'Governo Bolsonaro é inimigo da imprensa', diz Thais Oyama

Denise Alves | 26/08/2021 08:47
Uma das principais vozes do jornalismo político do país nos últimos anos, Thais Oyama estreou recentemente um novo programa na TV UOL, batizado de 'Jornalistas e Etc', para debater os bastidores da notícia. Em meio ao vai e vem do noticiário e os momentos de troca com os colegas, ela vê com certo pessimismo o futuro da profissão no Brasil comandado por Jair Bolsonaro. 

Um ano após o lançamento de 'Tormenta - O Governo Bolsonaro: Crises, Intrigas e Segredos', a jornalista aponta o presidente como uma das maiores ameaças à liberdade de imprensa, e não acredita em um futuro melhor para a profissão enquanto ele estiver no poder. Do lado dos profissionais, no entanto, enxerga certa resistência - 'ainda não vejo arrefecimento das empresas e dos jornalistas', disse.
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Thais Oyama e Daniela Lima durante edição do
Thais Oyama e Daniela Lima durante edição do 'Jornalistas e Etc', no Canal UOL
No ar desde maio, o quadro 'Jornalistas e Etc' estreou com a participação de Reinaldo Azevedo, colunista do UOL, da Folha de S.Paulo e da Rádio Band News. Desde então, a atração comandada por Thais Oyama já recebeu grandes nomes como Daniela Lima, Fernando Gabeira, Juliana Dal Piva, Carlos Alberto Sardenberg, Mônica Bergamo, Pedro Bial, Andreia Saddi, entre outros. As estrevistas estão disponíveis no YouTube, e toda terça-feira, há um novo episódio. 

Confira, na íntegra, a entrevista inclusiva concedida ao Portal IMPRENSA.

Portal IMPRENSA - Como a polarização política e as crises pelas quais o Brasil passa influenciam na cobertura do jornalista?

Thais Oyama - Acho que do ponto de vista do repórter e do jornalista, isso é muito interessante, instigante, estimulante, porque a notícia não falta e obriga que a gente trabalhe em um ritmo de dedicação intenso. Fico até com dó dos nossos colegas da Islândia, dos países nórdicos, onde não há crises e muito menos, uma por semana, como acontece com a gente. Desse ponto de vista, é desafiador e interessante cobrir política em um país com o governo tão extraordinário - não necessariamente no bom sentido, como esse governo Bolsonaro.

Mas, ao mesmo tempo, faz com que a gente perca a noção do todo. São tantas crises, tantos acontecimentos diários, de relevância, que acabamos 'perdendo a noção da floresta', como se diz. Ficamos olhando as árvores, árvore por árvore, e não temos noção da floresta.

O tamanho dessa crise institucional ainda está para ser avaliado por nós, jornalistas. Tenho impressão que se a gente olhar de longe, olhar a floresta e não a árvore, vamos ver que é muito grande, inédita, e o fato de estarmos mergulhados diariamente nas pequenas coisas que fazem essa grande crise não permite que percebemos isso.

PI - Com a gravidade dos acontecimentos diários, normalizamos comportamentos que em outros tempos, seriam absurdos?

TO - Exatamente. Vamos ficando tão envolvidos, tão acostumados, que terminamos por banalizar ou subestimar a gravidade de algumas falas, gestos e acontecimentos. Acho que esse é o risco, e é por isso que eu digo que ou a gente, ou perde a noção do todo, ou a capacidade de transmitir essa gravidade.

O sarrafo baixou de um jeito que a gente perde a noção do quanto regredimos, do quanto andamos para trás em termos institucionais e de liberdade nesse Governo Bolsonaro.

No ano em que eu escrevi o livro [sobre o Governo Bolsonaro] ele tinha repassado para grupos no Whatsapp um texto alarmista, que chamamos texto apavorante, que trazia alguns recados golpistas e pouco republicamos. Aquilo estremeceu o Congresso, alarmou o Judiciário, todos demos, todo mundo ficou muito perplexo com o fato do presidente da República repassar um texto que não havia sido escrito por ele, mas que deixou todo mundo perplexo. Hoje, há duas semanas, ele fez a mesma coisa e não mereceu nem um rodapé de página, não teve repercussão.

Ele repassou para um grupo no Whatsapp, e também às vésperas de uma manifestação, um texto onde ele falava da necessidade de um "contragolpe". Ou seja: exatamente a banalização do gesto, das atitudes, e dos pequenos escândalos institucionais que estamos vendo agora.

PI - Como os jornalistas podem lidar com ataques vindos de grupos pró e contra governo?

TO - Isso tem vindo em uma escalada muito rápida. Entrevistei no 'Jornalistas e Etc', o que nada mais é do que uma Revista IMPRENSA em uma outra plataforma, uma pequena tentativa de fazer o que vocês fazem há muito tempo, a Daniela Lima, e fiquei muito impressionada com a impotência do jornalista nesses ataques massivos de ódio e fake news. A Daniela Lima, apresentadora da CNN, como outros jornalistas, mas de forma mais reiterada, uma vítima preferencial de bolsonaristas furiosos.

Fiquei muito impressionada com a impotência dos jornalistas vítimas desse tipo de ataque. Não existe jurisprudência consolidada para haver uma denúncia e punição para quem espalhe mentiras a respeito do que disse um jornalista. No caso da Daniela, isso viralizou em diversos momentos, algo que ela não disse. Os instrumentos jurídicos são precários porque tudo é relativamente novo, a relação com as redes sociais. Há o instrumento da calúnia e da difamação, mas isso requer todo um procedimento lento. Enquanto você aciona seu advogado e ele entra na justiça, isso tudo se espalha de um jeito a causar prejuízos que não podem mais ser remediados.

O que me impressionou sobre tudo foi justamente a falta de instrumentos e a "desproteção" do jornalista nesse tipo de ataque organizado.

PI - Os jornalistas estão então sendo punidos apenas por fazer o trabalho?

TO - Isso sempre aconteceu, mas em uma outra escala, até porque os meios eram outros. O clima político também não era tão acirrado. A polarização aumentou em uma velocidade exponencial e tudo isso se reflete nesse tipo de ataque.

PI - Nesse contexto da polarização e dos ataques, como você avalia a liberdade de imprensa no Brasil?

TO - A liberdade de imprensa no Brasil tem se mantido a duras penas. Até o momento, o que vejo foram tentativas de cercear essa liberdade, principalmente por meio de ataques desse tipo de fonte, com essa origem meio difusa, oficialmente não institucional - sabemos que existem grupos pagos ou patrocinados pelo Estado, pela máquina administrativa, pelo Governo Bolsonaro, mas isso é uma questão a ser apurada e delimitada, então por isso que eu digo que, por enquanto, esses ataques ainda têm origem difusa e não-institucional.

Existe uma tentativa de cercear a liberdade de imprensa, por parte, sobretudo, desses grupos não-institucionais. Vejo muitas ameaças e intimidação por parte do Governo e do próprio presidente, mas acho que até agora foram infrutíferas. Todas ameaças que ele fez e cumpriu, boicotando anúncios e jornais e conclamando empresas a fazerem o mesmo, ameaçando caçar licenças da Globo, tudo isso foi, até agora, infrutífero. As empresas continuam exercendo seu direito e dever de criticar e fiscalizar o Governo.

Há várias tentativas desses grupos não-institucionais para fazer a mesma coisa, e eles conseguem atrapalhar o trabalho dos jornalistas, como vemos nos casos da Daniela Lima, da Patrícia Campos Mello, Vera Magalhães e tantas outras jornalistas que foram prejudicadas.

Mas ainda não vejo arrefecimento das empresas e dos jornalistas.

PI - Após o lançamento do seu livro, você disse à IMPRENSA que não escreveria outro sobre o Governo Bolsonaro. Os acontecimentos recentes a fizeram mudar de ideia?

TO - Eu gostaria muito, material não falta, tenho vontade de escrever, mas não tenho tempo para isso. Aquela promessa! (risos) A esperança de me envolver com outra coisa se mostrou impossível. Como se distanciar de um governo que produz tanta notícia e tanta crise, nessa velocidade, sendo jornalista no Brasil? Não tem opção. Acho que as férias vão ficar para o próximo governo.

PI - À época, você se mostrou otimista com relação à melhora na relação entre presidente e jornalistas. O que pensa disso hoje?

TO - Eu errei redondamente! (risos) Era uma esperança que não se concretizou, e não poderia ter pior destino. Acho que as coisas só vão se resolver entre governo e imprensa quando o governo for outro. Esse, realmente, já se provou incorrigível, inclusive nesse sentido.

Bolsonaro vê a imprensa como inimiga, incita os bolsonaristas a fazerem o mesmo. Os resultados, estamos vendo nessa conversa. Enquanto há isso, tenho certeza. Não há volta, não há "bombeiro" - vivem dizendo que o presidente está cercado de "bombeiros", que se mostraram incompetentes, pois não conseguiram resolver nem esse, nem outros assuntos -, então não penso que conseguirão. A relação só vai melhorar quando o governo for outro.

PI - E sobre a relação da imprensa com o público?

TO - Tenho a impressão, e acho que algumas pesquisas apontaram isso, que a relação teve uma recuperação consistente devido à pandemia. Blogs e sites não-profissionais conseguiram um espaço, as vezes merecido, as vezes não, e esse espaço foi tomado da imprensa profissional, não há dúvida.

A pandemia forçou as pessoas a procurar fontes profissionais, já não era mais uma questão de ideologia, mas de saúde, vida e morte. E elas passaram a procurar fontes mais credenciadas para se informar sobre um assunto tão grave.

Vejo pesquisas que mostram isso, apontam para uma recuperação parcial, acho ótimo. De fato houve um trabalho fundamental da imprensa, todos os esforços para oferecer números confiáveis quando o governo sabotava os números, uma série de iniciativas valorosas da imprensa e dos grupos de mídia, e isso foi reconhecido pelo público.

Mas, de qualquer forma, houve um grande estrago, e grande parte desse estrago podemos atribuir ao método liderado pelo governo Bolsonaro. Isso contribuiu para um grande desgaste. E é trabalho da imprensa recuperar isso. Mas volto a dizer - não tenho esperanças de que isso aconteça antes de 2022. 

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