"Tenho o emprego dos sonhos", diz correspondente do maior guia de turismo
Seu primeiro emprego foi como repórter da revista americana Rolling Stone, onde trabalhou por três anos como um dos primeiros repórtere
Há seis anos morando em São Paulo, Kevin Raub, americano da Califórnia, já conheceu 20 dos 26 estados brasileiros, cansou de Fernando de Noronha — “é um lugar paradisíaco se você não tem que pensar na vida real; para quem depende de telefone e internet para trabalhar, é um saco” — e confessa que um dos seus lugares favoritos do país é a capital nacional. “As pessoas aqui pensam em Brasília como o centro dos problemas do Brasil, mas é uma cidade linda”, diz.
Correspondente do Lonely Planet, maior editora de guias de turismo do mundo, Kevin é um dos sete jornalistas que cobre o Brasil (único que mora no país), além de escrever também sobre Chile, Colômbia, Peru, República Dominicana e Índia. Quando não está viajando a trabalho, passeia por São Paulo em busca de cervejas artesanais e escreve ainda para a LATAM, empresa de linhas aéres, no blog .
IMPRENSA - Larry Rohter, que foi correspondente do New York Times no Brasil por oito anos, diz em seu livro (“Deu no New York Times”) que ser um gringo no Brasil é como andar com um cartaz escrito “idiota” na testa. Você se sente assim? Kevin Raub - Eu sinto o contrário. Eu sinto que eu sou mais esperto que 90% das pessoas aqui. Brasil não é tão ruim no sentido de tentarem tirar vantagem de você. Acho que países latinos da América Central e a Espanha são muito piores. E Índia também. Fico lá por três meses a cada dois anos e todo mundo tenta te trapacear, até em lugares normais, como hotel. O que eu sinto é que no Brasil as pessoas boas são realmente boas, as ruins são muito ruins, não tem muito o meio termo. Nos Estados Unidos tem muita gente boa e ruim, mas também tem muita gente que um dia é boa, em outro ruim. Aqui é sempre um extremo: as que são boas eu simplesmente amo e as que são ruins eu quero matar.
Como você se tornou correspondente no Brasil? Eu sabia que tinha que encontrar um jeito de mudar para o Brasil, então quando decidi que queria morar aqui, comecei a procurar brasileiras para namorar (risos). Conheci minha esposa quando fui escrever sobre praias pouco conhecidas no Brasil para uma revista de turismo dos Estados Unidos. Foi uma viagem de 12 dias para conhecer cinco lugares, e ela foi minha guia em Fernando de Noronha. Já estive lá mais vinte vezes e vejo o lado ruim da ilha. É maravilhoso, mas quando eu vou para “viver” lá é terrível, porque o telefone não funciona, internet não funciona, se você tem um deadline e precisa falar com alguém, é bem complicado. Mas já estive em 80 países e Noronha é uma das três praias mais bonitas que eu já vi. ´
Quando você começou a escrever para o Lonely Planet? Meu primeiro trabalho para eles foi sobre o Brasil e foi publicado em 2008, mas a pesquisa foi feita em 2007. E Brasília foi o primeiro lugar que eu cobri, o que é inacreditável, porque escrever para o Lonely Planet é bem complicado, você tem que fazer o mapa, acordar cedo e conhecer tudo, e hoje, olhando para trás, eu não sei como eu fiz. Eu tinha uma semana para cobrir tudo.
Crédito:Arquivo Pessoal Em viagem à Índia, onde viaja por três meses a cada dois anos para o guia
E como você entrou para o time? Minha esposa conhecia um dos autores da edição anterior e me colocou em contato com eles. Eu tive muita sorte. Eles mandam fazer um teste, que é de duas mil palavras, de graça, o que para um escritor é pedir muito, e lembro de ter pensado: “poxa, eu tenho tantos artigos escritos, vocês sabem que eu sou capaz”, mas tem que fazer o teste - basicamente fazer uma cidade, como se fosse para o guia. Então escrevi sobre a minha cidade, Los Angeles, porque seria mais fácil. Desde então foram 30 trabalhos para eles. Chile, Peru, Brasil, Colômbia, República Dominicana e Índia. No Brasil somos em sete autores, mas eu sou o único que mora aqui. Antigamente, éramos 500, hoje são cerca de 220 autores em todo mundo. É muito pouco, por isso eu sinto que é emprego dos sonhos – não o trabalho em si, que é cansativo, mas a oportunidade de conhecer tantos lugares.
E quais as desvantagens do trabalho? É muito trabalho. As pessoas acham que é só passear de barco no Caribe, o que acontece, mas você dorme cinco horas por noite durante oito semanas seguidas. A pior parte são as rodoviárias. No Brasil é melhor porque grande parte das empresas tem site, Chile também. E o problema de não ter isso tudo na internet é que você tem que ir até o guichê perguntar, e chegando lá eles não querem te atender porque você vai tirar uma dúvida, não comprar. Índia é pior. Lá ninguém fala inglês, então você tem que contratar um tradutor para ir com você até a rodoviária. No México, cada empresa tem a sua própria rodoviária, então para fazer uma pesquisa, você tem que rodar a cidade.
Entre todas as viagens que já fez no Brasil, qual seu lugar favorito? Ah, Noronha, sem dúvida. Já estive em 20 estados do Brasil, então tem muitos lugares que eu amo. Adoro Bonito, Pantanal, mas eu realmente gosto de Brasília. Acho que para os brasileiros é a cidade que representa todos os problemas do Brasil, então as pessoas não gostam, mas é uma cidade linda, muito interessante. Gosto de Gramado, não só porque é incrível em relação à cultura, mas porque é muito civilizado. O carro para se você estiver na faixa de pedestre. Tudo é muito organizado, é uma cidade com qualidade de vida muito alta em comparação com o Brasil.
Crédito:Arquivo Pessoal Na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso
Depois de seis anos morando em São Paulo, o que a cidade representa para você? Se você for morar em algum lugar no Brasil, São Paulo é o melhor. Mas existem duas São Paulo: uma da classe média, das pessoas que são educadas, e existe a das pessoas com quem você tem que lidar todos os dias, na padaria, nas esquinas, e para mim essas pessoas simplesmente estão no meio do meu caminho, são difíceis de lidar. Eu tenho um amigo inglês aqui e que diz “você sai de casa, a batalha começa”. E isso é uma coisa do Brasil, não só de São Paulo, mas aqui é o melhor lugar.
Como é o seu processo de escrita?
Quando estou viajando, escrevo todos os dias. Saio para fazer as pesquisas e conhecer os lugares das 8h às 16h, volto ao hotel, escrevo até às 18h – como a base da sua escrita é a edição anterior do guia, então muitas vezes você só muda preços das coisas - tomo banho, saio para jantar e para vida noturna. No dia seguinte, acordo às 7h, escrevo sobre a noite anterior. Mas eu sou o “estranho” da turma, porque a maioria dos autores fazem só anotações e quando chegam em casa é que vão escrever. Para mim isso é impossível, porque como você vai lembrar de uma refeição que você fez no segundo dia quando você teve 120 refeições?
Que dicas que você dá para quem quer escrever sobre turismo? Não faça isso (risos). A carreira está mudando, guias de turismo estão morrendo, porque as editoras não pagam mais jornalistas para isso quando você tem milhares de pessoas escrevendo resenhas de graça em blogs e sites. As pessoas estão gerando conteúdo de graça. Acho que não é a melhor carreira para começar agora. A não ser que... é, não, não é (risos). Se eu estivesse saindo da escola agora, ainda seria um veterinário. Mas se fosse para escrever, eu estaria implorando um estágio na revista Viagem & Turismo.





