Veja homenagens a Nirlando Beirão e seu último texto para a Carta Capital

Por ocasião da morte de Nirlando Beirão, ocorrida na quinta (30), aos 71 anos, por complicações causadas por esclerose lateral amiotrófica (doença diagnosticada em 2016), o Portal IMPRENSA publica a seguir algumas homenagens de colegas de profissão e políticos feitas ao jornalista, que trabalhou em alguns dos principais veículos de imprensa do país, como as revistas Veja, IstoÉ e Carta Capital (na qual foi redator-chefe), além dos jornais O Tempo e O Estado de S.

Atualizado em 04/05/2020 às 12:05, por Redação Portal IMPRENSA.

Paulo.
Como escritor, Beirão publicou livros como "Corinthians: É Preto no Branco", com Washington Olivetto, e "Meus Começos e Meu Fim". Lançada em 2019, a obra descreve os impactos da doença degenerativa que o acometeu, além da emocionante história de amor secreta entre seus avós paternos. Beirão deixou a filha Júlia Beirão, os enteados Maria Prata e Antônio Prata e a viúva, Marta Góes.
Após as homenagens é possível ler o último texto do jornalista para a revista Carta Capital, além da nota de pesar publicada pelo Corinthians, seu clube de coração.
Veja a seguir algumas homenagens a Beirão:

Mino Carta Nirlando era um sujeito extraordinário e um texto impecável
Fernando Mitre O Brasil acaba de perder um brilhante jornalista: Nirlando Beirão, texto excepcional, profissional completo, referência para os colegas. Morreu aos 71 anos. Sofria (e como deve ter sofrido ) daquela doença degenerativa, ELA. (Se não leu, leia seu livro “Meus começos e meu fim”).
Sergio Augusto Luto fechado aqui em casa. Morreu Nirlando Beirão, 71, um dos melhores textos da imprensa brasileira. Fomos parceiros na Abril, saímos juntos da Veja pra fazer com Mino Carta a Isto É, cuja editoria de cultura tocamos juntos em clima de permanente vibração e harmonia. R.I.P.
Barbara Gancia O talento, a fidalguia, o humor e a imensa generosidade do adorado Nirlando Beirão ficarão p sempre gravados. Vai c Deus, meu amigo. Este mundo q você acaba de deixar não está mesmo em condições de ser habitado p/ gente do seu calibre. À Marta, Maria e Antonio, meus sentimentos
Chico Pinheiro Perdas imensas no jornalismo. Nirlando Beirão partiu. Um dos melhores que conheci. Mais cedo, Ronan Soares, com quem trabalhei na Globo, mineiro admirável de Araxá. Ontem foi Luís Edgar de Andrade, que também conheci na Globo e que cobriu a Guerra do Vietnã. Aos três, obrigado !
Luis Nassif Grande Nirlando Beirão, que hoje desaparece. Um modelo de inteligência, gentileza, texto. E um final glorioso. Sem conseguir se mover mais, falar, se comunicar, por conta de uma doença, escreveu um livro de despedida emocionante valendo-se dos últimos movimentos nas mãos.
Hildegard Angel R.I.P. Nirlando Beirão. Grande jornalista, ótimo texto. Ficamos amigos à primeira vista, quando foi me entrevistar, e ao ser publicada a revista, foi dos mais generosos textos a meu respeito. Vai em glória, deixa como legado um elogiado livro biográfico, Meus Começos e Meu Fim.
João Doria Nirlando Beirão engrandeceu os muitos veículos de comunicação nos quais trabalhou com seu texto e sua personalidade elegantes. O jornalismo de São Paulo, e do Brasil, perdeu uma referência. Meus sentimentos à família.
Ciro Gomes O Brasil perdeu de ontem para hoje um grande filho seu e eu um amigo muito querido: NIRLANDO BEIRÃO. Jornalista, escritor, patriota fará muita falta neste ambiente de indigência intelectual que sofremos. Meus sentimentos à familia, colegas e amigos.
Luiz Megale Que linda a nota de pesar do Corinthians pelo falecimento de Nirlando Beirão. Como sãopaulino, aplaudo em pé
Veja a seguir a nota de pesar publicada pelo Corinthians, seu time de coração:
“Morrer serenamente, assistindo a um jogo do Corinthians”
Essas foram as palavras do grande jornalista Nirlando Beirão, que morreu ontem (30), aos 71 anos devido complicações advindas da ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), a Antônio Abujamra durante sua participação no programa Provocações, da TV Cultura, em 2011.
Com um texto primoroso, um jeito mineiro que nunca o abandonou no trato com as pessoas, escreveu com o publicitário Washington Olivetto o livro “Corinthians- Preto no Branco”, no qual sua caneta hábil discorre sobre a paixão de mais de 33 milhões de brasileiros de todas as classes sociais, credos e correntes políticas.
Autor de inúmeros livros, admirador da revista The New Yorker, editou, dirigiu e/ou fundou inúmeras publicações como Veja, Isto É, Senhor, Brasileiros, Carta Capital, Caras, Status e Wish Report. Foi colunista social do jornal “O Estado de S. Paulo”, tendo iniciado sua carreira como jornalista em 1967 no jornal Última Hora.
Infelizmente devido à pandemia não pode partir como gostaria: “serenamente, assistindo a um jogo do Corinthians”. Não há jogos há mais de um mês. Certamente essa pode ter sido uma brincadeira do Criador que o carregou com doses elevadas de ironia que transpareciam no seu texto, quem sabe Ele não queria companhia para a retomada das partidas quando tudo serenar e o Timão voltar aos gramados.
O Corinthians deseja a sua família e a todos os seus amigos força e paz. Mais um louco do bando que se vai... Vai Corinthians!
Veja a seguir o último texto de Nirlando Beirão:

O Almanaque do Exército pode decifrar o que pensam os generais que acobertam Bolsonaro? Livro é uma bênção e um perigo. Cada religião tem o livro que se diz sagrado, em torno do qual agrega seus fieis. Países, os democráticos, bem entendido, buscam num livrinho chamado Constituição um código básico para pautar a vida em sociedade e conferir uma identidade coerente à cidadania. É tradição que vem de longe. Em 1215, a Carta Magna impôs uma série de limitações ao poder até então absoluto do rei João, na Inglaterra – o qual se resignou a assinar o documento imposto pela baixa nobreza e negociado pelo papa em pessoa.
Situação nefanda acontece quando uma nação troca seu livrinho maior, a Constituição, por um manual de fé como guia da vida civil, pois, seja a Bíblia, a Tora ou o Corão, cada um traz em si a autocrática pretensão de ser o dono da verdade, a única e aceitável verdade. Outra circunstancia em que os regulamentos democráticos são instantaneamente escanteados é quando um país sofre uma recaída autoritária. A Constituição é de imediato jogada na lixeira.
Foi o que sucedeu no Brasil em 1964. A ditadura militar, implantada com o suporte do empresariado, os jornalões e o governo dos Estados Unidos, rasgou o livrinho de 1947 e passou a gerir um país sem lei. A informação era escassa. De repente, outro livrinho bem mais insosso, bem mais reservado, começou a passar de mão em mão entre editores e repórteres de política e, logo, entre os sofridos exegetas da conjuntura, ávidos por adivinhar o rumo que o regime tomaria.
O oráculo era o Almanaque do Exercito, publicacão que o Departamento Geral do Pessoal do Ministério atualizava todo ano. Consistia nas biografias de todo o oficialato da ativa, de capitão a general, registro tanto mais minucioso quanto mais alto estivesse o biografado na hierarquia. Algumas edições mais robustas chegaram a ultrapassar 700 paginas. Assim, é certo que tenha sido mencionado em algum momento um capitão formado nas Agulhas Negras, Jair Messias Bolsonaro, vulgo Cavalão, que viria a ser expulso da corporação, em 1988, por insubordinação e terrorismo.
O eleitorado iria, décadas depois, encantar-se com tais atributos do renegado do quartel, além de outros, posteriormente exibidos, a estupidez, a covardia, o preconceito, e viu nele o perfil ideal de um presidente da Republica.
Desde a antiguidade greco-romana oráculos apresentam seus vaticínios de forma alegórica e cabe ao consulente a decifração. As chaves do Almanaque eram ainda menos autoexplicativas, embora as angustias do esclarecimento fossem ainda mais urgentes naqueles nebulosos anos 1970. Requeriam-se artimanhas mentais para profetizar o Brasil que iria emergir da balburdia em que a ditadura estava metida. Militares tomam o poder sob o pretexto de impor a lei e a ordem. Pisoteiam a lei e promovem a desordem. Mal-estar pretoriano, ambições pessoais, facções ideológicas azedaram os bastidores dos governos Médici e Geisel, assim como seria sob Figueiredo.
Quem seria aquele general Albuquerque Lima, de tanto prestigio na tropa, líder da ala nacionalista, defensor de um regime severo, que esteve tantas vezes próximo do poder e nunca chegou lá? Por que foi o general Euler Bentes o militar escolhido pelo MDB para disputar a Presidência no Colégio Eleitoral, em 1978? Corram para o Almanaque e consultem o currículo do dissidente. Quais eram os oficiais da ativa, listados no vade-mecum da corporação, que apoiavam o então ministro do Exercito, Sylvio Frota, contra a abertura “lenta, gradual e segura” proposta por Geisel, que acabaria por demitir Frota e dispersar seu batalhão?
Naturalmente, os intrincados enigmas segredados no interior da caserna podiam suscitar conjecturas delirantes por parte de quem estava do lado de fora. Delírio era especialidade de Glauber Rocha, então não chega a ser surpreendente que o cineasta fosse habitué na consulta ao Almanaque do Exercito. Glauber era dono de uma personalidade messiânica que via sentido em descobrir, na impessoalidade daquelas biografias burocráticas, a chama de um salvador da pátria.
O diretor de Terra em Transe voltara em 1977 do exílio – quando dirigiu o alternativo Der Leone Have Sete Cabeças – e logo, com uma declaração explosiva, expôs sua convicção de que a transição de volta à democracia dependeria de mentalidades arejadas do estamento fardado. A frase “Golbery é o gênio da raça” apunhalou a oposição, certa de que o regime de exceção viria abaixo graças à ação da sociedade civil organizada.
O Almanaque do Exercito, na ditadura, podia ser manuseado e citado, como fazia Glauber, sem que o cidadão fosse torturado no DOI-Codi. Na atual democracia entre aspas, o documento esconde-se em versão digital e exige licença especial, login e senha para ser acessado. Se o Exercito é menos transparente, o consolo é que os generais se expõem mais sob as luzes da ribalta.
O general Braga Netto, chefe do Gabinete e presidente em exercício, continua sendo, ele sim, um mistério. Ele é um mineirinho quietinho. Já o vice, Hamilton Mourão, fã de uma quartelada, e o general Heleno, ex-ajudante de ordens do brucutu Sylvio Frota, dispensam prontuários. Os dois têm horror à democracia