Sem medo da Febem / por Fernanda Assef - universidade Metodista

Sem medo da Febem / por Fernanda Assef - universidade Metodista

Atualizado em 03/06/2005 às 19:06, por Fernanda Assef e  aluna de jornalismo da Universidade Metodista.

Por Nova pagina 1

Isabel Aparecida Pereira, 40 anos, é educadora social no complexo Tatuapé da FEBEM (Fundação Estadual da Fundação do Bem-Estar do Menor) há 2 meses. A psicóloga mostra que vista por dentro a FEBEM não é esse bicho de sete cabeças que a mídia expõe. Denuncia que os internos estão extremamente insatisfeitos com a possibilidade de voltarem os funcionários antigos. E defende a necessidade de um investimento na reintegração desse jovem na sociedade depois que ele sai da FEBEM.

Fernanda Assef: O que te levou a trabalhar na FEBEM?
Isabel Aparecida Pereira: Eu fiz psicologia e foi uma oportunidade que me apareceu. Foi a contratação emergencial que aconteceu agora em janeiro. É uma área que eu acho extremamente interessante, e para mim foi excelente.

F.A.: Como é o jovem da FEBEM?
Isabel: Não é esse monstro que aprece na televisão.sempre que aparece, aparece eles em tumulto eles em rebeldia. Fazendo o q eles acham que tem de fazer. É esse o jovem que aparece lá fora. Agora os jovens que a gente convive no dia-a-dia, com quem você cria vínculos, são pessoas possíveis de conversar normalmente. Uns mais rebeldes outros menos.

F.A.: Você acha possível reintegrar eles na sociedade?
Isabel: Se a sociedade der esse respaldo na saída deles é possível. Mas como eles não têm esse respaldo, quando eles saem voltam para o mesmo convívio. Voltam a uma família muito pobre, que não tem nada a oferecer, e acabam retornando ao crime.

F.A.: Dizer que as pessoas saem da FEBEM pior do que entraram é lenda?
Isabel: Como o tempo em que eu estou trabalhando lá é recente fica difícil responder. Lá tem três alas. A ala de leves: quem nunca teve passagem, está lá pela primeira vez, cometeu algum delito leve. A ala media: com um B.O. mais pesado. E a ala grave que é onde eu trabalho que são os reincidentes, ou seja, que já passaram mais de uma vez pela FEBEM. Então o que acontece no meio desse convívio eles apreendem muito mais. Essa convivência influência. Mesmo sendo separados em leve, médio e grave, eles se encontram para atividades. O que deveria ser separado ,e não é, são B.O.s diferentes. Isto é quem matou não deveria estar com quem apenas roubou e está passando uma segunda vez pela FEBEM. No meu caso pro exemplo (na ala dos graves) tem pessoas que mataram, tem pessoas que estão lá por tráfico de drogas, tem pessoas que por roubo a banco. Então são pessoas com mentalidade bem diferentes que estão misturadas e são influenciadas.

F.A.: Como estão os jovens depois da ultima rebelião?
Isabel: Essa ultima não foi bem rebelião. Quarta feira passada foi confusão, uma briga.

F.A.: Você acha que a mídia exagera quando fala da FEBEM?
Isabel: Exagera. Nem todos os circuitos levantaram como aparenta na televisão. Quem não conhece acha q a FEBEM inteira está em rebelião. Levantam-se todas as unidades quando há uma rebelião combinada. Quarta-feira passada não chegou a ser uma rebelião. Foi uma confusão que botaram fogo, incendiaram carros, roubaram funcionários. No circuito em que eu trabalho pro exemplo não aconteceu nada. Se levantaram umas três unidades e nas demais não aconteceu nada. E as unidades são diferentes. Quem está a primeira vez e não apanhou ainda, talvez ainda não apanhou, quando era época de apanhar muito, e ainda não sabe o que é uma FEBEM. Agora quem já está a 3 ou 4 vezes na FEBEM sabe o que é uma FEBEM sabe o que é tranco, sabe o que é apanhar, sabe o que é coro.

F.A.: Com o Alckmin alguma coisa foi alterada?
Isabel: Antigamente a mentalidade era apanhar. Eles apanhavam mesmo, segundo eles. Eles não podiam fazer nada, não podiam se mexer, olhar pro lado, apanhavam na cara e tudo mais. Era uma tortura mesmo. Essa mentalidade nova do Alexandre de Moraes é excelente, mas infelizmente eles(os internos) não valorizaram. Segundo o meu circuito que esta há mais tempo lá dentro essa era a atitude dos de mais que não sabiam o que era a FEBEM antes e se levantavam e faziam confusão.

F.A.: A mídia de novo exagerou na interpretação então?
Isabel: Nem só a mídia. Os próprios funcionários da FEBEM. Às vezes não está acontecendo nada e os funcionários "ah. Vai levantar. Daqui a pouco vai levantar todas as unidades.". Muitos funcionários mais antigos estão sempre achando q vai ter uma rebelião, ficam dizendo: "hoje é que o negócio vai pegar".

F.A.: Qual a solução pra a FEBEM?
Isabel: Eu acho que a proposta com os educadores é muito boa mas isso demanda tempo para ter um efeito, para melhorar. A gente não tem certeza, mas parece que vão entrar os antigos novamente e não se sabe se os educadores vão continuar. Nós estávamos conquistando um vinculo com eles, você não entra na FEBEM hoje e tem um resultado amanhã. Eles são muito desconfiados demora um tempo para criar uma confiança, um vínculo com você. Eles nos contam coisas pessoais. Coisas que são interessantes pra eu saber, mas que não cabe divulgar. Mas são coisas que fazem você perceber o vínculo que você conseguiu criar. E é com esse vínculo que você consegue ajudá-los de alguma forma. Mas parece que isso já vai ser quebrado por que os funcionários antigos vão voltar.

F.A.: E como estão se sentindo os internos com essa volta dos antigos?
Isabel: Muito insatisfeitos. Muito. Muito. Hoje por exemplo deu plantão e eles estão na tranca. Isto é, eles estão proibidos de sair das celas. Eles (os internos) estão extremamente insatisfeitos por que sabem que se os funcionários antigos voltarem a casa volta zerada, zerada no sentido que volta para as mãos dos funcionários.

F.A.: E volta ao que acontecia antes e que tanto revoltou eles.
Isabel: Não. Acredito que não. Eles não vão apanhar como eles apanhavam antes, porque os direitos humanos estão ai, na direção da casa agora. Mas eles não querem a volta deles, já criaram uma antipatia. Conquistaram algumas coisas e querem continuar com isso. Agora a gente tenta mostrar pra eles o quanto estava bom e o como eles não valorizaram. Agiram pelo impulso e não pensaram nas conseqüências do depois. E eles estão sentindo isso na pele. Eles estão insatisfeitos.

F.A.: Como foi feita essa substituição dos funcionários antigos por educadores?
Isabel: O Alexandre de Moraes entrou e foram todos mandados embora. E ele teve de fazer uma contratação imediata, contratou pessoas formadas pra um trabalho sócio educativo. Antes eles(os internos) não falavam com a gente chegavam de rosto baixo. Hoje não. A gente conversa, uns sentam do lado uns mais distantes, mas tem uma conversação normal. A gente sabe que eles cometeram crimes e tem que pagar, tem que ter castigo. Hoje ,por exemplo, por causa da confusão eles estão de tranca e é ruim. Mas o que aconteceu, não foi rebelião. Quando é rebelião, eles sobem no telhado queimam colchão e é o quadrilátero inteiro em conjunto.

F.A.: No final, trabalhar na FEBEM foi mais tranqüilo do que você esperava?
Isabel: Bem mais clamo eu fiz a capacitação e na capacitação parecia algo mais complicado.

F.A.: Como você recebeu as matérias sobre estupro de funcionários?
Isabel: Eu ouço tudo isso como você ouve. Mas estando lá com eles, o que eu vejo na minha unidade é uma unidade tranqüila. Eles dizem pra a gente ... chamam a gente de senhora independente da idade... "Isso nunca vai acontecer. Isso não pode acontecer. Vocês são boas com a gente, a gente não vai fazer nada contra vocês." Com relação a reféns por exemplo não é para machucar. Educador é uma coisa, os agentes são outra se for matar vão matar se for para furar eles vão furar. Educador que não bate não, agora esses que batiam inúmeros deles já foi esfaqueado.

F.A.: E os funcionários antigos?
Isabel: Se entrar agora eles vão apanhar e vão morrer. Essa é a conversa deles.

F.A.: Eles têm medo da entrada deles?
Isabel: Odeiam eles. Simplesmente odeiam. Não é nem medo não. Eles odeiam. Se tiver que matar eles vão matar, eles vão matar e acabou.

F.A.: Mas e com os educadores?
Isabel: Não com os educadores é diferente. Eles podem nos pegar como refém. Mas não vão fazer nada com a gente.

F.A.: Você não tem medo?
Isabel: Não. Eu não tenho medo, sinceramente.

F.A.: Eles te passam essa segurança?
Isabel: Não 100%. A galeria é um lugar impressionante, muito carregado, te deixa muito mal. Eles já mataram dois três. O "não" na vida deles nunca existiu. O pai não existe. Eles muitas vezes não têm uma figura paterna, ou morreu no crime, ou desapareceu, ou se separou. E ainda tem a ausência da mãe. Quando consegue falar com a família a gente pede que a mãe visite mais, por que é muito importante para eles. Eles nunca tiveram limites. É triste. Alguns voltam pra vida anterior por opção, está na personalidade deles. Estes nos cursos, não se interessam por nada, só querem voltar à vida deles. Mas a maioria tem vontade de construir uma vida diferente. Muitos falam: "eu quero sair dessa vida senhora". Você vê que se ele não vai ter oportunidades. Na minha época eu tinha emprego, mas hoje eles não têm esse emprego. Emprego é dignidade, é tudo na vida de uma pessoa.