimentos para verificação do conteúdo disponível em redes sociais. Uma boa referência em português é o manual de verificação traduzido com apoio da Abraji alguns anos atrás. O projeto Educamídia, do qual a Abraji participa, também oferece recursos gratuitos para lidar com o problema, mais focados na capacitação dos leitores.

Portal IMPRENSA - De que forma a Abraji tem reagido aos ataques a jornalistas feitos por membros do governo e seus apoiadores? 
Marcelo Träsel - A forma de reação mais imediata é a emissão de notas de repúdio, as quais são discutidas pela diretoria e respeitam o desejo do jornalista atingido - muitas vezes, as vítimas preferem não arriscar manter o assunto em evidência com uma nota. Também buscamos nos manifestar apenas quando há um empecilho claro à atividade jornalística, ou algum tipo de ameaça, ainda que velada, evitando reagir a críticas que, embora possam ser incisivas, estejam dentro dos limites previstos numa democracia. Por outro lado, os agressores são espertos o suficiente para jogar com esses limites, então nos vemos numa curva de aprendizado constante sobre o que configura um ataque. Além das notas, buscamos oferecer informação aos jornalistas, com oficinas e palestras durante o nosso congresso anual, cursos de segurança digital, um guia de referência rápida para lidar com o assédio, a oferta de uma rede de apoio, entre outras ações. Temos ainda o programa Tim Lopes, através do qual levamos adiante reportagens que estavam sendo apuradas por jornalistas assassinados, além de tentar encontrar os responsáveis. O mandato e a capacidade técnica da Abraji vão até aí, mas estamos buscando parcerias com outras entidades para ampliar nosso escopo de ação. Não temos por exemplo condições de oferecer serviços como assessoria jurídica, ao contrário dos sindicatos, mas estamos construindo um convênio com a OAB. Participamos da Comissão Permanente de Direito à Comunicação e Liberdade de Expressão, a qual oferecia algumas vias de interlocução com o governo federal. Também estamos em articulação permamente com entidades alinhadas ao mandato da Abraji, como Artigo 19, Repórteres Sem Fronteiras, Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Unesco, Comissão Interamericana de Direitos Humanos, entre outras. O nosso conselheiro Fernando Rodrigues é também conselheiro da rede Intercâmbio Internacional de Liberdade de Expressão.

Portal IMPRENSA - No início de novembro os associados da Abraji aprovaram mudanças no Estatuto. Quais as principais?
Marcelo Träsel - Os sócios aprovaram dois ajustes no estatuto em novembro: ficou vedada a eleição de ex-presidentes, mesmo após um período de afastamento de qualquer atividade na diretoria, e também foi indexado ao salário mínimo o limite de movimentação financeira permitido ao presidente. A mudança na alçada de atos financeiros em nome da Abraji tem por objetivo evitar a necessidade de mudanças frequentes ao estatuto, forçadas por uma eventual disparada da inflação, ou da cotação do dólar. O atual limite de R$ 50 mil já vinha se mostrando baixo para a magnitude dos patrocínios que a Abraji vem recebendo para seus projetos. Já a vedação da ocupação da presidência por ex-presidentes tem como sentido incentivar a renovação permanente dos quadros da diretoria. Essa exigência serve como incentivo para toda diretoria buscar a ampliação da base de sócios e pensar na formação de novos quadros. A Abraji é uma construção coletiva. Ao mesmo tempo, os ex-presidentes se tornam conselheiros, então seguem colaborando de perto e supervisionando a entidade. A interação entre a experiência dos conselheiros e as perspectivas frescas trazidas pelos membros de primeira ou segunda viagem da diretoria favorece uma gestão sustentável, equilibrada e transparente.