"É outra África", diz Ana Paula Padrão sobre reportagem especial sobre ebola

Lucas Carvalho* | 04/12/2014 18:00
Nesta quinta-feira (4/12), a jornalista Ana Paula Padrão, atualmente apresentadora do reality show culinário "MasterChef", divulga uma reportagem especial na Band sobre a epidemia de ebola em Guiné, na África.

Em entrevista à IMPRENSA, ela conta os bastidores da matéria e comenta sobre a nova fase de “experimentação” na carreira.

Crédito:Divulgação
Ana Paula Padrão relata preconceito contra africanos por causa do ebola

IMPRENSA – Como você se preparou para essa reportagem?
Ana Paula Padrão – A preparação de toda reportagem em lugares difíceis – seja porque houve um acidente natural, ou um acidente nuclear, uma região de conflito, ou uma região que apresenta perigo de epidemia, como no caso do ebola – é o mais importante. Eu comecei a preparar isso logo que a gente terminou de gravar o “MasterChef”, no fim de setembro. Eu só ofereci para a Band quando eu achei que tinha condições de ir com o risco bastante baixo.

Quais eram os principais riscos?
O maior risco é o de distração. Uma das enfermeiras com quem conversei pegou a doença porque, quando saiu da área de alto risco e começou a tirar a roupa de proteção, pulou uma etapa. Ela suava demais, porque lá é sempre acima de 35 graus – dentro daquela roupa, então, você sua loucamente. Ela então passou a luva na testa para secar.

Você tem que ficar se policiando o tempo inteiro para não ter essas reações instintivas. E isso é difícil! Imagina uma enfermeira treinada, semanas e semanas para aprender a vestir e tirar a roupa de proteção… se ela errou. Então, mesmo que você saiba de tudo isso, quem garante que você não vai se distrair? Para que isso não acontecesse, para que o risco fosse mínimo não só para mim, mas também para a equipe, decidi estar sempre com pessoas.

E quem te acompanhava?
Dentro do centro de tratamento eu estava sempre com os Médicos Sem Fronteiras; na remoção e enterros de corpos, sempre com a Cruz Vermelha; e andando pela cidade, nos mercados e tal, sempre com o pessoal da embaixada brasileira. Não passei por nenhuma situação onde estávamos só nós três da equipe buscando informações. Para tomar conta mesmo, sabe? Até para tirar dúvidas, se precisasse.

O que mais você fez para evitar o contágio?
É óbvio que eu não fui querendo pegar ebola e muito menos trazer ebola para cá – e muito menos ainda expor alguém da equipe a algum tipo de risco. Então, foi a decisão que eu tomei aqui ainda: eu não faria as imagens que tinha que fazer desacompanhada e não chegaria e nem deixaria ninguém da equipe chegar perto de um doente sintomático. Se você faz isso, e se distrai, coça o olho, é determinante. O problema é na hora do contágio. Agora, uma vez contagiado, você tem mais de 60% de chance de morrer. O negócio é não pegar.

E como eram as condições de higiene no país?
A gente só comeu na embaixada brasileira ou no restaurante dos expatriados. Mesmo nesse restaurante eu só comi pizza. Essa é a primeira vez que eu vou para uma cobertura difícil e engordo [risos] por causa das condições de higiene. Aí não é nem uma questão de pegar o vírus, mas e se eu tivesse uma diarreia? Pegasse uma salmonela? Você pegar qualquer coisa que te dê febre, nesses lugares, o procedimento é: interna no centro de tratamento de ebola. E outra coisa: eles não te deixam sair do país com febre. Então, você tinha que tomar cuidado não só para não pegar o ebola, mas para não pegar nada que desse febre.

Qual foi o posicionamento da Band quando você apresentou a pauta?
Levei para eles toda essa preparação. O Johnny Saad [presidente do Grupo Bandeirantes] falou comigo: “Ana, não é muito perigoso?”. Eu falei: “Não, por causa disso, disso e disso”. O Diego Guebel [diretor geral de conteúdo], a mesma coisa. Quando eu consegui mostrar para eles que o risco era controlado, aí a gente tocou a produção.

Como vocês foram recebidos pela população?
No primeiro dia eu fiquei com medo. Eles se sentem muito discriminados, com toda a razão. Quando você chega ali, três ocidentais, com câmeras, é lógico que eles sabem que você está ali para cobrir a história do vírus. E eles acham que você vai falar mal deles. Então, eles são ligeiramente agressivos. Não é aquela África que a gente chega e eles começam a falar de futebol, trocam camisetas, abraçam, pegam, beijam. É outra África. É uma África desconfiada, rancorosa, se sentindo estigmatizada, eles estão se sentindo mal. O peso do preconceito é quase tão cruel quanto o vírus em si.

Que momento mais te chocou?
Os enterros. Só existe um cemitério na capital aceitando vítimas de ebola e a maioria é enterrada sozinha. Beira a humilhação. A família não vai, primeiro, porque morre de vergonha de estar enterrando alguém da família sem o ritual de banhar o corpo, abraçar e beijar o morto. É estar desafiando um ritual religioso. E segundo porque essa família fica estigmatizada.

Manter a distância nesses momentos, por ser jornalista, é difícil?
Eu também não sabia disso em mim, fui aprendendo com o tempo: eu choro na volta. Sempre. Na hora, eu elevo o grau de tensão para ficar esperta. A tensão e o medo te ajudam muito nessa hora, porque não te deixam fazer bobagem. É automático isso em mim, eu me protejo elevando o grau de tensão. Isso não te deixa chorar, ter sono, fome… Mas quando eu entro no avião, começo a chorar. Fico dias chorando, estou chorando até hoje.

Qual é a importância de uma cobertura como essa?
A coisa mais importante é desfazer o preconceito. Vários amigos meus, quando eu disse que estava indo cobrir o ebola na Guiné, me disseram: “você é louca. Isso pega, isso mata”. Eu falei: “então me diz como é que pega”. E eles não sabiam responder. Ninguém sabe, fazem deduções preconceituosas. Você está estigmatizando um povo inteiro porque se deu um surto de uma doença que não existe cura. Isso não quer dizer que todo mundo que vai para Guiné vai morrer. Eu fui e estou aqui!

Eu acho inadmissível que as pessoas tenham o grau de acesso à informação que elas têm hoje, num mundo ultraglobalizado, todo mundo tem computador, dois ou três, e não colocam ali [na busca] “ebola”, “contágio”, e se informam um pouco sobre isso. A primeira função do jornalista é dar a informação correta. Nesse caso específico, a informação correta ajuda a quebrar uma coisa muito séria que é o preconceito. Eu dediquei parte da minha vida para baixar o grau de preconceito contra mulher. Agora eu fui fazer uma matéria que pretende baixar o grau de preconceito contra um povo que é vítima de uma epidemia. Ele não têm culpa.

Existem planos para novas reportagens especiais para a Band?
Eu acabei de chegar, né? [risos]. Eu não faço outra coisa há semanas senão pensar no ebola. O que vai vir depois eu não sei. O que eu posso te dizer é que estou tendo uma liberdade de transitar de um lugar para o outro que eu nunca tive antes. Estar experimentando aos poucos outras áreas e poder propor coisas da minha área de origem, eu tenho achado muito legal. A gente fica com muito medo de fazer o que nunca fez por bobagem. Você só aprende fazendo. Então, se eu estou numa casa que me permite fazer isso, eu vou continuar propondo. Não sei o quê, mas vou. [risos] É tão legal, me sinto tão jovem, tão viva…

Confira imagens da reportagem:




* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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