“Ascenção do trabalho flexível atravessa a pandemia”, por Flavio Ferrari

Opinião

Flavio Ferrari | 16/09/2020 10:43

Em meados do ano passado, a Mastercard e a Kaiser Associates publicaram um interessante estudo projetando o crescimento global do trabalho flexível (GIG Economy), de US$ 204 bilhões em 2018 para US$ 455 bilhôes em 2023.


Esse mercado é tradicionalmente constituído por trabalhadores temporários de todas as classes, desde diaristas para serviços domésticos, entregadores e motoristas de aplicativos, até freelancers para serviços técnicos tão sofisticados como desenvolvimento de aplicativos e “motion design”.


O conceito motivador da modalidade é o pay-per-use (pagar apenas pelo uso), um modelo que vem ganhando força não apenas para produtos e serviços pessoais, mas para empresas que adotam métodos ágeis para gestão de projetos e, mais recentemente, em grandes organizações com demanda sazonal, que vêm aumentando a participação de temporários em sua força de trabalho.


Estatísticas publicadas para os Estados Unidos indicam que mais de 40% dos trabalhadores já complementavam sua renda com alguma forma de trabalho temporário em 2019.  No Canadá, o patamar supera os 30%.  Em ambos os países, os jovens (entre 18 e 35 anos) são os que mais adotam essa modalidade de trabalho.


No Brasil, mais de 40% dos trabalhadores são considerados informais, ou seja, sem registro em carteira, de acordo com a PNAD de 2019.


Essa indicador costumava ser considerado negativo, diante da expectativa de que todos os trabalhadores tivessem registro formal e acesso aos direitos trabalhistas (CLT).  Mas as oportunidades de trabalho predominantes no futuro não deverão ser essas.


Em todo mundo, as antigas legislações trabalhistas, de natureza protetiva, estão sendo modernizadas para facilitar contratações e aumentar a geração de empregos.

Por aqui, o Ministro da Economia, Paulo Guedes, propõe a criação da Carteira Verde Amarela digital, para que o trabalhador possa registrar suas horas trabalhadas para contratantes diversos.


Essa flexibilização é importante, e acompanha o que já acontece na realidade, particularmente em tempos dinâmicos como os que estamos vivendo e considerando a expectativa de mais demissões nos próximos meses.

Crédito: appjobs
https://www.appjobs.com/blog/coronavirus-effect-on-gig-economy


Uma pesquisa Global conduzida pela AppJobs, indicou a migração dos trabalhadores temporários durante os primeiros meses da pandemia.  Entre fevereiro e abril de 2020, 78% dos trabalhadores temporários perderam seus “empregos” originais ou tiveram redução significativa nas horas trabalhadas, como resultado da quarentena e do distanciamento social.  Esse movimento afetou, prioritariamente, os que prestavam serviços domésticos.  Mas outras oportunidades surgiram em setores como delivery, pesquisas on-line e serviços freelance para empresas. 


Mesmo no Brasil, a pandemia acelerou o movimento de ofertas de serviços on-line e, consequentemente, o surgimento de startups facilitadoras do contato entre provedores e contratantes.


A Zenklub oferece psicólogos on-line a partir de R$ 60 por sessão e os “anjos sob demanda”, da Mais Vívida, são jovens que se propõe a acompanhar pessoas idosas em suas compras, ajudá-las a aprender a lidar com o mundo digital ou apenas bater papo.


Plataformas que oferecem cursos, que agregam prestadores de serviço ou que funcionam como marketplaces de nicho se multiplicam, muitas delas com propósitos sociais, apoiando comunidades.


Na medida em que a economia se recupere, no Brasil e no mundo, o modelo de trabalho tradicional será retomado, mas será revisitado, não só pela maior adoção do “home office” como a partir das oportunidades oferecidas pela legislação trabalhista.

Como costumam dizer os especialistas do ITP (Instituto Trabalho Portátil), especializados na implementação do trabalho remoto, o trabalho é cada vez mais algo que se faz e não um lugar para onde se vai.


Crédito: Arquivo pessoal


Flavio Ferrari

Head de Inovação e Estratégia Comercial na CNN Brasil

Professor da Leadership Academy da ESPM

Autor dos livros ACUMEN – The Future Castles’ Stones e Atitude Digital – Os caminhos da transformação.




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