“Crivella e seu reinado em Sucupira”, por Sergio Bialski

Opinião

| 25/09/2020 08:45

Há algumas semanas foi revelado um esquema vergonhoso, covarde e criminoso, institucionalizado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, para calar e coibir as atividades da imprensa. De forma oficial, usando recursos humanos e financeiros pagos com dinheiro público, funcionários da prefeitura eram alocados para impedir matérias jornalísticas que denunciassem problemas com a saúde no município, bem como para amedrontar cidadãos que fizessem críticas.


Extremamente sórdidos, e funcionando com todas as características e organização de uma milícia, esses funcionários se comunicavam em grupos de WhatsApp, durante os “plantões”, postando sorridentes selfies e comemorando cada vez que conseguiam impor o silêncio e a mentira à sociedade. Havia tudo: de escalas de horários para atuação até mesmo perigo de demissão pelo não cumprimento de metas.

Crédito:Reprodução/ Rede Globo



O mais bizarro nessa história foi o fato de que a prefeitura carioca, além de não negar a formação dos grupos, disse que o objetivo era “melhorar a informação da população”. O empenho de Crivella era tanto que, sem titubear, pessoalmente cumprimentava os asseclas pelas ações em sua defesa. De forma lacônica, e zombando da Justiça, apenas se ateve a declarar que “cidadãos comparecem às portas de unidades de saúde para esclarecer e orientar os usuários, evitando assim alguém manipulado pelas informações da Globo”. E completou: “Não cabe a mim a acusação de que seria responsável por esse constrangimento que as Organizações Globo sofrem durante as suas reportagens. Vou governar até o último dia, pautado pelo sagrado interesse do povo, sem recuar, sem me agachar e sem temer”.


Chama também a atenção o fato de que a equipe de ‘super-heróis’ do Crivella é comandada por um de seus capatazes mais próximos, o pastor Paulo de Oliveira Luciano, assessor especial de gabinete que ganha a bagatela de R$ 10 mil por mês para comandar um sistema que envergonha qualquer brasileiro com o mínimo de dignidade e bom senso.  


A Polícia Civil do Rio cumpriu mandados de busca e apreensão de celulares, dinheiro e notebooks relacionados ao caso e o Ministério Público abriu inquérito para apurar crimes de associação criminosa, constrangimento ilegal e responsabilidade por parte do prefeito. Infelizmente, vereadores já rejeitaram a abertura do processo de impeachment contra ele, num velado pacto em prol da podridão. Nada de novo no front, afinal, é bem conhecido o sistema de favores e trocas para manter no poder governantes que não honram à altura o poder que lhes foi conferido pelo voto popular. 


Níveis baixos de aprovação e incompetência administrativa já não são mais problemas no moderno sistema absolutista brasileiro, podendo ser facilmente combatidos com a pregação da fé, uma mansa fala pastoral e um falso olhar de compaixão. Esse é o maior perigo, afinal, o discurso autoritário é um discurso perigosamente competente, que se vale da retórica para anestesiar o senso crítico individual, levando a um alto grau de alienação. 


E assim segue o Brasil, sendo o fiel retrato da remota cidade de Sucupira, produzindo seus Odoricos Paraguaçus que, de tempos em tempos, fazem-nos reviver com força a velha novela “O Bem Amado”: a cada novo governante que entra, a percepção é de que tudo vai mudar, mas, na realidade, a mudança é mera ilusão para manter tudo essencialmente igual. Enquanto em Sucupira se debate a construção de um cemitério novo na cidade, em terras tupiniquins reais a discussão atual é fingir que não há mais pandemia e voltar a colocar a torcida nos estádios de futebol para assistir aos jogos do Brasileirão, afinal, o espetáculo não pode nunca parar...




Crédito:Arquivo Pessoal
*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br





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