Democracias também foram "infectadas" pelo Coronavírus, diz Milton Blay

Denise Bonfim | 15/10/2021 09:05
Vencedor do Prêmio Esso, Milton Blay, um dos grandes correspondentes brasileiros em Paris, está lançando "O vírus e a farsa populista", um convite à reflexção sobre o mundo pós-pandemia.

O negacionismo e nacionalismo que vieram à tona em meio à pandemia da covid-19 em todo o mundo se tornam pano de fundo para a história, e como podem nos afetar a curto, médio e longo prazo. 

Em um papo com o Portal IMPRENSA, Blay conta como surgiu a ispiração para a obra, e aponta como imagina as consequências do vírus e o "novo normal" do pós-pandemia.

Confira. 
Crédito:Reprodução
Milton Blay
O jornalista e correspondente Milton Blay lança o livro "O Vírus e a farsa populista"
Portal IMPRENSA: Qual a principal mensagem de "O vírus e a farsa populista"?

Milton Blay: A pandemia nos mostrou que o respeito pelo ser humano é o que realmente conta e que temos o dever de solidariedade, sobretudo em relação aos mais carentes. Não por caridade, mas sim porque, via de regra, são os melhores dentre nós. Estávamos, muitos, a um passo de perder o essencial, - o humanismo - e sem humanidade somos nulos. 

O coronavírus permitiu o tempo da reflexão. Hoje, uma janela de oportunidade se abre para que possamos mudar as coisas, nos tornarmos melhores e tentar transformar, por pouco que seja, as relações sociais nesse mundo tão desigual, tão mesquinho. É necessário e urgente fazer um balanço do funcionamento das nossas sociedades de "bem-estar". O tempo é agora. Se perdermos o timing, minha geração, que sonhou em 1968 que tudo era possível, deixará um legado terrível aos nossos netos.  

Na época, vivíamos uma era da abundância, hoje estamos diante de um cenário de crises profundas e diversas. Nos últimos tempos baixamos os braços, abandonamos a marcha do mundo nas mãos de outros, que se aproveitaram para impor o pior: a discriminação, o autoritarismo, o consumismo, as desigualdades extremas, o ódio, o obscurantismo. Estávamos cientes disso e nada ou muito pouco fizemos. Somos velhos e não temos o direito de perder aquela que pode ser a derradeira oportunidade de evitar o pior. Podemos nos tornar os garantidores da solidariedade.

PI: O que você busca despertar no leitor? 

MB: A necessidade de se pensar e agir para preparar o futuro. "No mundo que emergirá após a crise do coronavírus, nada mais será como antes", como Albert Camus antecipou em A Peste. 

O coronavírus se tornou  uma metáfora do estado do mundo, onde os cidadãos perderam o controle de suas vidas. Muitos viram nas medidas excepcionais adotadas pelos governantes a erosão do Estado de direito, uma quarentena democrática e a progressão do vírus do autoritarismo.

Paralelamente, não é de se estranhar o desprezo com que as presidências dos Estados Unidos de Trump, do Brasil de Bolsonaro e de outros países dirigidos por populistas de extrema-direita lidaram com a dimensão da ameaça, rejeitando a ciência. O mundo que emergirá após a crise poderá reforçar ainda mais a tendência para soluções políticas autoritárias e unilateralistas. Ou não. Vai depender em grande parte de nós, cidadãos.

Um dos paradoxos desta pandemia é que embora não seja das mais letais, quando comparamos a outras próximas ou distantes, nenhuma atingiu as proporções de ameaça global do covid-19. Pode-se dizer que este é o efeito mais dramático do processo de globalização que marcou o mundo nas últimas décadas e cujas consequências econômicas, sociais, e políticas, pareciam irreversíveis. Agora, nada mais se sabe. A única certeza absoluta é que a  chamada "globalização feliz" terminou.  

PI: As democracias vão resistir aos estragos do coronavírus? 

MB: Elas também foram infectadas. No centro  dessas questões está o eterno 1% contra 99%. E no entanto, a ameaça da morte não poupou ninguém: ricos e pobres. Embora tenham morrido muito mais habitantes negros do Complexo do Alemão que brancos com seguro médico e direito ao Einstein e Sírio-Libanês. No entanto, não deixa de ser irônico ver o impacto que o vírus teve nos cruzeiros paradisíacos, nem que um dos primeiros casos de morte em Portugal tenha sido o presidente de um dos maiores bancos do país.

PI: Será que o vírus colocará de joelhos o atual modelo de negócios da globalização, do mesmo modo que a Peste Negra dizimou um quarto da população ocidental no século XIV e pôs fim ao dinamismo social da baixa Idade Média? 

MB: É preciso refletir para preparar o amanhã. Na altura em que os cidadãos e os seus governos (sérios) tentam combater os efeitos da pandemia, em que a nossa atenção se concentra nas medidas sanitárias e econômicas, seria salutar pensarmos também no que serão as democracias para além da crise. Como fez Camus, ao usar a epidemia como pretexto para abordar as questões sociais, políticas e morais do seu tempo. Na Peste, a doença é tratada como uma alegoria do nazismo e a medicina como uma metáfora da Resistência. 

Mais do que nunca é preciso resistir, pois a ameaça não se deve ao fato de que o coronavírus provocou uma nova crise financeira, mas porque o homem perdeu seus valores fundamentais: solidariedade e fraternidade. Como diz o historiador e escritor israelense Yuval Harari, não tenho medo do vírus e sim dos demônios internos da humanidade.

PI: Quais os principais ensinamentos da pandemia? 

MB: O primeiro ensinamento é que a desigualdade mata. Apesar de estarmos todos no “mesmo barco”, a verdade é que o barco de uns foi um iate, enquanto o barco de outros, uma jangada. Uns viveram o isolamento em condomínios de luxo, cada qual no seu quarto, recebendo mantimentos a domicílio, enquanto outros apinharam-se em apartamentos minúsculos, outros ainda em um cômodo de terra batida e telhado de zinco, em favelas sem água nem esgoto.

Espantoso é constatar que depois de tantas calamidades, estatísticas aterradoras e uma quantidade sem fim de promessas, ainda discutamos questões básicas como saneamento. É no mínimo surreal para uma humanidade que se queria civilizada. Em países onde prevalece um ideal de sociedade baseado em valores individualistas, como Estados Unidos e Brasil, em que a saúde e a proteção da população se garante com seguros privados, a covid 19 escancarou a necessidade de um Estado Social robusto e abrangente. O liberalismo econômico falhou, o mercado falhou, a acumulação capitalista e o consumo desenfreado falharam. 

A hora de redefinir prioridades soou. E uma delas é acabar com o velho debate sobre o tamanho do Estado. A ideologia do Estado mínimo precisa ser enterrada o mais rapidamente possível. É hora de um novo pacto social. 

PI: Qual será a principal herança do negacionismo após a pandemia? 

MB: A extrema-direita populista, neofascista, sem nenhum escrúpulo nem vergonha, tentou transformar a luta contra a pandemia numa cruzada discriminatória. Matteo Salvini, líder da Liga, na Itália, afirmou que o vírus tinha sido introduzido pelos migrantes africanos. Trump, nos Estados Unidos, e o clã Bolsonaro, no Brasil, acusaram a China de ter criado o vírus para derrubar os Estados Unidos, outros ainda denunciaram um complô judaico. Numa ação inusitada, os líderes populistas abraçaram a teoria segundo a qual a doença era parte de uma conspiração mundial das elites em conluio com multinacionais do setor farmacêutico. 

Os dirigentes dessa extrema-direita mundial, que formam o que denomino a Internacional da Ignorância, não esperaram para dar o bote. Após terem exacerbado o discurso securitário, passaram a disseminar a ideia de que só a limitação das liberdades protege os cidadãos. Apostam que o medo, uma vez mais, será   seu principal aliado. Os populistas aproveitaram a crise para avançar seus peões, dentre os europeus Andrzej Duda, na Polônia, e Victor Orbán, na Hungria.

Trump e Bolsonaro negaram a evidência científica. Em declarações e atitudes criminosas, ambos minimizaram a pandemia e o número de mortos para salvar as bolsas de valores, os interesses de seus clãs e, uma vez mais, desconstruir. Ambos agiram para piorar a situação, pensando na reeleição. Trump perdeu. Ambos foram acusados pela comunidade científica internacional de terem sido responsáveis pela morte de centenas de milhares de pessoas, vítimas da Covid que menosprezaram. 

A questão democrática, antes onipresente, desapareceu do horizonte. À crise sanitária somou-se a crise política, num milk-shake autocrático. E verdadeiros genocídios foram cometidos. 

A pandemia mostrou que para derrotar o vírus em democracia é preciso que os cidadãos tenham confiança nas instituições. As medidas de exceção só podem ser transitórias e aplicadas no estrito respeito do Estado de Direito e da liberdade de informação.

Os neofascistas esperam que a crise venha reforçar o nacionalismo, o “salve-se quem puder”, que as fronteiras que foram fechadas não voltem a abrir. Gostariam também que se provasse a inutilidade da União Europeia e das organizações internacionais, como a ONU e suas agências. Apostaram suas fichas na construção de muros, físicos e virtuais. 

Quem sairá vencedor, os democratas ou os extremistas? É a grande questão. Nos países nórdicos a social democracia recuperou o prestígio e derrotou os radicais, mas a seis meses das presidenciais os neofascistas franceses crescem com o surgimento de um candidato que exige a assimilação total dos imigrantes. 

O momento que vivemos pode resultar em mais austeridade, autoritarismo e menos democracia (exemplos da China, dos EUA de Trump, Brasil, Rússia, Hungria, Índia, Filipinas) ou ao contrário na construção de um espaço onde a democracia será compatível com o máximo de equidade social, política, cultural e econômica. Precisamos de normalidade, sim,  mas de uma outra normalidade.

PI: Como será o "novo normal"? 


MB: Voltar à normalidade é a cantilena do momento; está na boca de todos. Mas voltar à qual normalidade? À dos pequenos rituais cotidianos de sair pela manhã, ir à padaria comprar pão francês (que de francês nada tem) ou à que arruinou sistemas de saúde, de habitação, de segurança social e o meio-ambiente, ao colocar o lucro individual à frente do bem-estar das comunidades e do planeta?

Muitos, como o presidente brasileiro Jair Bolsonaro e seu séquito de bolsominions, querem ardentemente que o dia-a-dia volte a ser o que era. Se possível com algumas pitadas de Idade Média.  Mas também têm surgido vozes para dizer que regressar à normalidade do passado, nem pensar.   Vivemos tempos simultâneos. Por um lado o da resposta imediata, da tragédia de famílias enlutadas que nem conseguiram velar e enterrar os seus mortos (fazer o luto tornou-se um luxo), de um número incalculável de pessoas que perderam o emprego. Por outro lado, é preciso refletir sobre o futuro de médio prazo e imaginar outros caminhos, para que não voltemos a repetir os erros que nos levaram a esta situação de impotência.

A crise sanitária excepcional, resultante de uma pandemia que se deseja circunstancial, expôs insuficiências estruturais ao nível dos sistemas de saúde pública e terá consequências para o restante da nossa existência. A OMS já advertiu: outras pandemias virão.  Nesse sentido, voltar ao normal não é - ou pelo menos não deveria ser - uma opção. É preciso tirar as consequências das nossas falhas.