Veto do Palmeiras a programa da Band reacende discussão sobre imparcialidade
No programa esportivo “Donos da Bola”, da Band, do último dia 5 de fevereiro, o apresentador e ex-jogador de futebol José Ferreira Neto criticou no ar a postura do Palmeiras de impedir que seus atletas profissionais participassem do programa.
Atualizado em 19/02/2014 às 15:02, por
Lucas Carvalho*.
“Em respeito à enorme torcida palmeirense, nós continuaremos opinando e lutando contra a censura imposta por quem hoje governa a Sociedade Esportiva Palmeiras”, disse. Crédito:Divulgação Para clubes e jornalistas é preciso meio termo para evitar polêmicas como as de Neto No mesmo dia, o clube divulgou uma nota oficial confirmando o veto, alegando que a ação foi uma forma de proteger o clube e a torcida de "constrangimentos e informações inverídicas recorrentemente divulgadas pelo apresentador". O clube disse ser vítima de "ataques gratuitos, sensacionalistas, irresponsáveis e deselegantes" por parte do apresentador. O ex-craque jogou durante cinco anos com a camisa do maior rival palmeirense, o Corinthians, tendo conquistado, inclusive, um campeonato brasileiro em 1990. Ídolo da torcida alvinegra, o hoje comentarista nunca negou sua paixão pelo clube do Parque São Jorge, o que, frequentemente, gera críticas de torcedores rivais e, neste caso, causou um mau-entendimento entre o time alviverde e a Band. O caso levantou a questão da influência da paixão pessoal de jornalistas e apresentadores em seu discurso enquanto profissionais. IMPRENSA decidiu apurar com os principais clubes de São Paulo, e também com jornalistas que não escondem seu time do coração, para esclarecer a polêmica.
Posicionamento dos times
Fernando Mello, chefe do departamento de comunicação do Palmeiras, afirma que a decisão de vetar seus jogadores não significa que haja qualquer problema de relacionamento do clube com a Band ou com seus profissionais, e que apenas discorda da maneira como o “Donos da Bola” é conduzido. “Criam-se factoides sem sentido, buscando audiência a qualquer custo em detrimento do bom jornalismo. É um direito de quem o comanda utilizar esse expediente, mas também é do clube não liberar jogador para esse quem adota essa prática”, diz. “Queremos sempre o melhor relacionamento possível com a mídia. Os veículos de imprensa são a ponte entre a clube e o torcedor. Basta apenas que ambas as partes saibam que nem sempre os interesses serão comuns e, nesses casos, sempre priorizaremos os do clube”, completa Mello. Jorge Gutierrez é gerente de comunicação do Santos Futebol Clube. Segundo ele, a imprensa constantemente solicita atletas profissionais para a participação em algum programa de rádio ou TV. Mas os pedidos são sempre avaliados rigorosamente. Perguntado se o fato do apresentador ou responsável por uma entrevista falar abertamente sobre sua torcida por algum time, ele diz apenas que “sempre temos de avaliar quem vai fazer a entrevista e se essa entrevista será conduzida com seriedade e imparcialidade”. O Corinthians também tem suas normas e diretrizes em relação à imprensa. Guilherme Prado, assessor do clube paulista, diz que eles jamais proíbem um jogador de participar de algum programa ou de dar alguma entrevista particular e que essa é uma decisão exclusiva do atleta. “O que o Corinthians faz é aconselhar o jogador, mas a decisão democrática é dele. Aí vai depender de cada caso, se o momento é apropriado, da temática do programa, se casa com o jogador. Mas nós nunca proibimos”. Prado, porém, informa que a opinião ou a torcida particular do profissional que comanda o programa ou entrevista não interfere nessas orientações. “Isso é pensar muito pequeno. O Corinthians não tem essa identificação”, afirma. São Paulo Futebol Clube adota postura semelhante. Felipe Espíndola, assessor do tricolor, diz que os critérios para a liberação de um atleta, além de seu desejo pessoal, passam pela credibilidade da emissora e do apresentador, a seriedade e a linha editorial do programa e as vantagens da exposição. Segundo ele, o lado torcedor fica totalmente de fora dessa avaliação. “O fato de torcer para um clube A ou um clube B não interfere no relacionamento do São Paulo ou dos nossos jogadores com um apresentador e seu programa de televisão. Todos os jornalistas têm, assumidamente ou não, um clube de coração e isso não pode permear essa relação, tampouco pautar o profissional da imprensa”, conta.
Relacionamento imprensa e torcedor
André Plihal, repórter da ESPN e assumidamente são-paulino, confessa que jamais viu qualquer tipo de perseguição ou tratamento diferenciado por parte de clubes com jornalistas que não escondem seus times. Ele acredita que o caso do Neto com o Palmeiras foi uma situação pontual. De acordo com ele, a postura do jornalista ou apresentador com relação ao time pelo qual torce é o ponto a ser questionado. “Depende muito também de como o cara se coloca. Se é uma coisa mais ‘fanfarrona’, de tirar sarro de outros times, se é o estilo dele, tem que saber que vai ter que sofrer com as consequências”, pondera. O palmeirense Erich Beting, comentarista na Rádio Bandeirantes e administrador do site , que trata sobre negócios e marketing no mundo do futebol, nunca teve problemas por expor seu time do coração.
Segundo ele, porém, sua paixão pessoal pelo clube alviverde é muitas vezes distorcida por torcedores do mesmo time ou de times rivais, que não conseguem desassociá-lo de seu lado profissional. “O palmeirense reclama comigo porque eu não sou parcial. O não-palmeirense reclama comigo pelo simples fato de eu torcer pelo Palmeiras. Na verdade, o cara simplesmente discorda da minha opinião e acha que ela está sendo motivada pelo clube que eu torço”, diz. Por outro lado, Plihal acredita que esse tipo de torcedor corresponde a uma minoria. “O torcedor, por mais apaixonado que ele seja, consegue detectar se o jornalista, apesar de não torcer para o time dele, trabalha direito”.
Imprensa versus clubes
A influência que os clubes de futebol podem exercer nesta relação, que envolve a paixão de milhões de pessoas, é algo que preocupa Beting. “Uma coisa que tenho visto acontecer um pouco é o clube usar a força dele para denegrir veículo ou jornalista, e querer rotular a partir disso. Isso é um desserviço que o clube presta nessa relação”. “O clube tem que levar em consideração o time que o cara torce? Não. Tem que levar em consideração é o público que assiste aquele programa, a relevância da participação do atleta ou dirigente e a importância para a marca dele. A questão clubística é a de menos”, afirma Beting. Para ele, o envolvimento da paixão pessoal dos torcedores nessa relação com a mídia “cria uma histeria que é péssima para a imagem do time e do atleta”. O jornalista conclui dizendo que a relação entre a imprensa e os times deve ser resolvida por ambas as partes. “Quando o clube começa a criar briga, a tendência é a imprensa nunca falar bem dele. Em compensação, se você contribui para o relacionamento e faz o negócio andar, aí fica muito melhor. Essa questão é o que eu acho que deve ser resolvido na relação entre clube e imprensa”. Fernando Mello, do Palmeiras, concorda, dizendo que a postura do jornalista enquanto profissional deve se manter isenta de qualquer clubismo. E conclui: “repórter esportivo pode torcer para quem quiser. Aliás, esse é o motivo, na maioria das vezes, da paixão por essa profissão. O que jamais deve ser deixado de lado é o bom jornalismo. Independentemente de qual seja o clube ou quem faça a cobertura, regras essenciais como imparcialidade e ética devem estar acima de qualquer clubismo ou linha editorial”. * Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Assista ao vídeo:
Posicionamento dos times
Fernando Mello, chefe do departamento de comunicação do Palmeiras, afirma que a decisão de vetar seus jogadores não significa que haja qualquer problema de relacionamento do clube com a Band ou com seus profissionais, e que apenas discorda da maneira como o “Donos da Bola” é conduzido. “Criam-se factoides sem sentido, buscando audiência a qualquer custo em detrimento do bom jornalismo. É um direito de quem o comanda utilizar esse expediente, mas também é do clube não liberar jogador para esse quem adota essa prática”, diz. “Queremos sempre o melhor relacionamento possível com a mídia. Os veículos de imprensa são a ponte entre a clube e o torcedor. Basta apenas que ambas as partes saibam que nem sempre os interesses serão comuns e, nesses casos, sempre priorizaremos os do clube”, completa Mello. Jorge Gutierrez é gerente de comunicação do Santos Futebol Clube. Segundo ele, a imprensa constantemente solicita atletas profissionais para a participação em algum programa de rádio ou TV. Mas os pedidos são sempre avaliados rigorosamente. Perguntado se o fato do apresentador ou responsável por uma entrevista falar abertamente sobre sua torcida por algum time, ele diz apenas que “sempre temos de avaliar quem vai fazer a entrevista e se essa entrevista será conduzida com seriedade e imparcialidade”. O Corinthians também tem suas normas e diretrizes em relação à imprensa. Guilherme Prado, assessor do clube paulista, diz que eles jamais proíbem um jogador de participar de algum programa ou de dar alguma entrevista particular e que essa é uma decisão exclusiva do atleta. “O que o Corinthians faz é aconselhar o jogador, mas a decisão democrática é dele. Aí vai depender de cada caso, se o momento é apropriado, da temática do programa, se casa com o jogador. Mas nós nunca proibimos”. Prado, porém, informa que a opinião ou a torcida particular do profissional que comanda o programa ou entrevista não interfere nessas orientações. “Isso é pensar muito pequeno. O Corinthians não tem essa identificação”, afirma. São Paulo Futebol Clube adota postura semelhante. Felipe Espíndola, assessor do tricolor, diz que os critérios para a liberação de um atleta, além de seu desejo pessoal, passam pela credibilidade da emissora e do apresentador, a seriedade e a linha editorial do programa e as vantagens da exposição. Segundo ele, o lado torcedor fica totalmente de fora dessa avaliação. “O fato de torcer para um clube A ou um clube B não interfere no relacionamento do São Paulo ou dos nossos jogadores com um apresentador e seu programa de televisão. Todos os jornalistas têm, assumidamente ou não, um clube de coração e isso não pode permear essa relação, tampouco pautar o profissional da imprensa”, conta.
Relacionamento imprensa e torcedor
André Plihal, repórter da ESPN e assumidamente são-paulino, confessa que jamais viu qualquer tipo de perseguição ou tratamento diferenciado por parte de clubes com jornalistas que não escondem seus times. Ele acredita que o caso do Neto com o Palmeiras foi uma situação pontual. De acordo com ele, a postura do jornalista ou apresentador com relação ao time pelo qual torce é o ponto a ser questionado. “Depende muito também de como o cara se coloca. Se é uma coisa mais ‘fanfarrona’, de tirar sarro de outros times, se é o estilo dele, tem que saber que vai ter que sofrer com as consequências”, pondera. O palmeirense Erich Beting, comentarista na Rádio Bandeirantes e administrador do site , que trata sobre negócios e marketing no mundo do futebol, nunca teve problemas por expor seu time do coração.
Segundo ele, porém, sua paixão pessoal pelo clube alviverde é muitas vezes distorcida por torcedores do mesmo time ou de times rivais, que não conseguem desassociá-lo de seu lado profissional. “O palmeirense reclama comigo porque eu não sou parcial. O não-palmeirense reclama comigo pelo simples fato de eu torcer pelo Palmeiras. Na verdade, o cara simplesmente discorda da minha opinião e acha que ela está sendo motivada pelo clube que eu torço”, diz. Por outro lado, Plihal acredita que esse tipo de torcedor corresponde a uma minoria. “O torcedor, por mais apaixonado que ele seja, consegue detectar se o jornalista, apesar de não torcer para o time dele, trabalha direito”.
Imprensa versus clubes
A influência que os clubes de futebol podem exercer nesta relação, que envolve a paixão de milhões de pessoas, é algo que preocupa Beting. “Uma coisa que tenho visto acontecer um pouco é o clube usar a força dele para denegrir veículo ou jornalista, e querer rotular a partir disso. Isso é um desserviço que o clube presta nessa relação”. “O clube tem que levar em consideração o time que o cara torce? Não. Tem que levar em consideração é o público que assiste aquele programa, a relevância da participação do atleta ou dirigente e a importância para a marca dele. A questão clubística é a de menos”, afirma Beting. Para ele, o envolvimento da paixão pessoal dos torcedores nessa relação com a mídia “cria uma histeria que é péssima para a imagem do time e do atleta”. O jornalista conclui dizendo que a relação entre a imprensa e os times deve ser resolvida por ambas as partes. “Quando o clube começa a criar briga, a tendência é a imprensa nunca falar bem dele. Em compensação, se você contribui para o relacionamento e faz o negócio andar, aí fica muito melhor. Essa questão é o que eu acho que deve ser resolvido na relação entre clube e imprensa”. Fernando Mello, do Palmeiras, concorda, dizendo que a postura do jornalista enquanto profissional deve se manter isenta de qualquer clubismo. E conclui: “repórter esportivo pode torcer para quem quiser. Aliás, esse é o motivo, na maioria das vezes, da paixão por essa profissão. O que jamais deve ser deixado de lado é o bom jornalismo. Independentemente de qual seja o clube ou quem faça a cobertura, regras essenciais como imparcialidade e ética devem estar acima de qualquer clubismo ou linha editorial”. * Com supervisão de Vanessa Gonçalves
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