ABI fará tributo a Paulo de Castro, um perseguido do salazarismo

Fonte: Associação Brasileira de Imprensa | 25/02/2005 11:43
O Juiz Substituto do Tribunal de Justiça de Roraima, Élvio Pigari, no dia 28 de janeiro passado, em caráter liminar, decidiu impedir que a Rádio Equatorial FM e a TV Imperial, de Boa Vista, divulguem "qualquer fato sobre a vida pessoal, política e familiar" da Prefeita Teresa Jucá. A decisão foi tomada a partir de ação movida pela Prefeita, que reagiu às "críticas, ofensas e ataques pessoais" que diz ter recebido de dois radialistas. A ação movida por Teresa Jucá foi ajuizada por advogado particular. Tramitam, na Justiça, diversas ações indenizatórias contra os dois radialistas.


A liminar se sustenta, especialmente, no artigo 20 do novo Código Civil que dá ao magistrado a possibilidade de proibir a "divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade".


A Associação Brasileira de Imprensa vai homenagear o jornalista Paulo de Castro em sessão a ser realizada em abril próximo. Com vistas a este evento, a ABI está convidando contemporâneos do jornalista a encaminharem informações e depoimentos sobre esse companheiro. 

Nascido Francisco de Barros Cachapuz em janeiro de 1914 em Chaves, pequena cidade do Norte de Portugal, Paulo de Castro foi preso em 1934 por participar da oposição ao salazarismo nos meios universitários do Porto e deportado para a Ilha Terceira, nos Açores. 

Libertado em 1936, continuou seus estudos em Paris, onde freqüentou os cursos de Henri Bérgson e Lucien Laurat. Trabalhou no jornal Le Populaire e teve a oportunidade de conhecer Leon Blum. 

No ano seguinte, partiu para a Espanha, alistando-se nas Brigadas Internacionais. Com a derrota do exército republicano, foi internado em campos de concentração no Sul da França. 

Em 1940, após a invasão da França pelos alemães, fugiu do campo de Gurs para evitar a deportação e a morte pelos nazistas, sendo recebido em Marselha, Sul da França, pelo brasileiro ex-combatente na Espanha, seu amigo Apolônio de Carvalho. 

Preso ao voltar clandestinamente para Portugal, ficou detido um ano sem processo. Em 1946, exilou-se voluntariamente no Brasil, terra de sua mãe, onde começou a colaborar em jornais como o Estado de S.Paulo e Correio da Manhã. 

De 1950 a 1952, exerceu o cargo de secretário da Tribuna da Imprensa. A partir de 1955 trabalhou como comentarista de política internacional do Diário de Notícias, publicando uma coluna diária na página de opinião do jornal. Em 1957, a convite do embaixador da França no Brasil, viajou para a Argélia. Tomou posição a favor da luta pela independência do país africano, testemunhando de perto os horrores das torturas cometidas pelos franceses em visita a um campo de refugiados na Tunísia. 

Em 1960, foi chefe da sucursal da agência de notícias cubana Prensa Latina no Rio de Janeiro. 

Foi professor de Ciência Política no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), instituição criada em 1955 pelo governo brasileiro e fechada pelos militares, em abril de 1964. 

Entre 1965 e 1969, foi editorialista do principal jornal de oposição ao regime militar, o Correio da Manhã, sempre escrevendo sobre política internacional. Após o fechamento do Correio, em 1970, e do Diário de Notícias, em 1973, foi colaborador da Folha de S.Paulo e de O Globo. Paralelamente, foi professor do Centro de Estudos Afro-Asiáticos das Faculdades Cândido Mendes. 

Após a Revolução de 25 de abril, em Portugal, foi nomeado Conselheiro Cultural da embaixada de Portugal no Brasil, cargo que exerceu até 1980. Nesta função, abriu o Palácio de São Clemente, no Rio de Janeiro, para conferências, recitais de música e exposições com artistas e intelectuais portugueses e brasileiros. 

Em seguida, trabalhou como colunista da Folha de S. Paulo e do Diário de Notícias de Lisboa. 

Faleceu em novembro de 1993 no Rio de Janeiro. Deixou quatro filhos: Antonio Francisco Cachapuz, professor universitário, fruto do primeiro casamento em Portugal; Paulo Brandi (historiador), José Augusto (médico, falecido em 1994) e Andréa (professora), do segundo casamento no Brasil com a professora Ethel Moretzsohn Brandi. 


Livros publicados no Brasil: 

– Camilo Castelo Branco (estudo crítico). Agir, Rio de Janeiro, 1957. 
– Terceira força. Fundo de Cultura. Rio de Janeiro, 1958. 
– Subdesenvolvimento e revolução. Fundo de Cultura. Rio de Janeiro, 1962. 
– O conflito judeu-árabe e a coexistência pacífica. Felman-Rêgo.São Paulo, 1963. 
– Feira dos Dogmas. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 1965. 
– Rosa Luxemburg. Forum Editora, 1968. 
– Do colonialismo de Israel à libertação da Palestina. Forum Editora, Rio de Janeiro, 1969. 
– Argélia, a terra e o homem. Forum Editora. Rio de Janeiro, 1971. 
– Alexandre, o Grande (em colaboração com Ethel Brandi Cachapuz). São Paulo, Editora Três, 1973.