Tão longe, tão perto - diferenças e semelhanças entre o jornalismo argentino e brasileiro

Tão longe, tão perto - diferenças e semelhanças entre o jornalismo argentino e brasileiro

Atualizado em 22/10/2004 às 13:10, por Pedro Venceslau e Renato Barreiros de Buenos Aires.

Salários baixos, demissões em massa, situação trabalhista precária, estagiários ocupando o lugar de profissionais. Na Argentina de hoje a realidade das redações consegue ser ainda pior que a brasileira. Já o sindicalismo bate no governo, fala grosso e tem forte oratória esquerdista

Existe muito mais coisa em comum entre o jornalismo brasileiro e o argentino do que supõe nossa vã filosofia. Em ambos os lados do muro, a categoria assiste, passiva, a tomada das redações pelos estagiários. Na Argentina eles são chamados de "passantes", já que estão sempre de passagem. Terminado o curso, rua. E contrata-se outro. Tanto lá, quanto aqui, o salário para eles é baixo - em média R$ 400, o equivalente em pesos - e o trabalho pesado.

Equivalente, também, é o baixo poder de fogo dos sindicatos quanto aos desrespeitos patronais e a precarização do emprego, já que nos dois países o movimento depende da ação de seus respectivos e capengas Ministérios do Trabalho para fazer com que se cumpra a lei. E por falar em lei, Argentina e Brasil contam com códigos, estatutos e convenções trabalhistas de Primeiro Mundo, herdados de governos populistas: Perón lá, Vargas aqui.

Mas nem tudo é ambivalência. Em relação à média salarial, as redações brasileiras estão bem acima da média vizinha. Ainda que pouco respeitado, existe por aqui um piso salarial, estipulado por convenção coletiva entre sindicatos e patrões de cada Estado, renegociável de ano em ano e que serve pelo menos como referência na hora de se contratar. O valor varia dependendo da unidade da federação. No Rio de Janeiro é R$ 3056 por 5 horas, em São Paulo R$ 1.300 pelo mesmo período. Já em Rondônia o valor é menor - R$ 920. Vejamos o lado de lá: "Não temos um piso salarial para jornalistas definido por lei, por isso falta referência na hora de negociar. Um redator ou repórter ganha cerca de 700 pesos. Já um salário de 2 mil é considerado alto. Muitos chefes de reportagem e editores ganham isso ou nem isso", explica Daniel das Nieves, presidente do Sindicato de Trabajadores de Prensa de Buenos Aires.

Em relação ao discurso e à coloração partidária, os sindicalistas dos dois países não falam a mesma língua. Enquanto a FENAJ e a grande maioria dos demais sindicatos da categoria do país são umbilicalmente ligados ao PT e ao governo - vide Conselho Federal - na Argentina o movimento é crítico feroz ao presidente Kirchner e rechaça qualquer influência de partidos políticos. "Nós mantemos uma postura de autonomia e independência absoluta em relação ao Estado, partidos e patrões", afirma, categórico, o presidente Das Nieves. Independência partidária, entretanto, não deve ser confundida com moderação no caso da UPTBA. Entre as bandeiras centrais e discursos inflamados nas assembléias, a defesa de Fidel Castro, Chávez e todos os outros redutos da esquerda genérica do planeta estão na linha de frente. A FENAJ, ao contrário, evita entrar nessa seara.

Tanto Argentina quanto Brasil contam com Federações Nacionais de Jornalistas. A diferença é que lá a FATPREN (Federación de Trabajadores de Prensa)- pioneira, fundada em 1957 e filiada à peronista CGT - perdeu força nas últimas décadas e é pouco reconhecida pela categoria. Quem protagoniza a cena política é UTPBA (Unión de Trabajadores de Prensa de Buenos Aires), que desde 1984 não é mais filiada à FATPREN e está em vias de montar outra Federação Nacional.

O sindicato de Buenos Aires é filiado à CTA (Confederación de Trabajadores de Argentina), que nasceu em 1995 inspirado na CUT - até o logotipo é parecido.

Perfil, o delírio

Cinqüenta milhões de dólares em investimentos, 300 novos postos de trabalho, um novo diário. Avançava o primeiro bimestre de 1998 quando, ainda sob o inebriante efeito da dolarização, a editora Perfil, um dos mais poderosos conglomerados de comunicação da Argentina, anunciou com estardalhaço sua nova empreitada - a criação de um diário com o mesmo nome da editora. Envolto em números e cifras ousadas, "Perfil" já começou com circulação nacional e grande tiragem. Nem podia ser diferente, uma vez que o jornal foi concebido para ser o carro-chefe do grupo que criou "Caras", publica "Notícias" - a maior e mais influente revista semanal do país e é parceiro da brasileira Abril na UOL argentina.

O diário, entretanto, sobreviveu exatos três meses. Com o fantasma da crise e o espectro do fim da paridade peso-dólar rondando a economia, faltaram anunciantes, leitores e assinantes. O investimento afobado, enfim, mostrou-se um fiasco em tempo recorde.

Temendo que a crise contaminasse seus outros negócios, Alberto Guido Fontevecchia, o dono de "Perfil", tomou uma atitude drástica: decidiu fechar a publicação e demitir todos os funcionários de uma só vez. Antes, porém, que o primeiro empregado fosse convocado ao setor de recursos humanos, um movimento liderado pela UTPBA, invadiu as dependências do diário e assumiu o controle da redação. A ocupação durou uma semana e mobilizou a opinião pública argentina. Entrincheirados, os grevistas só tinham uma bandeira: "Que se queden todos." Ou seja: nenhum jornalista fora da redação.

Depois de tensas negociações entre sindicalistas, patrões e empregados, Fontevecchia, pressionado, cedeu e dentro de outros veículos de seu grupo, acomodou a maior parte dos jornalistas demissionários. Os que não aceitaram a reengenharia foram demitidos, mas receberam pesadas indenizações. Entre os que optaram por esse caminho, está o jornalista Alberto Lopez Girondo, que desde o confronto em "Perfil" está afastado da redação e vive de freelas. "Esse é o sindicato com maior poder de convocatória da Argentina entre a nossa categoria. Sem dúvida o mais forte. Ocorre que simplesmente não há emprego, não há o que fazer."

Jornalistas ou piqueteiros?

A ocupação das dependências de "Perfil" pelos funcionários, em 1998, não deve ser vista como um fato isolado, tão pouco como símbolo de extraordinário poder de mobilização por parte da UTPBA. Recordemos. Foi um ano antes dessa rebelião jornalística, em 1997, na pequena província de Jujuy, que nasceu o movimento que mais tarde contagiaria toda Argentina com o lema "Que se vayan todos": os piqueteiros. Foi tomada por esse espírito algo revolucionário, reflexo da onda de desemprego gerada pelas privatizações e pelo necrosamento da relação peso-dólar que a UTPBA levou a melhor no caso "Perfil". A dura realidade é que, salvo alguns momentos bem-sucedidos, o sindicalismo argentino, criado e convertido em potência na era Perón e reconstruído com força depois da ditadura, em 1984, foi desarticulado ou cooptado na era Menem. Cerca de 800 postos de trabalho foram perdidos e vários jornais, como "La Razón", "El Tiempo" e "Perfil", foram fechados ao longo da década de 1990. Muitos direitos foram eliminados e o movimento sindical perdeu força. Hoje é preciso que haja um movimento interno nos veículos para que se cumpra a lei. A lei, no caso, é um conjunto de normas e diretrizes chamados "Estatuto del Periodista Profesional", formulado em 1945 pelo então presidente Perón. Somado às duas convenções coletivas assinadas em 1975 - e vigente até hoje- esses dois instrumentos garantem 13º salário superior ao de outras profissões, altas indenizações em caso de demissão sem justa causa, trinta e seis horas semanais de trabalho, entre outros direitos que fazem do jornalismo uma das profissões mais protegidas do país. Tudo isso em teoria. Na prática, tanto o estatuto quanto as convenções - alvos de duros ataques do governo Menem e donos de veículos durante a década de 1990 - são uma ficção.

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BOX------- Brasil e Argentina --------------------------

Brasil:

Federação: FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas). Fundada em 1946 - 27 sindicatos filiados. Ligada ao PT, apoia o governo.

Sindicato mais forte: Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, filiada à CUT. Tem 4.400 filiados ativos, todos jornalistas.

Referência trabalhista: CLT, de 1943, Constituição, de 1988, e convenções trabalhistas renovadas, em geral, anualmente.

Diploma: Exigência temporariamente suspensa por liminar.

Principal bandeira atual: Criação do Conselho Federal de Jornalismo.

Argentina:

Federação: FATPREN (Federación de Trabajadores de Prensa). Fundada em 1957 - 33 sindicatos filiados. Filiada à CGT (Confederación Geral de Trabajadores), peronista.

Sindicato mais forte: UTPBA (Unión de Trabajadores de Prensa de Buenos Aires). 8 mil afiliados (entre jornalistas e trabalhadores gráficos). Filiada à CTA (Confederación de Trabajadores de Argentina). Sem ligação partidária.

Referência trabalhista: Estatuto del Periodista, de 1945.

Diploma: não é exigido por lei.

Principal bandeira atual: Preservação dos postos de trabalho. "No a los despidos".