"Devemos recuperar a ABI como a trincheira da luta pela democracia", diz Pagê, candidato à presidência da ABI

Marta Teixeira | 24/04/2019 09:30

Nesta sexta-feira (26), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) vai escolher os responsáveis pela direção da entidade no triênio 2019/2022. 

Crédito: Reprodução

O pleito ocorre no momento em que o Brasil ocupa a pior colocação (105ª) desde 2015 entre 180 países pesquisados pelo Ranking de Liberdade de Imprensa elaborado pela Repórteres Sem Fronteiras, os jornalistas tornam-se alvo de intensos ataques pela prática da profissão e as empresas jornalísticas buscam alternativas para uma crise persistente. Três grupos disputam o comando da ABI nesta eleição.  


O atual presidente Domingos Meirelles tenta se reeleger encabeçando a chapa "ABI para todos". Paulo Jerônimo de Sousa, o Pagê, atual vice da entidade e presidente da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos, concorre à presidência pela chapa "ABI: Luta pela Democracia. Carlos Augusto Martins Aguiar é o candidato a presidente pela chapa "Barbosa Lima Sobrinho". 


O Portal IMPRENSA entrou em contato com as três chapas para conhecer cada candidatura. Até o momento, obteve resposta apenas da chapa "ABI: Luta pela Democracia".  


Na plataforma defendida por Pagê, a prioridade é recolocar a ABI no protagonismo das grandes causas nacionais. Mas as preocupações cotidianas dos profissionais frente a um mercado de trabalho em transformação também receberão atenção do grupo, garante. "Queremos ajudar os jornalistas a se reinventarem como comunicadores", diz o candidato.


A intensificação dos ataques aos jornalistas é outra preocupação do grupo, que se propõe a fortalecer o departamento jurídico e criar parcerias que permitam à entidade agir concretamente para a defesa da liberdade de imprensa e democracia. Leia a seguir a entrevista de Pagê falando sobre sua candidatura e projetos.


O que o motivou a se candidatar para a presidência da ABI?

PAGÊ - Lidero um grupo de mais de 100 jornalistas e comunicadores brasileiros preocupados com o retrocesso político que tomou conta do país. Diariamente, nos deparamos com ameaças à liberdade de imprensa e à democracia. Desejamos recuperar o protagonismo que a ABI sempre teve nas grandes causas nacionais. A desconstrução da verdade com a ajuda das fake news possibilitou que aventureiros chegassem ao Palácio do Planalto e ao Congresso Nacional. Os associados da ABI não podem cruzar os braços diante disso. É por isso que lançamos a chapa “ABI: Luta pela Democracia’.


Em linhas gerais, quais serão as prioridades de sua gestão e por que elegeu esses pontos como os principais?
Antes de tudo pretendemos recuperar as alianças que a ABI manteve no passado com as instituições que representam a sociedade civil organizada. Entre elas a OAB e a CNBB. Já existe uma Frente Nacional de Defesa do Estado Democrático de Direito – capitaneada pela OAB e a CNBB. Por razões que desconhecemos, a ABI ficou de fora deste pacto. Vamos corrigir tal omissão. Outro ponto significativo da nossa plataforma é o da requalificação profissional dos jornalistas e comunicadores diante das mudanças impostas pela comunicação digital. Fazem parte da nossa chapa cinco renomados educadores que estão dispostos a nos ajudar com a criação de cursos para atualização e modernização dos profissionais.


Qual a situação econômica da ABI atualmente e como avalia esse quadro?
As informações dadas pela atual diretoria ao Conselho Deliberativo da ABI dão conta que a dívida fiscal de R$ 12 milhões com a Fazenda Nacional teria sido anulada, quando a ABI conseguiu, por força de um decreto-lei de autoria do então senador José Sarney, imunidade fiscal. Pelo que se comenta, tirando este valor, a dívida atual ronda em torno dos R$ 400 mil. Mas a ABI é uma caixa preta. Nada se sabe com certeza.


O jornalismo atravessa um momento de grandes desafios. As críticas e ataques contra profissionais e a própria profissão se intensificaram significativamente nos últimos tempos. De que maneira a ABI pode interferir para melhorar essa situação e o que pretende fazer nesse sentido durante sua gestão?
Sou vice-presidente da ABI e também respondo pela Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos. Ao longo destes seis anos, mantivemos uma série de entendimentos com o Ministério da Justiça, a Secretaria de Segurança Pública do Rio e com governos de Minas e do Ceará para que fossem criados mecanismos de proteção aos jornalistas ameaçados no exercício da profissão. Em média, três companheiros são assassinados por ano em seus locais de trabalhos. Há inclusive casos de decapitação. Infelizmente, a atual direção da ABI preferiu se manifestar sobre estes atos de violência contra os jornalistas através de Notas Oficiais. Diga-se de passagem, absolutamente inócuas, uma vez que os ataques aos comunicadores só têm aumentado com o passar dos tempos. A ABI terá que ter um departamento jurídico fortalecido, de maneira que possa firmar convênios com a OAB ou Instituto dos Advogados para levar proteção jurídica em todo o País. E mais do que isso: passar a questionar os casos de violência, abuso e censura aos comunicadores diretamente no Supremo Tribunal Federal. Na principal Corte da Justiça brasileira há, pelo menos, cinco jurisprudências que garantem o direito de informar e ser informado.
 

Financeiramente, as empresas jornalísticas, principalmente as do setor impresso, têm enfrentado dificuldades significativas. Essa situação o preocupa particularmente? Como analisa os efeitos disso no jornalismo nacional?
As empresas de comunicação têm suas próprias instituições de classes que acompanham de perto as transformações impostas ao setor com o advento da internet. Preocupa-nos, e muito, quando a Editora Abril – que já foi a maior do continente sul americano e uma das cinco grandes do mundo - entra num processo de recuperação judicial. Isso gera desemprego tremendo. Este é o nosso foco. Queremos ajudar os jornalistas a se reinventarem como comunicadores. Não prometemos, em momento algum, “dar o peixe”. Queremos que reaprendam a pescar. A ABI tem condições de fazer isso não só se associando às universidades brasileiras, que estudam o problema, como também aos laboratórios de mídia existentes no exterior. 
 

Algumas pessoas criticam a ABI acusando-a de ter se distanciado da realidade dos profissionais de imprensa no país. Concorda com isso? Por quê?
Concordo. Desde a morte do dr. Barbosa Lima Sobrinho e com o início do processo de redemocratização a ABI ficou sem bandeiras. As diretorias que o sucederam não souberam adequá-la à realidade. É compreensível que os profissionais tenham se afastado. Ocorre que as ameaças à democracia e à liberdade de imprensa retomaram com o mesmo ímpeto da época da ditadura militar. Está é a razão pela qual temos recebido o apoio de jornalistas de todos os Estados brasileiros. Há um consenso entre nós de que devemos recuperar a ABI como a trincheira da luta pela democracia.
 

Considerando o cenário atual, qual sua expectativa de futuro para a imprensa brasileira?
Alguns veículos tradicionais de comunicação na Europa, nos Estados Unidos e no Japão estão encontrando maneiras de sobrevivência no mundo digitalizado. Ao mesmo tempo em que sufocou as plataformas convencionais de transmissão de informação, a comunicação digital abriu várias outras oportunidades. A questão é como aproveitá-las. Ainda somos respeitados pela nossa criatividade no desenvolvimento de softwares, designers e aplicativos. Há profissionais desempregados, por conta da crise, altamente talentosos e criativos. Apoiá-los na busca de novos caminhos pode ser uma das novas bandeiras a ser abraçada pela ABI.

Nota da redação: Essa matéria foi atualizada às 13:41 com a retificação do nome da chapa da situação. Até o momento da publicação original desse texto, a troca de nome não constava em nenhum dos documentos sobre a eleição no site da ABI.

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