TCC de Marcelo Soares foi pioneiro no Brasil para o Jornalismo de Dados
A monografia de Marcelo Soares foi iniciada em 1998 e finalizada só em 2004, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A saga do Trabalho de Conclusão de Curso do jornalista foi longa, mas terminou em final fez e pavimentou a trajetória profissional dele.
Membro do ICIJ, ex-editor de Audiência e Dados da Folha , o jornalista explicou o porquê de ter escolhido esse tema. "Li duas vezes o livro "The New Precision Journalism", do Philip Meyer, e fiquei fascinado. Mas estávamos no Brasil, internet ainda estava no início. Ainda assim, eu acompanhava o debate fora do país entre jornalistas do National Institute for Computer-Assisted Reporting. Eles contavam como os jornalistas dos EUA usavam uma lei chamada "freedom of information act" para pedir dados públicos ao governo. E o governo era obrigado a fornecer. Contavam como cruzavam bancos de dados e descobriam pautas inéditas, fascinantes. Minha ideia original era avaliar como poderíamos ter algo assim no Brasil. Fiz contato com o Philip Meyer na época, e mantemos alguma conversa até hoje - recentemente, quando ele publicou sua autobiografia, escrevi um texto para a contracapa", afirmou Soares.
Quanto aos desafios, o jornalista listou os três principais: "O primeiro foi que o tema era radicalmente novo no Brasil. Não havia bibliografia nacional. Não havia sequer referência. Minha orientadora, a Rosa Nívea Pedroso, teve não apenas a coragem de aceitar um tema assim desconhecido, sem bibliografia em português, numa época em que ainda usávamos Olivettis no laboratório de redação da faculdade (!) como também teve a ideia de me apontar questões fundamentais do jornalismo em que esse tema tocava. O segundo desafio foi que a vida era atribulada e ficou ainda mais. Eu trabalhava à noite num jornal de Porto Alegre, os horários da faculdade não eram muito propícios, então foi uma época bem complicada. Logo em seguida passei no programa de treinamento da Folha , na única turma de jornalismo econômico, e tranquei a faculdade para vir morar em São Paulo. Em 2001, saí do jornal e voltei a Porto Alegre para terminar a faculdade e retomar a monografia enquanto fazia outras coisas também. O terceiro desafio foi o do tempo. Defendi em 2004. Levei tempo demais, por causa do ritmo da vida, mas em parte por isso o trabalho ficou mais maduro do que seria se fosse feito no tempo normal de uma monografia. Comecei a fazer aos 21, entreguei aos 27".
Soares entende que o TCC foi fundamental na vida dele, profissional e acadêmica. "Parece tautológico dizer isso, mas só me formei por causa do TCC. Não pelo motivo de que ele é um requerimento para a conclusão do curso, e sim porque foi o TCC que me motivou a voltar a frequentar a faculdade, depois que eu havia trancado", disse.
O jornalista aconselha os estudantes que estão passando por essa fase: "Encare esse trabalho como uma obra, não como uma tarefa. Escolha o tema pensando num assunto que fascine você. Toda a minha carreira nos últimos quase 20 anos é focada no uso de dados. Toda. Fazia experiências com dados em jornais de bairro de Porto Alegre. Entrei no trainee da Folha por minha afinidade com dados. Fui convidado para ser membro fundador (e depois primeiro gerente) da Abraji por causa disso".
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