“Nos 70 anos da televisão brasileira, a reafirmação de que precisamos dela”, por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 23/09/2020 14:14

Lá em 2003, no limiar do deslumbre com as então novas tecnologias informacionais e comunicacionais, era publicado no Brasil “Internet, e depois?”, do sociólogo francês Dominique Wolton. À pergunta, o pensador sinalizava a resposta: depois da internet, a saída é pela televisão.


Depois da internet, vem a televisão? Como assim?


Nestes dias em que celebramos os 70 anos da televisão brasileira – o aniversário é 18 de setembro, data de inauguração e primeira exibição da TV Tupi – e, mais ainda, nestes tempos pandêmicos, a resposta ao questionamento título do livro de Wolton está no horizonte.


O sociólogo já defendia que a televisão é o meio de comunicação capaz de unir as pessoas, unir públicos.


Enquanto o consumo de conteúdo na internet é sob demanda, portanto pulverizado – cada indivíduo acessa o que quer, a hora que quer; se quiser interromper para retomar depois, pode fazê-lo – com a televisão é diferente. O programa de televisão está lá, naquele horário, e para ter contato todo mundo precisa de estar ligado no mesmo instante; assistindo ao mesmo tempo, em um mesmo macro contexto.


Num primeiro momento, essa descentralização se configurou na chave do sucesso da internet. É, ainda. Trouxe, todavia, efeitos colaterais – estão aí as bolhas, maior evidência dessas sequelas.


Em análise feita no começo da pandemia do novo coronavírus, quando o isolamento social chegou a ser cumprido por mais da metade da população, a doutora em Ciências da Comunicação e professora Maura Martins atestou: “a pandemia ressuscitou a centralidade da TV na vida da população”.


Ela escreveu, em texto publicado no site “A Escotilha”: “A pandemia tem reavivado a TV em sua função familiar, centralizadora, como um aparato tecnológico que une as pessoas e não as desune. Assistimos mais à televisão à medida em que ficamos em casa, uma vez que ela não presta bem a um consumo em movimento”.


Exatamente por aí indicava Dominique Wolton.E essa centralidade está baseada não só no entretenimento. O jornalismo na televisão tem papel fundamental nesse intento de voltar a reunir públicos, a sociedade, em temas, agendas comuns.


Crédito: reprodução de tela do programa “Os campeões de audiência”, da TV Cultura


O papel do jornalismo nesse marco de 70 anos da televisão brasileira foi objeto, inclusive, de debate na 6ª edição do Mídia.JOR – promovida por este Portal e Revista Imprensa, neste mês, e que por razões conhecidas tem se dado exclusivamente online.


Os jornalistas Lúcio Mesquita, curador do Midia.JOR, e Sinval de Itacarambi Leão, fundador e diretor do Portal e Revista Imprensa, reafirmaram: o eletroeletrônico de consumo de conteúdo televisivo é que não é nem deverá ser o mesmo. Todavia, a força dessa mídia não tende a ser diminuída nos próximos 70 anos de televisão brasileira.


O acesso gratuito, universal, em um país de dimensões continentais, e com profundas desigualdades socioeconômicas, reafirma a importância da televisão constatada pelos debatedores.


As mídias digitais, em vez de significarem o sepultamento da radiodifusão, vão “exponenciar o alcance e a qualidade da televisão”, nas palavras Silval de Itacarambi Leão.


As redes sociais digitais, no lugar de roubarem espectadores da TV, fazem é referendar a audiência dela – e levar outros para a transmissão. O que ocorreu no último dia 16, uma quarta-feira, foi um termômetro.


Por volta das 22 horas, praticamente todos os 20 assuntos mais comentados no Twitter tinham relação com a programação televisiva daquele momento. Momento, aliás, marcado por um disputa acirrada por ibope, entre Globo, com a exibição de partida do Brasileirão; o SBT, estreando na transmissão da Taça Libertadores; e a Record, com o reality show “A Fazenda”.


Indispensável, porém, fazer uma ressalva: para que a televisão cumpra a função social de agregadora, de promotora de informação, entretenimento, arte e educação, urge um marco regulatório para a radiodifusão.


Wolton, em seu livro mencionado, defendia ser imperiosa a regulamentação (para o mercado de internet também).


No Brasil, a Constituição de 1988 tem um capítulo, o da Comunicação Social (capítulo V), estabelecendo princípios que representam uma base sólida para um marco democrático, plural. Não há, pois, muito o que inventar; é só tirar as premissas constitucionais do papel.


Crédito: Arquivo Pessoal



*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.








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