“Robinho, reputação e a intolerável cultura do estupro”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 21/10/2020 19:44

Muitas vezes me questiono o que move a cabeça dos famigerados ‘cartolas’ dos clubes de futebol. E a resposta, não raro, é sempre a mesma: a mais absoluta ignorância e falta de decência. O presidente do Santos, Orlando Rollo, é um exemplo perfeito. Após a contratação de Robinho, fez uma defesa apaixonada do jogador, proferindo a seguinte “pérola”:

– “Robinho não está condenado com trânsito em julgado. Quem somos nós para atirar pedra no Robinho? Atire a primeira pedra quem nunca pecou.E será que ele pecou? Vamos esperar o desfecho do processo. As críticas à contratação são motivadas por dor de cotovelo dos rivais”.


Alguém da área de Comunicação e Marketing do Santos Futebol Clube deveria calar as declarações insólitas do sr. Orlando Rollo à imprensa, ensinando-o uma primeira lição: especialistas colocam os ativos intangíveis (dentre os quais a reputação) como sendo responsáveis por mais de 80% do valor de uma marca. E, se há algo a ser preservada nessa história, certamente é a reputação do Santos, cuja história construída ao longo de mais de um século é fonte de inspiração e orgulho para qualquer brasileiro, independente de qual seja o seu clube de coração. As declarações arranham a reputação santista e colocam em xeque toda a alta direção do clube.


Crédito:Divulgação / Santos FC

Uma segunda lição importante é ensinar ao cartola santista que Robinho já foi condenado, em primeira instância, a nove anos de prisão por violência sexual na Itália. O fato de o processo ainda não ter transitado em julgado é mais um elemento para afastar o Santos de alguém que ainda pode ser condenado, afinal, as transcrições das conversas telefônicas entre o jogador e seus amigos são vergonhosas e contundentes. Numa delas, Robinho diz: “Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu”. Em outra declaração afirma que fez sexo oral com a vítima e que “isso não significa transar”. Demais declarações não serão aqui reproduzidas por questão de ‘vergonha alheia’. Não tenho coragem de descer ao nível desse atleta para aqui reproduzir as declarações dele.


É importante lembrar, a título de contextualização, que a vítima é uma jovem albanesa que, à época (2013) com 23 anos, estava embriagada e foi abusada sexualmente por seis pessoas. Pela legislação penal brasileira, isso é considerado estupro de vulnerável, já que não havia discernimento da vítima para consentir com o ato. Ademais, estupro abrange também atos libidinosos praticados sem consentimento (não necessariamente envolvendo conjunção carnal), e foi exatamente isso o que ocorreu. Portanto, se tivesse ocorrido no Brasil, a situação implicaria na condenação pelo crime hediondo de estupro.


Chama a atenção o fato de que o atleta, que deveria servir de exemplo à sociedade, em momento algum se rebelou contra a situação ou tentou impedi-la. Muito pelo contrário, reforçou a chamada ‘cultura do estupro’ culpabilizando a vítima a partir da ideia de que, se a mulher bebeu, sua falta de recato permite que se torne objeto sexual disponível para múltiplas relações. Infelizmente, em 2014 o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgou um levantamento no qual 26% dos brasileiros concordam inteira ou parcialmente com a frase "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". A pesquisa também apontou que 30% dos entrevistados creem que "se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros". 


Finalmente, uma lição derradeira é que empresas patrocinadoras não compactuaram com a falta de coerência do Santos Futebol Clube. Kicaldo, Tekbond, Philco e Orthopride, dentre outras, merecem o respeito coletivo por pressionarem o clube a rescindir imediatamente o contrato firmado. É inaceitável que, de forma contraditória, o Santos assuma um discurso de defesa do direito das mulheres nas redes sociais, prestigie o futebol feminino e, em paralelo, tente contratar um jogador condenado por violência sexual. Restaria um último ato de grandeza ao clube: livrar-se desse rolo todo demitindo seu presidente, Orlando Rollo, que merece ser jogado na lata de lixo da história.



Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br





Leia mais

“Crivella e seu reinado em Sucupira”, por Sergio Bialski

Aniversário de 80 anos de Pelé inspira programação jornalística especial na Band, SporTV e Globo