“As pessoas só decoram as regras”, diz autor de projeto que simplifica a ortografia

Danúbia Paraizo | 11/12/2013 15:15
Em 2012, mesmo ano em que o novo acordo ortográfico firmado entre os oito países que falam português passou a ser utilizado pelas principais redações do Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou um dado alarmante: pela primeira vez, desde 1998, o analfabetismo voltava a crescer no País. Foram identificadas 13,2 milhões de pessoas que não sabiam ler ou escrever. 

Crédito:Divulgação
Pimentel encabeça o projeto "Simplificando a Ortografia"
Para o professor de língua portuguesa Ernani Pimentel, que se dedica há 50 anos ao ensino, a explicação para o fenômeno tem nome e sobrenome: as regras ortográficas. Segundo ele, elas são incompreensíveis e dificultam o aprendizado.

“No caso do “s” e do “ç”, por exemplo, há pelo menos seis formas diferentes de escrever o mesmo som. Quem consegue aprender desse jeito? Só na base da decoreba, mas hoje esse modelo já não cabe. Nossa proposta é transformar a decoreba num ensino racional e lógico”. 

Com objetivo de facilitar o aprendizado da língua portuguesa, promovendo maior inclusão social, Pimentel encabeça o projeto “Simplificando a Ortografia”, que prevê estabelecer com a ajuda da sociedade e professores de países como Angola, Moçambique, Portugal, entre outros de língua portuguesa, um modelo de acordo ortográfico sem tantas exceções e regras. O abaixo-assinado na internet para solicitar a mudança já conta com mais de 30 mil assinaturas.

O prazo para que o novo modelo seja concluído é julho de 2014, para que aja tempo hábil para os representantes dos oito países enviarem a proposta ao seus respectivos senados. Caso o projeto seja aprovado, seguirá para a sanção do poder executivo, devendo ser implementado até 2016, data estabelecida para o novo acordo ortográfico entrar em vigor.

Em entrevista à IMPRENSA, Pimentel fala sobre o desafio de ensinar a língua portuguesa nos dias de hoje e as principais vantagens das mudanças propostas do “Simplificando a Ortografia”.

IMPRENSA - Desde 2012 os veículos passaram a adotar o novo acordo ortográfico. Caso o projeto “Simplificando a Ortografia” seja aprovado, haverá novas mudanças. Como os meios impressos vão receber isso? 
Ernani Pimentel - Quando e, se houver essa simplificação, os veículos vão ganhar com isso. A ortografia vai ficar muito mais simples e os redatores terão muito menos trabalho, vai ser tudo mais rápido. Na hora de escrever um “x” ou um “ch”, um “j” ou um “g”, não vai haver mais dúvidas. A escrita passa a ser mais rápida e fluente. O escrever vai ficar mais barato.

Quais são as principais mudanças no acordo ortográfico propostas no seu projeto? 
Na realidade, para escrever bem temos que ter uma visão científica da língua, sem emotividade ou apego. Com esse pensamento, entendemos porque há tanta dúvida em relação ao uso do “g” e “j”, por exemplo. Como resolveríamos isso de uma vez por todas? Nas línguas nórdicas, como o sueco, e as anglo-saxônicas, não existe o som da letra “g”, mas sim da letra “guê”. Desta forma, se lê “Anguela” Merkel. Se passássemos ao mesmo raciocínio, os fonemas “ga”, “gue”, “gui”, “go” e “gu” só poderiam ser escritos com a letra “gue”. Já as palavras com som “ja”, “je”, “ji”, “jo” e “ju” só poderiam ser escritas com "j". É mais fácil do que explicar que se usa o “j” nas palavras de origem árabe ou tupi. 

Uma das propostas de seu projeto é a redução de 400 horas de ensino ortográfico para 150 nas escolas. Isso não seria prejudicial para as crianças?
Hoje, o professor gasta 400 horas para ensinar ortografia durante o Ensino Fundamental e o Médio e, mesmo assim, o aluno ainda sai sem saber escrever. Nossa proposta é que o professor gaste apenas 150 horas com o ensino caso a ortografia seja simplificada. Isso porque ela terá uma eficiência muito maior. Ficam sobrando 250 horas a serem gastas com coisas mais importantes, como interpretação de texto e leitura. 

O que acontece hoje com o Enem? Tem candidato com vários erros de ortografia ganhando nota máxima. Por quê? Isso é prova de que não se ensina direito, as pessoas não conseguem aprender. É o reconhecimento de que essa ortografia não consegue ser ensinada, as pessoas só decoram. Ao simplificar a ortografia, simplificamos a vida de todo mundo, ganhamos inclusão social. Não vai ter mais essa de gente semi-analfabeta ou analfabeto funcional. Todos saberão ler.

Desde quando o senhor tem pensado nesse projeto de simplificação da ortografia? Por quê ele é necessário?
Esse anseio pela simplificação da língua é histórico. Em 1750, Luiz Antonio Verney já falava disso. No Rio Grande Sul, no início do século 19, isso também era discutido. No Brasil, foi feito um acordo ortográfico sem nenhuma consulta à população. Isso foi imposto para gente. O que acontece é que a educação mudou, ela quer que o aluno entenda, não que ele decore. As regras ortográficas, que estão a,í estão baseadas no modelo antigo de educação.

É um projeto que visa trazer a educação para os tempos de hoje. Fui dar uma palestra na Alemanha para 40 gestores que viriam para a América do Sul e eles tinham que escolher uma segunda língua: espanhol ou português. Trinta e dois escolheram o espanhol porque era mais fácil e eles tinham que fazer relatórios. Ou seja, estamos perdendo espaço internacional. 

Como será o processo de construção do novo acordo proposto por vocês?
Nós já temos professores engajados nesse trabalho, tanto no Brasil quanto nos seis dos sete países que assinaram o acordo junto com o Brasil. Esses professores vão discutir com os alunos essas simplificações da ortografia e vão nos mandar sugestões até julho de 2014. Em setembro, vamos fazer um simpósio em Brasília com os representantes desses países para ver quais foram os esquemas de simplificação mais eficientes. Para avaliar sem subjetividades, vamos analisar menor número de regras, maior abrangência e menor número de exceções. Vamos então votar o melhor sistema. Escolhido o modelo, cada representante vai levar a mesma proposta para ser votada em seu país. 

E como lidar com a população adulta já alfabetizada, que agora terá que aprender uma nova versão do novo acordo ortográfico?
A população não é alfabetizada. Não há um professor que saiba usar 100% as regras de ortografia, porque elas são absolutamente incompreensíveis. As regras são absurdas, ninguém consegue aprendê-las. No caso do “s” e do “ç” há pelo menos seis formas diferentes de escrever o mesmo som. Quem consegue aprender a escrever desse jeito? Só na base da decoreba. Essas regras vêm da Idade Média, em que se ensinava decorando, mas hoje esse modelo já não cabe. Nossa proposta é transformar a decoreba num ensino racional e lógico. 

Num primeiro momento, as pessoas podem até achar ruim de mudar tudo de novo. Mas quando perceberem que ela é mais simples, todo mundo vai querer. Se o governo aprovar essas alterações, e der mais dez anos de prazo para adequação, garanto que em menos de três anos todo mundo terá se adaptado.