Senado estuda reforma ortográfica que simplifica a língua; jornalistas discordam

Christh Lopes* e Lucas Carvalho* | 22/08/2014 17:00
Há dois anos, a presidente Dilma Rousseff (PT) adiou a implementação definitiva do novo acordo ortográfico no Brasil. Desde então, a Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado Federal trabalha para encontrar meios de facilitar o emprego da regra no país. No entanto, no início deste mês, uma das propostas foi divulgada pela imprensa e as polêmicas sugestões dividiram opiniões.

Crédito:Divulgação
Projeto polêmico de Ernani Pimentel visa simplificar a língua portuguesa

Trata-se de um projeto encabeçado pelo professor de língua portuguesa Ernani Pimentel, chamado “Simplificando a Ortografia”. A iniciativa sugere alterações como o fim da letra H no início de palavras (“homem” e “hoje” viram “omem” e “oje”), o fim da junção CH (“chave” e “chuva”, viram “xave” e “xuva”) e o fim da letra S com som de Z (“precisar” e “casa” viram “precizar” e “caza”), entre outras. Em resumo, o objetivo é tornar a linguagem escrita igual à falada.

“Há uma dificuldade muito grande para as pessoas aprenderem a escrever. Não é só por falta de leitura. É também por causa da complicação de algumas das regras”, explica Pimentel. Ele argumenta que muitas dessas normas não são padronizadas, de modo que só dificultam o aprendizado. “A língua portuguesa sofre por causa da ortografia. O que é difícil e não tem lógica é a ortografia”, argumenta.

Ernani frisa, porém, que ao contrário do que foi divulgado por alguns veículos, o projeto não está ainda na pauta da Comissão. Trata-se de uma proposta que será apresentada no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa e acontece em setembro, em Brasília (DF).

Em comunicado, o senador Cyro Miranda (PSDB-GO), presidente da Comissão, também fez questão de desmentir os boatos de que o projeto será apresentado como uma nova proposta de reforma da língua portuguesa. O que o grupo de trabalho tem feito no Senado é apenas discutir as mudanças, sem ainda oficializar qualquer proposta de lei.

Repercussão

À IMPRENSA, o jornalista e doutor em Língua Portuguesa Rodrigo Maia conta que acompanha o caso desde que a Comissão foi criada. Autor de uma proposta que contempla a variante brasileira da língua lusófona, o colunista do portal R7 acredita que as medidas não apresentam lógica, como possuem as regras gramaticais atuais.

“Na minha avaliação, ela perpassa por alguns pontos que podemos conversar. Mas, de certo, não concordo com as alterações propostas. Se coloca, por exemplo, a queda do ‘H’ e do ‘U’, pois não são pronunciados. Porém, se avaliadas as variantes regionais, vamos entrar em méritos complicados e designar uma ortografia para o Brasil todo”, comenta.

Questões como a abrangência das alterações, que podem dar maior projeção internacional, são inevitáveis. “Se as telenovelas brasileiras fizeram mais pela expansão na nossa língua do que congressos científicos, dissertações acadêmicas e artigos científicos, não vejo como um acordo ortográfico ajudaria”, afirma Sérgio Nogueira, colunista de português do G1.

Além do Brasil

Em Portugal, por exemplo, os cidadãos veem com total indiferença as alterações propostas pelo novo acordo. Segundo o jornalista português, doutor em ciência política e colunista da Folha de S. Paulo João Pereira Coutinho, a unificação da língua portuguesa é um “não-assunto”.  “Ela só interessa à comissão de sábios que resolveu colonizar a língua e abusar dela com total desrespeito por falantes, leitores e escritores”, afirma.

“Em Portugal, estamos em período de transição, com o acordo a ser implementado em documentos oficiais e alguns órgãos de imprensa. Parece que em 2015 será onipresente na grafia lusa. Obviamente, não será: a esmagadora maioria dos escritores não respeita o acordo”, continua o jornalista. Em seu país, ele ressalva, o acordo é conhecido como “aborto ortográfico”.

Embora os veículos respeitem as propostas de unificação, os colunistas portugueses não concordam com tais mudanças e escrevem da maneira que acham mais apropriado. “É uma esquizofrenia total. Quem quiser ver o produto de um Frankenstein jornalístico deve ler um jornal português”, ironiza.

Na prática

“Estamos propondo uma simplificação da ortografia para facilitar a alfabetização. Na alfabetização, são gastas 400 horas. O aluno sai depois do Ensino Médio com essas 400 horas e sem saber escrever. Se tivesse uma ortografia simplificada, com 150 horas ele saberia escrever. Essas 250 horas [que restam] poderiam ser aplicadas em leitura e produção de textos. O estudo ficaria muito mais efetivo”, defende o professor Ernani, autor do polêmico projeto.

Sérgio Nogueira discorda e rebate: “A ‘simplificação’ me parece muito mais um empobrecimento, uma confissão de incapacidade: ‘Fracassamos. Não conseguimos ensinar nem a nossa própria língua porque as regras são difíceis’. Não será um acordo ortográfico que vai resolver nossos problemas com o analfabetismo”.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves