Ubiratan Araújo, o Bira, acha que mercado não está preparado para absorver novos talentos
Ubiratan Araújo, o Bira, acha que mercado não está preparado para absorver novos talentos
Desde a infância, aquela velha história: Ubiratan Araújo, o Bira, era aficcionado por gibis e suplementos em quadrinhos dos jornais. No final dos anos 60 - com personagens como Capitão América, Homem de Ferro, Huck e Tarzan em voga - ele treinava copiando seus desenhos preferidos. "Tudo que se relacionava a aventura me chamava a atenção. Com 10, 11 anos, cheguei a ficar sem comprar lanche na escola para guardar dinheiro e comprar gibis", conta.
| Bira |
| Corinthians tetra |
Aos 15 anos, ainda que numa situação de brincadeira, começou a sua trajetória profissional. Sua prima pediu que ele fizesse a ilustração de um livro de contos em inglês para um trabalho de escola. "Quando ela chegou com o trabalho na aula, ninguém acreditou que era dela, e todo mundo quis o desenho. E ela falou para os amiguinhos: 'eu posso pedir para o meu primo, mas ele cobra'", lembra Bira.
| Bira |
| Furacão Flórida |
O artista se considera um "apaixonado pelo traço". Sua arte, segundo ele, pode ser definida como uma miscelânea, já que faz caricaturas, cartuns, charges, ilustrações, desenhos sérios, esboços. "Às vezes falam que eu sou caricaturista, mas não sou só isso. Gosto de tocar gaita, blues, dançar, gosto de fazer ilustrações sérias, aquelas de manual de celular, tipo 'encaixe seu cabo aqui'. É um desenho considerado 'brega', mas isso para mim tem importância. Claro que fazer um desenho humorístico é mais agradável, mas eu não me nego a nada. O que está dentro da minha capacidade eu faço", afirma.
| Bira |
| Sindical |
Uma de suas inspirações foi o ilustrador Jaime Cortez, que conheceu ao procurar um estágio na empresa de Mauricio de Souza, em 1977. Ele conta que adorou o trabalho do diretor de arte porque "ele tinha um traço voltado para o herói, terror, suspense, era um quadrinho mais clássico". Nessa visita, ganhou o livro "A técnica do desenho", coletânea que discutia a técnica de quadrinhos. Para ele, o livro "mostrou que a gente tem que conhecer o trabalho de muita gente para poder melhorar o nosso".
| Bira |
| Tarcísio Meira |
Em relação ao mercado brasileiro, apesar das facilidades da internet Bira acha que os talentos não são bem aproveitados. "O mercado não está preparado. Quem contrata é pouco ousado, quer o trabalho tradicional. Por exemplo, se um jornal quiser a caricatura de alguém consagrado, na hora vai pensar no Chico Caruso, internacionalmente reconhecido. Mas são caricaturistas que têm 60 anos, mas e os de vinte? Essa nova geração, esse novo traço, o mercado não absorve, e acaba ficando nos salões de humor, que são um ponto de encontro para ver o novo e o moderno".
| Bira |
| Woody Allen |
De acordo com Bira, as ilustrações deveriam ocupar um lugar mais privilegiado no jornalismo. "O que eu tenho visto no Brasil é um declínio do uso do cartum e da charge, isso foi se perdendo na imprensa brasileira", comenta. Para ele, isso é decepcionante, principalmente no caso do cartum, que é uma crítica de costumes. "A charge ainda está um pouco preservada, porque comenta fatos do dia-a-dia. Já cartum retrata o mundo, e ele não ter muito espaço é uma pena, porque suaa linguagem fala dos modos do povo".






