RSF condena censura a jornalistas mexicanas que denunciaram pedofilia
RSF condena censura a jornalistas mexicanas que denunciaram pedofilia
A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) emitiu um comunicado nesta quinta-feira (03) dizendo-se preocupada com o que pode ocorrer com jornalistas que abordam a pedofilia no México, sobretudo após a decisão das autoridades da cidade de Puebla de censurarem, no último dia 30 de março, o lançamento de um novo livro da jornalista Lydia Cacho.
Desde o começo do ano, Sanjuana Martínez, do diário regional Milenio Diario de Monterrey , e Carmen Aristegui, da emissora W Radio, também sofreram censura. A primeira perdeu uma coluna, por acusar religiosos de envolvimento com a pederastia, e Carmen teve o contrato rescindido, por revelar as circunstâncias da detenção de Lydia Cacho, em dezembro de 2005, por ordem do governador do Estado de Puebla, Mario Marín.
"Ainda que, em princípio, não tenhamos a política de intervir nas decisões internas de um meio de comunicação, nos parecem pouco convincentes as explicacões dadas pelas redações do Milenio Diario de Monterrey e da W Radio para justificar a supressão da coluna de Sanjuana Martínez e a demissão de Carmen Aristegui", afirmou a RSF.
A organização ainda declarou que "uma vez mais, constatamos que Lydia Cacho está pagando muito caro por seu trabalho de investigação sobre as redes de pederastas, que implicam envolvimento de personalidades. Evidentemente, no México não é bom ser jornalista e falar de pedofilia. Em um contexto de fortes pressões sobre os meios por abordarem o tema, o lançamento do novo livro da jornalista representa um ato de valor que aplaudimos. É necessário que não haja obstáculo".
No dia 30 de março, a polícia de Puebla retirou à força de um mural o anúncio do lançamento do novo livro de Lydia. Em "Memorias de uma infâmia", publicado pela editora Random House Mondadori, ela volta a falar, entre outras coisas, da sua detenção em dezembro de 2005 e dos atentados e ameaças de intimidação que sofreu desde a publicação de "Os demônios do Edén", um livro em que revelava a implicação de algumas personalidades conhecidas em pedofilia.
Entre as pessoas acusadas citava José Camel Nacif, um empresário têxtil muito próximo do governador do Estado de Puebla, Mario Marín. A editora disse à Repórteres Sem Fronteiras que seis rádios e periódicos locais cancelaram, na última hora, as entrevistas previstas com Lydia, por causa da publicação do livro. Além disso, Mario Alberto Mejía, responsável pelo site informativo Quinta Columna, denunciou o bloqueio de sua página de Internet.
O escândalo gerado pela detenção de Lydia explodiu quando o diário nacional La Jornada e a W Radio tornaram público o conteúdo de uma conversa telefônica entre Mario Marín e José Camel Nacif, no momento em que a jornalista era transferida em um furgão blindado do Estado de Quintana Roo, onde reside, até Puebla.
"Brincando", homens sugeriram violá-la durante o trajeto. Apesar da existência de indícios tão graves, a Suprema Corte de Justiça da Nação, a maior jurisdição do país, não levaram a sério a acusação contra Mario Marín. Carmen, autora das revelações na W Radio, que tinha um programa há cinco anos, foi despedida da emissora no dia 3 de fevereiro, por "incompatibilidade editorial".
Uma "reestruturação de páginas" foi o motivo invocado pela direção do Milenio Diario de Monterrey para comunicar a Sanjuana, no dia 29 de fevereiro, a supressão de sua crônica semanal. A diretora do periódico, Roberta Garza Medina, defendeu ao Repórteres Sem Fronteiras que não se trata de censura. Já a jornalista recordou que acaba de publicar uma investigação sobre um sacerdote suspeito de pederastia, que continua em suas funções e está protegido pela hierarquia eclesiástica.
Roberta é irmã do vigário geral dos Legionários de Cristo, um movimento ultraconservador da Igreja Católica, que já passou por este tipo de escândalos. Na última terça-feira (01), militantes de associacões que defendem a causa das mulheres protestaram publicamente em Monterrey pela supressão da crônica de Sanjuana. Assim como sua colega Lydia Cacho, a jornalista ficou conhecida através dos livros - "Manto Púrpura" e "Prueba de fe" - fruto de uma larga investigação sobre a pedofilia na Igreja católica.
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