Repórter da "Zero Hora" relata os bastidores de coberturas de risco em novo livro

Alana Rodrigues* | 03/01/2014 13:30
O jornalista Humberto Trezzi, do jornal gaúcho Zero Hora, lançará no dia 29 deste mês seu primeiro livro individual “Em Terreno Minado – Aventuras de um repórter brasileiro em áreas de guerra e conflito”. A obra, que já está disponível em sites e livrarias, retrata os bastidores de uma série de reportagens em zonas de risco produzidas por ele ao redor do mundo.

Crédito:Arquivo pessoal
Jornalista conta bastidores de reportagens em áreas de conflito

Trezzi fez diversas coberturas criminais no Rio de Janeiro e São Paulo, investigando ações do Comando Vermelho e do PCC, além de acompanhar a inundação de 2008 em Santa Catarina. Como repórter especial, atuou em coberturas internacionais no Paraguai, Uruguai, México, Equador, Colômbia, Angola, Timor Leste e Haiti. Em 2011, o repórter conferiu de perto a sangrenta guerra civil na Líbia.

À IMPRENSA, o jornalista contou como foi acompanhar os terrenos minados por onde passou, os meandros da profissão e como a mídia vem produzindo o noticiário sisudo que apresenta como protagonista os conflitos do país e do mundo.

IMPRENSA -  Entre tantos conflitos que você cobriu, qual foi o momento que mais o marcou?
Humberto Trezzi - A cobertura que mais me impactou foi a da guerra civil na Líbia, durante a chamada Primavera Árabe. Estive no país no início da rebelião, em março de 2011, e no final, em setembro daquele ano, quando o ditador Muammar Kadafi fugiu de Trípoli. Acompanhei a tomada da capital pelos guerrilheiros. No início da revolta, estive numa batalha de canhões — acompanhando os guerrilheiros — que quase me custou a vida. Fiquei com o olho esquerdo ferido e tive de voltar de tapa-olho ao Brasil. Felizmente, me recuperei e consegui retornar ao território líbio, depois, para ver o final da ditadura.

Você fez cursos de cobertura de risco no Brasil e na Argentina. De que forma eles auxiliaram?
A gente sempre pensa que, após alguns anos de prática em lugares de risco, sabe muito. Fazendo o curso percebi que me faltava técnica em várias coisas. Como se deslocar em terrenos minados, como evitar bombas, franco-atiradores e negociar a própria vida... Já tinha enfrentado algumas situações assim, mas de forma improvisada. Aprendi a técnica correta nesses cursos.

Crédito:Divulgação
Obra traz reportagens sobre diferentes conflitos

Qual é o maior desafio para um repórter que cobre guerras?
Não sou especialista em guerras, até porque esse tipo de profissional é raro no Brasil. Mas estive em algumas. Cobrir locais conflituados e de risco enseja vários desafios, como domínio de alguns idiomas, versatilidade para negociações de ingresso nas áreas em disputa, credenciamentos mil, documentos sempre em dia, como lidar com dinheiro sem ser roubado, negociar entrevistas com gente armada, ingressar e sair de um país onde a lei deixou de existir ou está balançada.

Você acredita que a cobertura que a mídia vem fazendo nessas áreas é satisfatória?
A cobertura que a mídia brasileira faz de guerra é esporádica e insuficiente. Destaco gente como Lourival SantAnna, Adriana Carranca e Andrei Netto, de O Estado de S. Paulo; Rodrigo Lopes, de Zero Hora; Deborah Berlink, de O Globo; e Samy Adghirni, da Folha, como alguns experientes. Mas nenhum deles cobre apenas conflitos, esse tipo de profissional é característica de europeus e americanos, preponderantemente.

Hoje, a imprensa é muito visada em zonas de conflito. Como é possível trabalhar sem correr grandes riscos?
Não há como a mídia reportar o que deve em países conflituados sem riscos. Tem é de tentar correr menos riscos possível. Algumas providências: informar a embaixada brasileira nesses locais de que se está indo para lá e deixar vários telefones de contato, contatar colegas do país em conflito, negociar previamente entrevistas, usar credenciamento correto e equipamento apropriado de proteção, manter sempre vias de escape prontas e comunicação permanente com a redação e deixar claro que está como jornalista e não como apoiador de alguma causa. Coisas assim são básicas.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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