Você tem a força - Por Rachel Reis/PUC - Campinas

Você tem a força - Por Rachel Reis/PUC - Campinas

Atualizado em 11/08/2005 às 19:08, por Rachel Reis e  estudante da PUC - Campinas.

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A crença em promessas e pedidos a santos é grande, mas a capacidade de mudança está dentro de cada ser humano


Chovia muito naqueles dias. O sítio em que Sebastião André Pereira morava, no município de Duartina, interior de São Paulo, ficava longe da cidade. Em épocas de chuva, quando precisava de algum mantimento, sua única opção era ir até a casa do irmão, Benedito, que ficava dentro do mesmo sítio. Era assim quando chovia por muito tempo - um ia até a casa do outro. Durante o trajeto, via-se a mesma paisagem: mata, mata e mais mata. Diziam que podia haver onças por lá. Os irmãos preferiam não arriscar quando iam à cidade; iam juntos, para evitar surpresas desagradáveis. E foi o que fizeram quando a chuva deu uma trégua. Benedito pegou seu cavalo; Sebastião, sua égua, que estava prenha. "Como você vai com essa égua? E se ela der cria no meio do caminho?", perguntava a esposa de Sebastião, que, confiante e disposto a aproveitar o período de estiagem para chegar à cidade, respondia: "Se ela der cria na estrada, eu jogo o potranquinho nas costas e não deixo a onça comer".

Mas tudo correu bem e os irmãos puderam chegar à zona urbana de Duartina. Fizeram as compras de que tanto precisavam, ajeitaram um saco de mantimento de cada lado de seus animais e partiram rumo ao sítio. Mas a chuva, traiçoeira, deixara conseqüências, e uma parte da estrada havia cedido, dando lugar a um barranco. Diante daquilo, Benedito segurou firme a rédea de seu cavalo, preparou-se e superou o obstáculo. Sebastião, ciente de que sua situação era ainda mais delicada, resolveu arriscar e correu com a égua em direção ao barranco. Em poucos segundos, o tempo pareceu mais longo e uma série de coisas aconteceu. Quando a égua estava prestes a pular o barranco, a rédea que a controlava estourou, o que a levaria direto para o buraco, tirando sua vida e a do filhote que carregava dentro de si. A única idéia que passou pela cabeça de Sebastião foi gritar: "Me salva, minha Nossa Senhora!".

Instantes depois, a égua - e Sebastião, ainda preso a ela - estava sentada do outro lado do barranco, com o rabo a balançar à beira do buraco causado pela chuva. Enquanto Benedito tirava os sacos de mantimento de cima dela, Sebastião segurava o cabresto, para manter o animal parado e evitar que ele caísse. Num movimento final, os irmãos puxaram a égua e puseram-na de pé, pronta para retornar ao sítio.

Quando essa história aconteceu, Mercedes Pereira, filha mais velha de Sebastião, ainda não era nascida. Hoje, aos 62 anos, já aposentada e morando em outra cidade do interior de São Paulo - Jundiaí -, conta que cresceu acompanhando a devoção do pai a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil. Outros tios de Mercedes também eram devotos, o avô era muito católico e estava sempre rezando terço; a devoção a Nossa Senhora Aparecida, enfim, tornou-se tradição de família.

Origem - Conta-se que, num dia de 1717, encarregados de fisgar alguns peixes do rio Paraíba, para garantir o almoço do então governador da província de São Paulo, conde de Assumar, os pescadores Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves, da Vila de Guaratinguetá (região do Alto Vale do Paraíba), não estavam tendo muita sorte. No entanto, continuavam tentando, até que pescaram o corpo e, numa segunda tentativa, a cabeça da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Quando lançaram as redes nas águas do rio por mais uma vez, os peixes começaram a surgir ao redor do barco. A imagem da santa ficou na casa de Felipe Pedroso por 15 anos, passando, em 1735, para uma capela no Morro dos Coqueiros, situado naquela mesma região.

A peregrinação de fiéis até o local cresceu tanto, que se tornou necessária a construção da chamada Basílica Velha, para abrigar a imagem de Nossa Senhora (atualmente, ela se encontra na Basílica Nova, construída em 1955, justamente porque o número de romeiros era cada vez maior). Ao redor da Basílica Velha, formou-se uma vila que, em 1928, quando emancipada de Guaratinguetá, recebeu o nome de Aparecida, em homenagem à santa. Com uma população de quase 36 mil habitantes, segundo dados de 2004 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Aparecida recebe cerca de sete milhões de romeiros por ano.

Quem vai à cidade todos os anos, pelo menos sempre que pode, é Mercedes, ao lado de duas de suas três irmãs mais novas, Lurdes e Olga, também devotas à santa padroeira do Brasil. E, em 2001, quando o pequeno Caio Justi Silva, neto de uma afilhada de Sebastião e grande amiga de Mercedes, teve uma alergia na pele cujas causas nenhum médico soube explicar, ela não teve dúvidas. "Fiz uma promessa para Nossa Senhora, que se o Caio sarasse daquela alergia, eu ia tirar uma foto dele para levar à cidade de Aparecida". Em menos de uma semana, ela conta, a alergia sumiu, para nunca mais voltar. Quando a igreja que freqüenta realizou uma excursão para aquela cidade, Mercedes fez questão de ir. Na ocasião, não tinha ainda uma foto de Caio, mas aproveitou a oportunidade para agradecer a graça alcançada.

Ao falar da cidade de Aparecida, Mercedes lembra-se de mais um episódio marcante pelo qual um parente passou. Dessa vez, o protagonista foi o irmão mais velho de Sebastião, Manoel, que tinha uma vontade imensa de visitar aquele município. Manoel colhia de tudo - milho, feijão, algodão -, mas o dinheiro que ganhava só era suficiente para seu sustento, e não para que ele pudesse ir a Aparecida. Certo dia, resolveu plantar alho, dizendo que, com o dinheiro que aquela planta rendesse, compraria roupas "decentes" - terno, chapéu e botina - e iria até a cidade. "Ele plantou aquele alho com tanta devoção de ir a Aparecida, que conseguiu vender a colheita por um valor suficiente para comprar as roupas, ir até a cidade, pagar um hotel e voltar. E ainda disse que sobrou dinheiro", conta Mercedes.

"É de família mesmo", diz a aposentada, quando pensa na devoção, nos pedidos e nas promessas que os parentes já fizeram e alcançaram, o que inclui suas irmãs Lurdes e Olga. No início dos anos 90, quando as duas trabalhavam na área de produção alimentícia da Fleischmann, o medo de serem demitidas e não conseguirem arrumar outro emprego, por causa da idade avançada e da falta de estudo (elas estudaram até a quarta série do Ensino Médio), fez com que Lurdes realizasse uma promessa e Olga, um pedido. "Quando eu ia entrando no trabalho, eu pedia a Santo Antônio que me ajudasse a ficar no emprego até a hora de eu me aposentar", conta Olga. "Mas eu pensava 'não posso falar só por mim, tenho de pedir para todo mundo'", acrescenta. Até hoje, aos 60 anos, Olga agradece pelo que conseguiu - em maio de 1997, aposentou-se, após 19 anos e sete meses de trabalho (por lidar com produtos químicos, o tempo de trabalho necessário para que ela se aposentasse foi menor).

Lurdes também tem muito a agradecer. Prometeu que nunca mais comeria carne durante a Quaresma, caso conseguisse permanecer no emprego da Fleischmann. Aos 58 anos, ela está aposentada, também desde 1997, após 21 anos e dois meses de trabalho (mais quatro anos descontados porque, assim como Olga, lidava com produtos químicos). Ainda hoje, Lurdes cumpre a promessa, o que já lhe fez passar por algumas situações memoráveis. "Na festa de casamento de um conhecido, realizada no período da Quaresma, precisei levar pão com patê, pois não sabia o que seria servido no jantar", conta.

Quaresma - Quem também deixou de comer carne na Quaresma, ainda que apenas uma vez, é a cozinheira Maria Aparecida Murari, de 56 anos. Em 1977, ela precisou operar para retirar uma pedra da vesícula. Após a cirurgia, como forma de agradecimento por tudo ter dado certo, ela aproveitou que o período de Quaresma estava prestes a começar e prometeu que não comeria carne por 40 dias, embora o médico pedisse que ela não o fizesse, pois estava com anemia. "Mas eu comia beterraba e verdura, que têm bastante ferro", explica.

Não comer carne durante todo o período da Quaresma foi algo que Maria Aparecida fez somente em 1977, mas, até hoje, em todas as quartas e sextas-feiras do ano, ela também não come o alimento, em um gesto que remete à Quarta-Feira de Cinzas, quando se inicia a Quaresma, e à Sexta-Feira Santa, dia da morte de Jesus. O nome "Quaresma" se relaciona ao número 40, lembrado muitas vezes pela Bíblia, como, por exemplo, na caminhada do povo hebreu pelo deserto, que durou 40 anos, no dilúvio por 40 dias e na permanência de Jesus no deserto também por 40 dias. A Quaresma termina na Quinta-Feira Santa, que antecede o domingo de Páscoa - é por isso que ela ocorre em datas distintas a cada ano, já que a Páscoa é comemorada no primeiro domingo de lua cheia entre os dias 23 de março e 26 de abril.

Os dois dias mais simbólicos relacionados à Quaresma são justamente a Quarta-Feira de Cinzas e a Sexta-Feira Santa. Nesses dias, a Igreja Católica estimula o jejum (comer menos) e a abstinência (não comer carne), como explica o padre Sérgio Mazzoldi, da Congregação dos Oblatos de Maria Virgem. O Dia de Cinzas lembra o homem que ele veio do pó, que a vida não dura para sempre e que ele vai voltar ao pó, não devendo, portanto, se apegar às coisas materiais; representa o fim das coisas e simboliza a fragilidade humana. Já a Sexta-Feira Santa, diz o padre, "é o dia em que nos lembramos do sofrimento de Jesus e a ele nos unimos, fazendo um pouco de penitência".

Toda esta simbologia é velha conhecida de Maria Aparecida, que sempre estudou em colégio católico e já foi catequista. Desde sua pré-adolescência até hoje, ela faz uma penitência durante o período da Quaresma. Até os 12 ou 13 anos, Maria Aparecida teve problemas na vista, chegando ao ponto de quase ficar cega. Na escola, precisava sentar nas carteiras da frente para enxergar a lousa e, ainda assim, tinha fortes dores de cabeça. Somente depois dos 13 anos é que seus pais a levaram ao médico. Na mesma época, as freiras da escola disseram para os alunos fazerem alguma penitência. Apaixonada pelo cabelo, Maria Aparecida disse que não o cortaria durante os 40 dias da Quaresma. Aos 18 anos, quando o mesmo período estava próximo e ela trabalhava em um colégio católico, disseram-lhe que era preciso fazer penitência novamente. Mais uma vez, pensou nas coisas de que mais gostava e, por adorar esmaltes, decidiu não fazer as unhas durante os 40 dias, costume que mantém até hoje, assim como não cortar o cabelo.

Embora a Quaresma seja uma época forte de penitência, a Igreja Católica deixou de estimular a abstinência e o jejum durante todo o período, já que, como diz o padre Sérgio, "ficar sem comer carne ou comer menos era um sacrifício antigamente. Hoje, não é mais, e as pessoas estão acostumadas a diminuir a quantidade de comida". O padre diz, ainda, que fazer promessas para conseguir algo, tanto na Quaresma, quanto em qualquer outra época do ano, vai contra premissas básicas da Igreja Católica. A primeira premissa diz que ter fé cristã é caminhar com Jesus; a segunda diz que se deve aceitar a palavra de Cristo; a terceira, por fim, diz que Deus revelado por Jesus é infinitamente bom e quer o bem - é um Deus que não precisa ser convertido. Quando realiza uma promessa em troca de algo que o favoreça, "parece que o homem quer converter Deus. É quase como um comércio", diz o padre. "Subjetivamente, a pessoa pode ser bem intencionada, mas não objetivamente", completa.

Então, por que é tão comum ver as pessoas fazerem promessas do tipo "Se eu me curar desta doença, vou ficar seis meses sem tomar refrigerante"? "A idéia do sacrifício é arquetípica, está presente em todas as culturas, em todos os tempos. Implica que, para ganhar algo precioso, preciso perder ou renunciar a algo de menor valor. Na Quaresma, essa idéia fica muito presente por causa do tema da morte e da ressurreição", diz a psicóloga Maria Eugênia da Rocha Nogueira, que segue a linha de pensamento do psiquiatra e psicólogo suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Quanto ao "comércio" mencionado pelo padre, a psicóloga afirma que, segundo Jung, a relação do ser humano com Deus segue um padrão infantil. "A imagem interna de Deus é projetada para fora de nós e incorporada em alguém 'bonzinho' ou, ao contrário, em um ser terrível, que é preciso aplacar com nossas preces e sacrifícios", explica.

No entanto, há pessoas que deixam de comer carne ou cortar o cabelo - como é o caso de Lurdes e de Maria Aparecida - por costume, por considerar a Quaresma um período de penitência, como de fato é, e de solidariedade ao sofrimento de Jesus. Para o padre Sérgio, o fato de Lurdes manter até hoje a promessa de muitos anos, apesar de já ter conquistado o que queria, "mostra o sentido de gratidão para com Deus". "Não estou condenando, mas, para agradecer, há muitas outras maneiras", diz. Quais seriam essas formas de agradecer a Deus? Quais penitências são recomendadas pela Igreja? Para o padre, mais difícil do que deixar de tomar refrigerante ou evitar carne é saber atender melhor as pessoas, saber ouvir e perdoar, fazer o bem a quem precisa. Ao invés de não comer carne para atingir um objetivo, por que não oferecer carne a quem passa fome?

Mas o maior sacrifício que uma pessoa pode fazer é a confissão, chamada de "grande sacramento da penitência". A Quaresma, em especial, "é um tempo em que as pessoas devem se converter, tornar-se mais virtuosas e deixar os caminhos errados", diz o padre. Por meio da confissão, o ser humano estará olhando para dentro de si e vendo o que está errado - num mundo em que só se costuma ver os defeitos dos outros, reconhecer seus próprios erros e corrigi-los torna-se um grande sacrifício.

Confissão - Embora talvez não tenha consciência de que a promessa que realizou no passado (e que mantém até hoje) seja um exemplo do "grande sacramento da penitência", o torneiro mecânico de 53 anos Benedito Manoel Sávio, mais conhecido como Binho, não faz a barba no período da Quaresma, como um lembrete de que é preciso ser humilde e não desafiar os outros, ao invés de se achar melhor do que os demais seres vivos. A história de Binho começa em Araraquara, quando, aos 11 anos, trabalhava na lavoura da Fazenda Alabama. Assim que terminou de cursar o primário, passou a tomar conta de 1.200 cabeças de porco e, aos 17 anos, começou a trabalhar com gado, montado em cima de um cavalo durante o dia todo. Binho considerava-se um "moleque esperto", do tipo que não gostava de perder para ninguém, e estar em cima de um animal o fazia se sentir "o grandão".

Naquela fazenda, existia um burro que ninguém nunca havia conseguido domar. Tentavam arriá-lo, mas ele deitava e rolava; prendiam-no a uma carroça, mas ele não andava; colocavam uma sela em cima dele, mas não conseguiam montar; colocavam-no em outro lugar, mas ele não se mexia; tentavam fazê-lo arar a terra, e nada. Era famoso por dar coices violentos. Mas Binho achou que fosse superior ao burro, que conseguiria domar o animal, e, ao ouvir o pai dizer "Você se acha tão bom, só que você não é bom", sentiu-se desafiado.

Era uma Quinta-Feira Santa, último dia de Quaresma de 1969. Na época, era costume que as pessoas parassem de trabalhar ao meio-dia. Depois desse horário, não saiam de casa, não a varriam, não ouviam rádio, muito pouco se fazia. Na manhã daquele dia, Binho preparou-se para domar o burro, para mostrar-se superior diante de todos que se aglomeraram, esperando vê-lo cair. Binho se aproximou do animal, amarrou-o no toco e o montou, ainda que tivesse quase certeza de que o burro rolaria com ele em cima. Também receou que seria derrubado quando desamarrasse a corda e tentasse andar. Mas nada disso aconteceu, o burro "saiu quietinho e foi embora". Binho saiu montado no animal, em direção à casa de um garoto que trabalhava com ele - quando saiam do curral, costumavam tomar café na casa do rapaz ou, às vezes, na casa de Binho. Ao chegarem na casa do colega, a mãe deste avisou: "Hoje não é dia de você montar nesse burro", numa alusão à Quinta-Feira Santa. Binho simplesmente respondeu que, para ele, não havia dia certo, os dias eram todos iguais, "tudo uma coisa só".

Já era quase meio-dia quando o colega de Binho avisou que eles deveriam voltar para casa. Mas ainda havia algumas novilhas que precisavam ser tiradas de onde estavam, observou Binho, e os garotos se dirigiram, cada um para um lado, para realizar a última tarefa do dia. Nisso, o burro pisou em um buraco e afundou a pata, tropeçando e levando Binho ao chão. Erguendo-se logo em seguida, o animal começou a correr, sem perceber que arrastava o rapaz, preso a ele pelo sapato. "Quando me vi sendo arrastado, pensei 'ele não me viu, porque senão vai me detonar dando coices'", lembra Binho. O garoto com quem Binho trabalhava nada podia fazer, pois, se chegasse perto, o cavalo que montava se assustaria. Tentando de qualquer forma voltar para cima do animal, antes que este chegasse à estrada e o machucasse de vez, Binho só conseguiu se soltar quando agarrou um toco que passava a seu lado. O burro continuou a correr, mas o colega conseguiu pará-lo antes que se perdesse no meio da estrada.

Arrastado por cerca de dois ou três quilômetros, Binho sentia as costas arderem como se estivessem pegando fogo e tinha medo de passar a mão para senti-las - achava que estariam em carne viva. Os garotos retornaram ao estábulo, onde encontraram um rapaz chamado Aparecido e os pais de Binho, que haviam parado de trabalhar e aguardavam a volta do filho. Estes perceberam que havia algo de errado e Binho contou o que acontecera, perguntando desesperadamente como estavam suas costas. Diziam que não havia nada, que estavam apenas sujas do verde do pasto. Aparecido, que já havia quebrado três costelas por causa de um coice de burro, não conseguia imaginar como Binho também não havia levado coices. "Esse burro só pode estar doente!", disse. Pegou um balaio e o atirou atrás do animal, esperando que ele não reagisse. "Mas o burro tacou o balaio lá do outro lado", conta Binho.

Foi então que ele percebeu quanta sorte havia tido naquele dia. Lembrou-se da mãe de seu colega dizendo que ele não deveria estar trabalhando em uma Quinta-Feira Santa, e prometeu a si mesmo que, enquanto andasse em cima de outros seres vivos, pensaria duas vezes antes de fazer qualquer coisa, antes de aceitar desafios e de se sentir melhor que os outros. Já que, naquela época, os homens não faziam a barba durante a Quaresma, Binho decidiu aderir ao costume, como uma maneira de se lembrar de que era igual a qualquer outro ser - e não superior. Aos 24 anos, mudou-se para Jundiaí, trabalhou em fábricas (e não mais em sítios ou fazendas, montado em outros seres vivos), mas jamais deixou de cumprir a promessa, esta que foi uma forma de confissão, de olhar para dentro de si, reconhecer e mudar o que estava errado.

Em todos essas histórias de vida, parece ter sido necessário que uma força exterior às pessoas envolvidas as fizesse agir de outra maneira, seja evitando algo que gostassem, seja mudando um aspecto da personalidade, seja tomando qualquer outra atitude. Quando se fala em promessas, pedidos e devoções a santos, há uma crença enorme. Como explicar isso? De acordo com a psicóloga Maria Eugênia, os santos a quem uma pessoa faz promessa podem ser considerados como partes da psique (estrutura mental ou psíquica) desta própria pessoa. "Dependendo do nível de desenvolvimento psíquico do indivíduo, pode ser que a promessa esteja sendo feita a uma parte dele", diz. "Ao invocar esta parte, que está inconsciente, o indivíduo põe em ação a energia psíquica para realizar o que pediu. Como a promessa envolve, geralmente, um sacrifício, ele renuncia a algo menor para obter algo que lhe é mais valioso. Mesmo que essa parte do indivíduo esteja projetada na figura externa de um santo, o dinamismo psíquico é acionado e pode levar a pessoa a conseguir o que pediu", conclui a psicóloga. Portanto, como estamos acostumados a ouvir - mas não a aceitar e a levar tão a sério -, a capacidade de mudança e de conquista dos objetivos está, simplesmente, dentro de cada um de nós.