“Você sabe com quem está falando?”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 24/08/2020 10:57

O que um desembargador de Santos, um engenheiro do Rio de Janeiro, um empresário de Santana do Parnaíba e um contabilista de Valinhos têm em comum? 


Os quatro casos viralizaram nas redes sociais, nos últimos meses, e a resposta é: todos os citados se julgam superiores e acima da lei, seja em função do cargo que ocupam, formação acadêmica ou renda. Cada um à sua maneira, da forma mais odiosa e desprezível, aplicou a famosa frase “você sabe com quem está falando?” a partir da ideia de que há, na sociedade, os que sabem e os que não sabem, que os primeiros são competentes e têm o direito de mandar e de exercer poderes, enquanto os demais são incompetentes, devendo obedecer e ser mandados. 

Crédito:Reprodução



Relembremos o histórico desses casos. É difícil dizer qual deles causa mais indignação:


No dia 29 de maio, após denúncia de violência doméstica feita pela sua mulher, o empresário Ivan Storel - morador do Condomínio Alphaville 5, bairro nobre de Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo - desacatou policiais militares que atenderam a ocorrência com palavras obscenas, aqui reproduzidas parcialmente por uma questão de vergonha alheia: “Você é um merda de um PM que ganha mil reais por mês, eu ganho trezentos mil por mês. Você não me conhece. Você pode ser macho na periferia. Aqui é Alphaville, mano”.


Em 4 de julho, durante fiscalização em bares e restaurantes no bairro do Leblon, Rio de Janeiro, Flávio Graça (superintendente da Vigilância Sanitária) foi ofendido pelo simples cumprimento da lei e por assegurar medidas de higiene e distanciamento social para prevenção ao coronavírus. Ao abordar um homem pedindo calma, e chamá-lo de cidadão, foi interrompido aos gritos por uma mulher, que disse: "Cidadão não, engenheiro civil, formado, melhor do que você".


No dia 18 de julho o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira humilhou um guarda civil municipal de Santos, após ser multado por não utilizar a máscara enquanto caminhava na praia, chamando-o de 'analfabeto', rasgando a multa e jogando-a no chão, e ainda telefonou para o Secretário de Segurança Pública do município para que este intimidasse o guarda. Já no dia 5 de agosto, flagrado novamente sem o uso da máscara, o desembargador ironizou: "uma coisa que eu ignoro são essas viaturas da guarda... Esses meninos para cima e para baixo. Não dou a menor bola para eles, não os vi, não sei. É um desprazer vê-los na praia, estragando, poluindo a praia". Vale lembrar que o desembargador foi alvo de 40 procedimentos de apuração disciplinar nos últimos 15 anos e todos foram sumariamente arquivados.


Finalmente, no dia 31 de julho um motoboy sofreu ofensas racistas e foi humilhado enquanto realizava entrega em um condomínio na cidade de Valinhos, interior de São Paulo. Eis algumas frases do agressor, o contabilista Mateus Abreu Almeida Prado Couto: “Quanto você tira por mês? Dois mil? Três mil reais? Você não tem nem onde morar, moleque. Você tem inveja disso aqui (do condomínio), você tem inveja dessas famílias, você tem inveja disso aqui (da minha cor). Você nunca vai ter. Você trabalha de motoboy. Você é semianalfabeto, moleque”.


É difícil definir com precisão as origens do "você sabe com quem está falando?", mas certamente guarda relação com a extrema desigualdade em que vivemos: pesquisa divulgada em 9/12/2019 pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) mostra que o Brasil é o sétimo País mais desigual do mundo, com uma das mais altas concentrações de renda - 1% da parcela mais rica concentra 28,3% da renda total do País e os 10% mais ricos concentram 41,9%. 


Em nossa Constituição Federal de 1988 pode-se ler o seguinte no Artigo 5º, “caput”: “(...) Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade(...)”. Entre as palavras do texto constitucional e a realidade existe um abismo e, o que chama a atenção nos quatro casos supracitados, é o discurso atrevido e cínico dos opressores. 


Essa triste situação, que constitui marca profunda de nossa herança colonial, escravocrata e coronelista só poderá ser superada, ou ao menos amenizada, quando alterarmos a relação de desequilíbrio social e combatermos todo tipo de ódio e discriminação, fazendo o sentimento de equidade e humanidade prevalecerem acima do nefasto império da carteirada, que viraliza e nos envergonha nesses tempos de pandemia.


Crédito: Arquivo Pessoal

*Sobre o Professor 
Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. 

Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br

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