"Minha mãe morreu por isso", diz filha de Zuzu Angel sobre localização do irmão desaparecido

Lucas Carvalho* | 22/12/2014 16:30
No último dia 9 de dezembro, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) apresentou um depoimento do capitão reformado da Aeronáutica, Álvaro de Oliveira Filho, sobre os crimes contra a humanidade cometidos pelo regime militar no Brasil. Segundo o ex-comandante, o corpo de Stuart Angel Jones, militante morto sob tortura em 1971, foi enterrado na cabeceira da pista da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro (RJ).

Crédito:Reprodução/Twitter
Jornalista defende trabalho da CNV, mas critica imprensa por reproduzir versão oficial sobre morte de sua mãe

A notícia veio junto com informações sobre os possíveis restos mortais de Stuart, que é filho da estilista Zuzu Angel e irmão da jornalista Hildegard Angel. A CNV também descobriu que imagens de uma ossada encontrada na capital fluminense, de acordo com análises preliminares, podem ter pertencido ao militante desaparecido. “Isso é uma coisa muito importante historicamente”, diz Hildegard, à IMPRENSA. “Minha mãe morreu por isso.”

Zuzu Angel morreu em 1976, vítima de um aparente acidente de carro no Rio de Janeiro (RJ). Após o desaparecimento de seu filho, a estilista se tornou ativista na luta contra a ditadura, dentro e fora do Brasil. A versão oficial dos órgãos que investigaram sua morte diz que ela teria dormido ao volante. Porém, investigações da CNV e também da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos de 1998 encontraram evidências legítimas de que o acidente foi provocado de forma criminosa pelo regime militar.

Crédito:Instituto Zuzu Angel/Divulgação
Zuzu Angel foi assassinada em acidente para calar as buscas pelo filho

“Mamãe não morreu de causas inexplicáveis. Ela foi assassinada em um ‘acidente’ provocado por agentes do Estado – e isso está provado! É muito importante que a imprensa acredite nisso. Para a imprensa não caiu a ficha, pois passou décadas publicando ‘acidente de causas não esclarecidas’, ‘nebuloso’. Não foi nebuloso! Mamãe foi assassinada por agentes da repressão!”, critica Hildegard.

A jornalista, que há 43 anos busca respostas sobre o desaparecimento de irmão, diz que as recentes descobertas significam um alívio para as famílias de outros desaparecidos durante a ditadura. “Nós já somos os perdedores, nós perdemos essa guerra, se é que isso foi uma guerra. As regras do jogo foram estabelecidas por eles, nós tivemos que acatar. Hoje em dia temos que nos satisfazer com as migalhas, com o possível.”

Crédito:Reprodução/CNV
Stuart está desaparecido desde 1971, quando foi preso pela ditadura

Por outro lado, Hildegard elogia o trabalho da CNV na revelação dos segredos do regime militar, mesmo que tanto tempo depois. “Eu acho que a Comissão da Verdade é séria, importante, sóbria, competente, necessária e ela fez o que foi possível fazer. Eu aplaudo a nossa Comissão da Verdade. Tudo o que tem sido feito é o possível e a nossa realidade é essa. Temos que nos contentar com o possível”, finaliza.

A jornalista e sua irmã, Ana Cristina Angel, agora esperam encontrar os restos mortais de Stuart para realizar o desejo da mãe e poder enterrar o irmão.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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