Saudades de Lulu Bergantim

Saudades de Lulu Bergantim

Atualizado em 06/08/2010 às 16:08, por Silvia Dutra.

Confesso que tem sido difícil ler jornais nos últimos dias. São tantas notícias ruins, em tantas frentes, que tenho considerado voltar a tomar antidepressivos. Certa vez, numa roda de amigos, defendi a idéia de que antidepressivos deveriam ser adicionados aos reservatórios de água. No Brasil e no resto do mundo. Meu marido e os amigos riram, acusaram-me de falar besteiras após ter abusado de Margaritas. Riram ainda mais quando eu disse que falava sério. Não colocam cloro para matar os micróbios, flúor para preservar os dentes da população? Por que não pilulas para nos proteger da inundação de pensamentos e sentimentos negativos que advém da leitura dos fatos do dia?
Aliás, jornais, emissoras de rádio e televisão e sites de notícias deveriam dar cupons de desconto para a compra desses medicamentos. E também para drogas contra ansiedade e ataques de pânico. Ou pelo menos deveriam vir com uma advertência, como as embalagens dos cigarros: o uso contínuo desse produto faz mal para a sua saúde. Porque faz mesmo.
Especialmente notícias como essa aqui: o Congresso americano aprovou um aumento de 33 bilhões de dólares para continuar financiando a guerra no Afeganistão. Mesmo após o vazamento de documentos que mostram que o conflito é um beco sem saída e que os que resistem à invasão estão cada vez mais fortes e organizados. Ou essa aqui: a classe média americana está desaparecendo e o país caminhando a passos largos para o colapso total. Vamos à lista das evidências: sistemas de educação e de infraestrutura básica -- pontes, estradas, redes de água, esgoto -- em frangalhos. Setor financeiro corrupto e desregulado. Ausência de um plano eficiente de fontes de energia limpa. Duas guerras imundas drenando recursos e aumentando o déficit. Uma população obesa, doente, desesperada, desempregada e sem casas para morar. Aumento no número de crimes, suicídios e violências domésticas, contra mulheres e crianças. Sem falar das tensões sociais e raciais com a questão da imigração e o recente desastre ecológico que devastou não só a fauna e a flora do Golfo do México como a economia de muitas comunidades que sobreviviam da pesca ou do turismo.
Não estou exagerando, a coisa está feia mesmo. Arianna Huffington, jornalista e editora do prestigiado site de notícias e opiniões "The Huffington Post " escreveu um livro justamente sobre isso tudo que falei aí em cima. Com previsão para ser lançado na segunda semana de agosto, o livro se chama "Third World America".
Acredite se quiser, mas muitas e muitas cidades americanas atualmente parecem mesmo municípios pobres e sem esperança de países de terceiro mundo. Cidades grandes, como Las Vegas, com bairros inteiros cheios de casas abandonadas porque os moradores perderam os empregos e não podem mais pagar a prestação dos imóveis. Fileiras de casas vazias pelo País e multidões de sem teto. Não faz o menor sentido.
E talvez nada exemplifique melhor a decadência e a desesperança que assola esse país do que a matança de milhares de animais nas comunidades afetadas pelo desastre ecológico causado pela British Petroleum no Golfo do México. Não estou nem me referindo aos pelicanos, peixes, filhotes de tartarugas cobertos de óleo. Esses apareceram na mídia tomando banho de detergente e muitos foram salvos. Falo dos animais domésticos -- cães, gatos, cavalos, porcos, pássaros -- abandonados aos milhares nos abrigos e entidades que cuidam de bichos porque seus donos perderam os empregos e não podem mais alimentá-los. Campanhas estão sendo feitas pela internet e pela imprensa para arrumar moradia temporária para esses bichos, mas a grande maioria deles está sendo morta. São as vítimas esquecidas da falta de responsabilidade de uma companhia que colocou a ganância na frente das medidas de segurança na exploração de petróleo. São o elo mais fraco na corrente, da qual nós, humanos, também fazemos parte.
Leio essas notícias e mesmo sem a ajuda de Margaritas tenho fantasias que meu marido e amigos considerariam insanas. E me bate uma saudade sabe de quem? De Lulu Bergantim, o delicioso personagem criado pelo não menos maravilhoso escritor brasileiro José Cândido de Carvalho. Lulu, o doido que fugiu do hospício, fez uns discursos que ninguém entendeu e acabou eleito prefeito de Curralzinho Novo. E de enxada na mão comandou o povo pra limpar a cidade. Depois embelezou as casas da vilinha, à frente de um mutirão de pintura. Por fim declarou que era hora de todo mundo virar tatu, abrir os subterrâneos da cidade para passar as redes de água e esgoto e trazer mais saúde e conforto para todos. O excêntrico, cheio de idéias também consideradas insanas, que aos gritos de "ou vai ou racha" se eternizou como o melhor prefeito daquelas paragens.
Adoraria ver um Lulu Bergantim em Washington, outro em Brasília, outro em São Paulo, milhares deles em cada pequena ou grande cidade desse planeta maluco. O mundo precisa de gente pacífica capaz de arregaçar as mangas, falar "ou vai ou racha" e ter coragem de tomar atitudes criativas e inesperadas, jamais tentadas. Imagino que rumo as coisas pegariam se os donos do poder de repente tivessem a decência e a coragem para agir feito Lulu Bergantim.
Declarar o fim dessas guerras insanas. Pegar esses 33 bilhões que vão virar bombas, mortes e amputados e com eles construir estradas, hospitais,escolas. E gerar empregos, muitos empregos. Criar e espalhar prosperidade para que ninguém tivesse que sair de seu país e ser discriminado e perseguido em terras alheias.
Laçar os executivos dos bancos, que ganharam bilhões inflacionando o mercado imobiliário, e forçá-los a arrumar uma solução para a sujeirada toda que eles aprontaram. Nenhuma criança vai dormir na rua tendo tanta casa vazia por ai, ouviram bem? Meter esses safados na cadeia.
Pegar o pessoal da British Petroleum e forçá-los a limpar cada centímetro quadrado de área contaminada no Golfo do México. E mandá-los para o Brasil, aprender uma coisa ou outra sobre exploração de petróleo em alto mar. E já que estamos falando no Brasil e em notícias recentes e depressivas, aproveitar e aplicar um corretivo nos fundilhos do Rambo, outro gringo tão arrogante quanto os executivos da BP. Dizer pra ele que quem tem Lulu Bergantim e artistas do porte de um José Cândido de Carvalho pode muito bem dispensar atorzinho canastrão quase sexagenário que fez uma carreira repetindo o mesmo e único filme. Ou vai ou racha!