“O movimento Solarpunk e a inovação corporativa” por Flavio Ferrari

Opinião

Flavio Ferrari | 22/10/2020 16:58

No filme Inception (A Origem) de 2010, o personagem Don Cobb (Leonardo Di Caprio) mergulha no

inconsciente de Robert Fischer, filho de um poderoso empresário, para inseminar uma ideia que dará origem a uma cadeia de associações e transformará sua decisão sobre a divisão do império de seu pai, que está à beira da morte.


É uma espécie de ˜efeito borboleta˜, da Teoria do Caos, quando temos uma série de eventos concatenados e uma pequena alteração de uma variável no início da série pode resultar em uma gigantesca mudança no evento final.


Seria impossível convencer Fischer numa abordagem direta.  A ideia de dividir o império deveria partir dele.


As grandes mudanças sociais seguem a mesma receita.  Aqui e ali absorvemos elementos fractais de uma ideia que vai se formando como se fosse nossa, mas que contamina o inconsciente coletivo.  É nossa, mas é de todos, e parece não ter um autor em especial. Simplesmente, começa a fazer sentido e toma conta da sociedade.


O movimento Solarpunk, que começou a tomar forma no início deste século como uma derivação do Steampunk e do Cyberpunk, associada à preocupação com a ecologia e as distopias do possível colapso do planeta, é um bom exemplo atual.


Crédito:Pixabay


A ideia de que um futuro melhor é possível desde que plantemos suas sementes nas rachaduras deste mundo que começa a dar sinais de que irá ruir em algum momento, não tem um autor único identificável.  Ninguém em particular se posiciona como líder do movimento, mas multiplicam-se os entusiastas.


Podemos fazer diferente, fazer diferença e mudar o mundo.  A cínica rebeldia Punk, contra cultural e desconstrutiva, se transforma no desejo de construir algo melhor, com a mesma simplicidade e autonomia de pensamento.


Na França, o movimento Happy Collapse é de um otimismo similar, embora sem o viés estético dos derivados do Punk.  O mundo, tal qual conhecemos, irá colapsar, mas podemos nos preparar desde já para viver melhor, com menos recursos.


A força desses movimentos está em sua coautoria, na disposição individual e coletiva de transformar, no compartilhamento de uma visão difusa de um futuro melhor, do qual importamos a felicidade idealizada para o momento presente.  Nesse futuro, viveremos melhor e seremos mais felizes, então decidimos trabalhar para construí-lo e vivemos melhor e somos mais felizes enquanto fazemos isso.


A inovação sustentável nas organizações pode seguir o mesmo caminho.  É claro que o CEO pode decidir a inovação e ordenar sua implementação, mas será um processo de transformação custoso e sofrido, com muitas baixas pelo caminho.


Mas se a ideia transformadora é inseminada, a inovação emergirá de forma natural.  O esforço será muito menor e o resultado mais consistente.  Não precisaremos implementar uma mudança cultural para acomodar a inovação.  A cultura se transformará enquanto a semente da inovação germina. 


O líder inovador não será o autor da inovação, mas o inseminador da ideia transformadora.  Ou, muitas vezes, apenas o criador do ambiente propício e o agente inspirador para que essas ideias surjam e se apoderem da equipe.


Convide a equipe a imaginar futuros melhores e logo todos estarão buscando os caminhos que levam até lá.


Crédito:Arquivo Pessoal
Flavio Ferrari - Head of Ad Innovation & Strategy – CNN Brasil


Leia mais

“Ascenção do trabalho flexível atravessa a pandemia”, por Flavio Ferrari

Associação internacional quer estimular cultura do “produto” nas redações jornalísticas