“Sempre me mandam mensagens raivosas. Sou repórter, não militante”, diz Sônia Bridi
Entre as principais jornalistas da TV Globo, a repórter especial do “Fantástico” Sônia Bridi é conhecida por matérias de fôlego e séries especiais.
Atualizado em 24/08/2012 às 16:08, por
Luiz Gustavo Pacete.
De fato, Sônia tem trajetória marcada pelo tema. Influência exercida desde o início de carreira, quando fez várias reportagens relacionadas à degradações e agressões ao ambiente. Com experiências de correspondente internacional em Londres, Nova York, Pequim e Paris, Sônia possui parceria profissional com seu marido, o cinegrafista Paulo Zero.
Divulgação: Sônia Bridi e Paulo Zero O trabalho em equipe rendeu a ela mais um livro - Sônia também é autora da obra “Laowai” – o “Diário do Clima”, um diário de viagem que tem como objetivo mostrar os bastidores da série exibida no "Fantástico" que mostra os efeitos da mudança climática em 14 países. Foram seis meses de viagem. Em entrevista à IMPRENSA, Sônia fala como começou a cobrir o tema, destaca a evolução da cobertura ambiental no Brasil e indaga que, muitas vezes, as pessoas confundem seu papel de repórter com a de uma militante.
IMPRENSA - Como começou sua relação com a temática ambiental? Sônia Bridi - Eu sempre tive interesse pelas questões que envolvem a natureza, mas principalmente o jeito racional de viver no planeta. Nas minhas primeiras coberturas, ainda garota, fiz uma sobre greve de usineiros e vi o quanto o carvão era nocivo para as pessoas e o ambiente. Paisagem lunar, mineiro doente. Vi terras agrícolas sendo destruídas. Lençol freático sendo contaminado. Aquilo foi muito impactante. Depois cobri a Rio 92 e várias convenções do clima. Minhas matérias geralmente envolvem natureza e preservação.
De que maneira você analisa a popularidade que esse tema ganhou? De fato ele está mais recorrente. As pessoas estão mais informadas. Sobre a Rio+20 eu acredito que o trabalho feito pela imprensa, principalmente para anteceder e preparar os leitores, foi muito bom. O jornal O Globo fez um trabalho excelente com matérias em profundidade. A própria Rede Globo cobriu o assunto de forma pontual.
A percepção do público sobre o assunto mudou? Sim. O público tem uma consciência muito maior e isso foi construído também pela imprensa. Nossa série que originou o “Diário do Clima” tenta dar um olhar do que o planeta vem sofrendo com as mudanças climáticas pelo viés da mudança na natureza e o impacto na vida das pessoas de diversas regiões.
Qual o foco do livro? É como um diário de viagem. Fala das aventuras, dos perrengues. Tudo é contado com detalhes, algo que não é possível de dar conta na TV. É também uma maneira de contar como se produz uma série.
Houve uma preocupação com a parte estética também? Fazendo a série em lugares bonitos, no aspecto paisagem, seria mais fácil sensibilizar as pessoas para mostrar a beleza que estamos perdendo. Mesmo que muitos achem que não teremos problemas, precisamos pensar na herança que vamos deixar aos nossos filhos. Tem outra questão também que é mudar um pouco, não ficar falando desse problema somente com viés apocalíptico. Mas é preciso ter em mente que muitas das previsões são feitas em modelos climáticos, e os cientistas erram. Na Groenlândia, por exemplo, as coisas pioraram bem antes do previsto.
Você foi correspondente na China. Como vê o aumento de consumo daquele país? Os chineses têm o direito de ter uma vida boa. Não podemos condená-los, nem condenar os brasileiros e indianos a terem uma vida miserável para garantir que os americanos consigam petróleo quando quiserem. Existe sim um complô por parte dos Estados Unidos contra os países em desenvolvimento. É natural que eles tentem segurar os países em desenvolvimento para continuar fazendo o que bem entender. As pessoas esquecem que a Europa, por exemplo, transferiu suas fábricas para a China. As fábricas alemãs estão na China. Então é um discurso muito hipócrita de que chineses e países em desenvolvimento são culpados pelo consumo crescente.
Mas cada um tem seu papel? Por outro lado, os países em desenvolvimento também possuem responsabilidades. Vivemos no mesmo planeta. Não precisamos repetir modelos que já se comprovaram insustentáveis. Temos sim que pensar nas estratégias. O Brasil tem possibilidade de produzir energia limpa e pode aumentar essa geração. Só de pensar, que o Brasil, um país tropical, usa eletricidade para esquentar água de chuveiro, é algo no mínimo estúpido. Você consegue manter uma vida “sustentável”? Na maior parte das vezes sim. Vou para o trabalho no mesmo carro que meu marido. Um carro mil movido a álcool. Sou uma repórter. Não sou uma militante e muitas vezes as pessoas misturam as coisas. Sempre recebo respostas raivosas. As pessoas não precisam acreditar em aquecimento global, podem acreditar em discursos de pessoas que não fazem ciência. Eu adoraria ver um estudo científico bem fundamentado de que as mudanças climáticas representam uma grande bobagem.






