Revista IMPRENSA, edição 214: Carta do Editor
Revista IMPRENSA, edição 214: Carta do Editor
Dois Lulas, duas medidas
Acabada a Copa, começam agora, de fato, as disputas eleitorais. O presidente Lula trabalha com duas agendas: de segunda à sexta, será o chefe da Nação e, nessa condição, vai rodar o país "supervisionando" obras, já que não pode inaugurá-las. Aos sábados e domingos, Lula assume, igual a FHC em 1998, o figurino de candidato e poderá, sem constrangimento, apertar mãos, beijar crianças e comer buchada de bode usando chapéu de cangaceiro. Por mais que esse sistema eleitoral seja duvidoso, ao permitir a manutenção do presidente enquanto candidato, essa é a realidade das próximas eleições. Caberá aos assessores palacianos e ao TSE a tarefa de impedir que o staff presidencial não ultrapasse a delicada linha que diferencia o candidato do estadista.
Mas, e nas redações, como separar as duas pautas? Até o dia da votação, editores e editorias, repórteres e setoristas, colunistas e âncoras, terão a difícil tarefa de separar os assuntos de Estado, e suas respectivas abordagens críticas, dos factóides, uma tentação para mandatários-candidatos. Além de contar, durante a eleição, com a estrutura oficial do exercício do mandato, Lula será duplamente exposto na mídia, ao contrário de seus adversários. Os pauteiros terão, portanto, que separar as agendas para equalizar o debate.
Mas nem tudo serão flores para o presidente presidenciável. Apesar de liderar com folga as pesquisas e contar com uma ampla aprovação popular, o governo Lula se manteve em um ambiente belicoso com a imprensa ao longo do seu mandato. Adepto de teorias conspiratórias, debitou na conta da cobertura todos os seus males. Usou de truculência com os repórteres do dia, rejeitou o contato direto, tentou manipular manchetes e apoiou iniciativas antipáticas para a categoria. Essa relação de silêncio e ódio, objeto de apuração da redação de IMPRENSA nos últimos três anos e meio, foi compilada, organizada e repercutida nesta edição, em um competente esforço de reportagem assinado pela repórter Thaís Naldoni.
Tão logo seja dada a largada eleitoral, saberemos se os jornalistas guardaram algum rancor. E se tratarão o presidente com a mesma boa vontade que trataram o candidato em suas quatro eleições anteriores para presidente.






