Série especial do R7 conta a história de casos "invisíveis" na Justiça brasileira

Criado por Vanessa Beltrão e Ana Cláudia Barros, hotsite traz reportagens em texto e vídeo sobre a burocracia no sistema jurídico do Brasil.

Atualizado em 23/02/2015 às 16:02, por Lucas Carvalho*.

Entre as inúmeras ações judiciais que circulam por todos os níveis da Justiça brasileira, poucas são as que chamam a atenção da mídia. Quando um caso tem repercussão, ele é acompanhado de perto por jornalistas até que o assunto se esgote – geralmente quando há uma condenação. Mas e os casos que não saem na grande imprensa?
Crédito:Divulgação Equipe produziu série de reportagens sobre casos na Justiça que ficam "invisíveis"
É por essas histórias que as jornalistas Ana Cláudia Barros e Vanessa Beltrão deram início ao projeto “ ”, uma série de reportagens especiais, em texto e vídeo, que acaba de entrar no ar no portal R7. Ao lado delas, as matérias são assinadas também por Ana Ignacio, Alvaro Magalhães, e Mariana Queen, além da fotógrafa Daia Oliver e dos editores Érica Saboya e Gustavo Heidrich.
Ana e Vanessa trabalham na editoria “Cidades – São Paulo” do R7, e uma de suas principais pautas é a cobertura de julgamentos. As jornalistas contam que, percebendo como o interesse da mídia faz os processos se agilizarem, decidiram mostrar o lado pouco conhecido do “sistema”.
Com a ajuda da ONG “Justiça é o que se busca”, as jornalistas tiveram acesso a diversas histórias de pessoas enfrentado a burocracia da Justiça para solucionar seus casos. Após dez meses de apuração e trabalho, nasceu como uma reportagem especial que acabou se transformando em um hotsite.
“É muito bacana poder fazer um projeto como esse. A gente está lidando com um assunto delicado, e que nem sempre é muito palatável. Foi difícil o processo, mas o resultado compensou qualquer esforço”, comenta Ana, que divide a responsabilidade com Vanessa. “Eu brinco que a gente teve um filho juntas”, diz.
“Essa é a realidade de muita gente no Brasil que luta por Justiça. O objetivo do projeto é mostrar as falhas que existem no processo, fazer um `Raio-X` da impunidade”, comenta Vanessa. A jornalista explica que o especial é dividido em três seções: “Sombra da Farda”, mostrando como o envolvimento pessoal de policiais em determinados casos pode prejudicar a investigação; “Justiça que não se vê”, apontando a burocracia e os meandros do sistema judiciário brasileiro; e “Família em luta”, com a história de pessoas reais em busca de justiça.
“A ideia era não ficar só no denuncismo, mas extrapolar, levantar uma discussão. Por meio desses casos, mostrar que existe um problema grave na Justiça brasileira e colocar isso em pauta. O que pode ser feito para melhorar?”, diz Ana.
Além das dificuldades, o especial destaca também a história de famílias que não desistiram, apesar da lentidão do sistema, como uma forma de mostrar o “lado bom” da questão. “A gente diz: tem problemas, mas não significa que você deve desistir”, explica Vanessa, ao que Ana acrescenta: “Queremos dar voz para essas pessoas. É muito importante que elas se sintam ouvidas”.
A jornalista reafirma que “Invisíveis” é um exercício jornalístico que, de alguma maneira, poderia servir como incentivo à cobertura tradicional de temas jurídicos. Para Vanessa, o papel da imprensa é “abrir o olho para o que está ao seu redor”. “A gente sabe que um caso, quando ganha visibilidade, o tramite é outro. É uma pauta que está ali sempre: julgamento, julgamento, julgamento. Mas sempre de casos com visibilidade. E os outros? O jornalista tem que transformar essa inquietação em uma reportagem que mostre vários lados.”
Já Ana destaca que é complicado “julgar” o trabalho de outros jornalistas, ainda mais levando em conta a rotina apressada dos profissionais em tempos de internet. Porém, ela diz que é sempre importante tentar olhar para pautas como essa sob uma ótica menos convencional. “A cobertura não pode ficar só no factual. Existe por trás do factual um drama, existem vidas, pessoas marcadas por uma tragédia pessoal. Sou a favor de uma cobertura mais humanizada e menos mecânica, mas eu não posso recriminar. O cotidiano do jornalista é muito complicado. A gente só não pode perder de vista essa função primordial do jornalismo que é dar voz a quem não tem.”
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves