“Cancelando debates, TV deixa de cumprir seu papel e de resgatar centralidade”, por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 30/10/2020 08:17

Em meu artigo anterior aqui no Portal Imprensa, às vésperas do aniversário de 70 anos da televisão brasileira, exaltei o potencial dessa mídia em retomar o protagonismo, como meio de comunicação de massa no Brasil. Um mês depois, lamento constatar que a TV no país está deixando escapar chance preciosa para resgatar essa centralidade.


Refiro-me à omissão das emissoras no processo eleitoral deste ano. Justamente em uma ocasião quando mais o povo poderia contar com a televisão – afinal, campanhas na rua estão restritas, e na internet impera a desconfiança por causa das fake news -, ela prefere se ausentar.


Crédito:Reprodução/Divulgação Band
Debate entre candidatos à prefeitura na Band


As emissoras estão cancelando debates e, fora um caso aqui e outro ali, não têm promovido entrevistas consistentes com todas as candidaturas.


(Exceção honrosa, bom frisar por reconhecimento, é a TV Gazeta, em São Paulo, que não promoveu debate, mas está entrevistado um a um, um a uma, candidaturas de todos os partidos e coligações. E a Band, que logo no começo da jornada fez debates em várias cidades).


O povo contava – conta – com a televisão para trazer um mínimo de ordem e lucidez na disputa por narrativas, por parte das campanhas. Além de desrespeito para com o eleitor, ao abdicar dessa missão as emissoras não cumprem contrapartidas básicas por, mediante concessão, ocuparem os canais, que pertencem não às empresas, sim à coletividade.


Infelizmente, a Constituição de 1988 nunca teve seus dispositivos que tratam da radiodifusão aberta regulamentados. Não por falta de luta, mobilização de profissionais, pesquisadores, acadêmicos, estudantes, militantes da Comunicação. Mas o vácuo legal dá nisso: um serviço público nem sempre bem prestado, e sem que tenhamos como e a quem recorrer, cobrar.


Debates eleitorais não são favor da emissora, tampouco devem ser tratados como mais uma atração, entretenimento, a ter viabilidade analisada sob viés mercadológico. Debates eleitorais são basilares para pleitos e, portanto, para a democracia, a liberdade de expressão e de escolha. Promovê-los é obrigação de mídias que prestam o serviço público de comunicar, pela radiodifusão aberta – bem de todos.


É verdade, como alegam as empresas de comunicação, que o grande número de candidaturas dificulta a realização de debates televisivos. Paciência. Isso não pode servir de desculpa para que tenhamos usurpado o direito de ouvir e ver, ao vivo, frente a frente, os postulantes, dissecando suas propostas, tendo suas contradições confrontadas, suas coerências ressaltadas. 


Igualmente inaceitável o argumento de que a grande quantidade de candidaturas impede o cumprimento de protocolos fitossanitários, em prevenção ao coronavírus. Porque estamos a ver programas de entrevistas, de concursos musicais e de dança, e gravações de telenovelas acontecendo, envolvendo muita gente, com protocolos, ao que consta, devidamente respeitados.


O (de)interesse comercial da televisão não pode se sobrepor ao interesse público. Pela objetiva e elementar razão de que se trata concessão de serviço público, reitere-se.


As emissoras dariam belo exemplo de civismo, de respeito e valorização das eleições, se propusessem, por exemplo, debates em pool. Contribuiriam duplamente com o processo democrático: primeiro, sinalizando à população a importância do debate eleitoral, a ponto de motivar a realização em rede; depois, na promoção propriamente dita do debate.


Será que elas topam? Ainda é tempo.



Crédito:Arquivo Pessoal



*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (
www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.









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