“Um nó difícil de desatar", por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 27/10/2020 17:56

Górdio era apenas um camponês quando o oráculo informou, placidamente, ao rei da Frígia (Ásia Menor): seu sucessor chegaria à cidade num carro de boi. Quando adentrou sem maiores ambições o templo de Sabrazio, numa carroça, Górdio se tornou o homem a cumprir a profecia. Em agradecimento, amarrou seu veículo com um bem atado nó e o ofereceu a Zeus. Símbolo milagroso da nobreza inventada do camponês tornado rei, o laço não poderia ser desfeito. Com o passar dos anos, nova previsão se sobrepôs à primeira e o oráculo sentenciou que o futuro rei seria aquele que desatasse a amarração. Somente após 500 anos, Alexandre, o Grande, conseguiria pôr fim à carroça amarrada para sempre: malandramente, não desatou o nó, mas cortou sua corda. Desde então, o nó górdio tem servido como alegoria em duas interpretações. Uma se refere a problemas que parecem ter desfecho insolúvel, a outra imputa a solução desses mesmos problemas à ação que foge do senso comum (como o corte desferido pelo conquistador da Ásia Menor). No jornalismo, como em outras áreas, os nós górdios vem e vão - mas quando surgem, parecem se encaixar mais prontamente na primeira situação. Um dos mais proeminentes embaraços hoje diz respeito à dificuldade em não se deixar ser usado como porta-voz de impropérios que, de simples declarações, podem ser peças importantes de propaganda política. 


Crédito: divulgação


Obviamente, a assertiva diz respeito sobretudo à cobertura política e que se refere aos donos do poder no país (que são, de acordo com o critério de noticiabilidade grau e nível hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento noticiável, aqueles que mais merecem atenção dos media). Isso acontece não apenas porque a imprensa avalia o status desses indivíduos na sociedade (embora também por isso), mas pelo fato de que os cenários políticos são aqueles em que o interesse público deveria ser determinante. 


Embora os anos desde 2018 tenham sido pródigos na disseminação de ofensas oriundas da nova casta de governantes, inclusive na direção da imprensa, ainda não se sabe claramente o que fazer diante das falas que aviltam a ideia de uma sociedade democrática, de um zelo com os cidadãos, minorias ou profissionais específicos, que passam por campanhas de destruição de reputação. O que já se percebeu, contudo, é que a publicação desse tipo de material auxilia no alastramento de conteúdo ideológico, propagandístico, ainda que indiretamente. Além das próprias redes dos políticos, eles encontram na imprensa mais uma plataforma de propagação dos discursos que inflamam suas bases e resultam numa maior agressão a seus supostos inimigos. 


Algumas reações já foram esboçadas. O episódio mais conhecido é, provavelmente, a saída de grupos como Band, Globo e Folha do famoso cercadinho do Palácio do Planalto, após insultos frequentes ao trabalhadores da notícia que cobrem a presidência, em maio. Apesar disso, a divulgação do que acontece por ali ainda frequenta os noticiários, advindas de monitoramento de redes sociais ou mesmo do acompanhamento de outros veículos que permanecem firmes nas cercanias.  


Em seu livro A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital (Companhia das Letras, 2020), a jornalista Patrícia Campos Mello, ela própria vítima de ataques como os listados acima, confirma que os jornalistas, até esse momento, não sabem lidar com o dilema. Mas por que parece tão difícil se desenredar desse papel misto de jornalista e propagandista involuntário?


O motivo talvez se encontre na prática cada vez mais corrente de se noticiar o que se diz, independente daquilo que se diz ou de suas motivações ou consequências. O ato de dizer se tornou, ele mesmo, um valor-notícia. O jornalismo declaratório sequestra, nessas ocasiões, o discurso jornalístico, que se transforma em dizer o que outros disseram. Esse jornalismo ganha cliques com facilidade, movimenta o setor comercial, incrementa as métricas na internet, mas perde em muitos sentidos. Passa-se a ser porta-voz de uma ideologia, profissão mui diferente daquela que chamamos jornalismo. 


Essa percepção não significa que falas jamais poderão ser noticiadas. O que se diz tem sua importância, contanto que caiba contextualizar e analisar. É preciso pensar a partir da segunda interpretação da lenda de Górdio: fugir ao senso comum de simplesmente se recolher por se sentir ofendido, mas compreender que, sob o ponto de vista do interesse público, algumas matérias não servem ao jornalismo, não nos dizem respeito. Deve ter sido o que Alexandre, o Grande, concluiu. Para desatar um nó, às vezes é preciso cortá-lo. 


Crédito:Arquivo Pessoal


*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.





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