Casa no sudoeste de Paris oferece asilo para profissionais de imprensa refugiados

Redação Portal IMPRENSA | 23/02/2015 11:30
Jornalistas refugiados já têm um lugar para ficar no sudoeste do Paris. A chamada "Masion des Journalistes" abriga, desde 2002, profissionais de mídia exilados para começar uma nova vida no exterior.

Crédito:Reprodução/ Masion des Journalistes
Abrigo recebe jornalistas exilados desde 2002

Segundo o jornal O Globo, com dois andares, um subsolo e um mezanino repartidos em cerca de 750 m², o prédio possui 15 apartamentos disponíveis. A residência varia de seis a oito meses, até que os jornalistas consigam documentos franceses necessários e um lugar definitivo para morar. 

O imóvel é cedido pela prefeitura de Paris. Os aproximadamente 350 mil euros necessários para a manutenção da casa e o auxílio material, provêm de doações de veículos de comunicação e de um fundo europeu para refugiados.

A diretora da casa, Darline Cothière, refugiada do Haiti, se orgulha da ação, mas lamenta a frequência com que profissionais precisam sair de seu país. "Infelizmente, esta casa não fechará suas portas tão cedo dada a quantidade de jornalistas em todo o mundo que precisam se refugiar", relata.

Segundo ela, a maior demanda recebida nos últimos três anos são os sírios. A jornalista avalia a quantidade de refugiados como uma espécie de termômetro sobre a situação da imprensa no mundo, conforme a zona de conflito da vez. 

"Houve uma onda de afegãos em 2010-11, antes eram iraquianos. Tivemos iranianos, bengalis, uma tibetana. Da África, há Zâmbia, Ruanda, Congo, Guiné... E Cuba, Haiti. Da América do Sul, vieram dois argentinos, um colombiano e um venezuelano. Chineses temos poucos porque são muito controlados lá, são presos ou não conseguem sair do país", explica.

Forças Sírias

O fotojornalista Muzzafar Salman, 38, de Homs, foi para a "Maison" em abril do ano passado. Com passagens pela Reuters e Associated Press, ele se dedicou a fotografar Aleppo durante todo o ano de 2013. A cidade é um dos principais palcos de embate entre rebeldes e as forças do governo.

"Estamos habituados ao perigo. No começo da revolução, eram riscos normais. Mas quando você vê jihadistas querendo sequestrá-lo e matá-lo, é diferente. Em outubro de 2013, o Estado Islâmico tentou me sequestrar, mas os rebeldes me protegeram e me salvaram. Depois disso, saí mais umas cinco vezes, com a câmera escondida. Mas era muito fácil ser sequestrado, e decidi ir embora", conta.

Apesar de ter limitação para viajar depois de sair do país, Salman não parou de fotografar. Este mês, ele lançará uma exposição com 70 imagens de sua autoria nos confrontos em Aleppo. "Estou fazendo um projeto de acompanhamento de famílias de refugiados sírios na França. Mas o que precisamos é acabar com esta guerra, que parem estas mortes", ressalta.

Censura na Guiné

O jornalista da Rádio Televisão Guineana (RTG), Alareny Baillo Bah, 36, foi ameaçado e agredido diversas vezes por reportar informações comprometedoras ao poder. Ele está refugiado na França desde junho de 2014.

"A mídia privada começou a me entrevistar. Me afastaram e fui declarado persona non grata no ministério. Passei a receber ameaças escritas e por telefone. Fui atacado várias vezes por grupos armados, me tiraram a roupa e me bateram. Certa vez, numa perseguição, meu carro capotou, deram tiros. Então me dei conta de que teria de fugir", afirma.

Baillo Bah colabora com o blog "O olhar do exílio", mantido pela "Maison", e participa de encontros realizados com estudantes para contar sua história. Segundo ele, a liberdade de expressão na África apenas existe quando o jornalista apoia o governo. "Eu só sei fazer jornalismo, e tenho medo de ficar aqui e ter de trabalhar como operário, marceneiro, motorista...", desabafa.
 
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