Religião deve ser notícia como qualquer outro assunto, dizem especialistas
Uma das figuras públicas mais pesquisadas na internet, personalidade do ano segundo da revista Time e capa da próxima Rolling Stone, o Papa
Atualizado em 30/01/2014 às 15:01, por
Lucas Carvalho*.
Uma das figuras públicas mais pesquisadas na internet, personalidade do ano segundo da revista Time e capa da próxima Rolling Stone , o Papa Francisco tem sido o centro das atenções da mídia internacional. Enquanto isso, num estado isolado, fechado em seu islamismo, Bangladesh manda prender jornalistas que se atrevem a pensar em outras religiões, quanto mais pisar em solo israelense. Nesses dois cenários, o que chama a atenção é o papel da imprensa ao tratar do assunto “religião” e como o contexto social influencia na cobertura..
Crédito:Divulgação/SXC Especialistas dizem que religião deve ser vista como notícia comum
No Brasil, a maioria esmagadora das notícias sobre religião estão ligadas ao cristianismo. Para José Maria Mayrink, editor de O Estado de S. Paulo e jornalista especializado em religião desde 1962, isso é justificável. “Eu vejo, primeiro, que há uma predominância na cobertura, no tratamento da religião católica. O que é compreensível, pelo número de católicos no Brasil, pela influência que teve até hoje. Então, é possível que os jornais ou até mesmo as pessoas que trabalham em jornais, a imprensa em geral, tenham um nicho de formação católica, mesmo que não pratiquem a religião. Outras religiões, que são minoria, têm pouco espaço na imprensa”, diz.
O professor do departamento de teologia e ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Jorge Cláudio, vê nesse protagonismo da religião católica na mídia em geral – e não somente no jornalismo – como uma situação de oferta e demanda. “A maior emissora da TV do Brasil, a Globo, é muito católica. Mas não por convicção, mas por que ela tem que dar força para a sua maior audiência. E puxando pela tecla ‘católico’, ela atinge o maior contingente religioso do Brasil”, afirma.
É essa situação de oferta e demanda que gera o interesse pelo Papa Francisco, por exemplo. Segundo Cláudio, o pontífice está em destaque na imprensa não pela sua importância religiosa, mas pelo seu apelo midiático. “Tudo o que tiver relação ao Papa, gera interesse. Então, qualquer coisa sobre ele é notícia. Pensando nisso, deixa-se de lado questões muito mais importantes, como em que direção ele está levando a Igreja, para dar atenção a outros fatos, como a pombinha comida pela gaivota, por exemplo”, diz.
“Às vezes, por uma questão de falta de afinidade, a imprensa cobre aspectos não propriamente religiosos dentro da religião; por vezes com uma abordagem mais sociológica ou com uma análise mais quantitativa – quantos fieis têm cada igreja –, ou com uma abordagem política etc.”, comenta Cláudio.
Segundo ele, a imprensa deve discutir qualquer assunto com uma visão crítica, mesmo que isso contrarie interesses de líderes religiosos. Isso significa tratar religião como qualquer outro assunto, digno de apuração e de um discurso imparcial.
Mayrink acredita que o assunto não deve ter um caderno específico ou uma editoria especial de algum veículo de imprensa, mas deve disputar espaço nas manchetes com outras questões. “Eu acho que a religião tem que ser notícia como qualquer outra. Ela tem que entrar na imprensa, na TV, no rádio, como notícia. Quase não se vê mais hoje, acho que nem existe mais, por exemplo, colunas de religião como existia antigamente. O Estado de S. Paulo tinha até os anos 80 uma coluna chamada ‘movimento religioso’, com notícias sobre a igreja católica. Acabou essa coluna, como acabaram outras sobre outros assuntos. Não é um espaço privativo que a religião vai ter”.
Por outro lado, essa postura pode ser o ponto de início dos atritos entre a teologia e o jornalismo. O professor Cláudio lembra os escândalos envolvendo denúncias de pedofilia na Igreja Católica e como cardeais e bispos pressionaram veículos de imprensa a não divulgar tais fatos, por mais que fossem relevantes para a sociedade.
Essa “fiscalização” não é um fenômeno recente. Em 1910, nascia no Brasil a "Liga da Boa Imprensa", movimento criado pelo Frei Pedro Sinzing que tinha como objetivo monitorar as publicações brasileiras em busca daquilo que fosse considerado “pouco saudável” para a divulgação da igreja católica ou dos próprios conceitos da fé. “Eles queriam que fosse publicado somente aquilo que, do ponto de vista da igreja católica, seria a ‘boa notícia’. Então a gente [imprensa] está desde sempre na mira. Há muita queixa quando se escreve qualquer coisa que não agrada, a igreja logo acha que você está fazendo uma propaganda contra a religião”, diz Mayrink.
Em países onde religião e política muitas vezes se confundem, o trabalho da imprensa sofre com ainda mais obstáculos. Mayrink participou em outubro passado do Primeiro Encontro de Jornalistas de Religião da América Latina, promovido pela Associação Internacional de Jornalistas de Religião (AIJR), em Belo Horizonte (MG), e pôde conhecer mais sobre a situação no Oriente Médio. “Lá havia uma jornalista muçulmana que falava dessa dificuldade, dos países árabes, e é inseparável. Você não tem como falar de religião sem levar em conta que o país é muçulmano e a religião é quase estatal. Não há separação entre igreja e estado lá”.
“Se uma sociedade está muito submissa, ela não dará apoio a uma análise mais crítica. E isso vale pra qualquer sociedade”, afirma Cláudio. A dificuldade da imprensa em lidar com o assunto, por mais que tenha outro peso em países menos liberais, está presente em todo lugar. Para Mayrink, tudo que envolve grupos ideológicos é, naturalmente, um obstáculo para o trabalho dos jornalistas.
“Eu falo que é difícil cobrir religião como é difícil também cobrir partido político. Eu cobri o PT durante anos em São Paulo e não é fácil. Organizações militares, polícia, exército, que são organizações fechadas, também é complicado. Para um jornal de fora, é difícil fazer uma cobertura com bastante circulação lá dentro, com liberdade para tratar de qualquer assunto”, afirma o jornalista.
Para o professor Cláudio, por mais que haja dificuldades, o jornalismo não pode se acuar. “A imprensa deve discutir qualquer assunto. Deve! Se faz bem ou não, é outra questão, depende de cada caso”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves
Crédito:Divulgação/SXC Especialistas dizem que religião deve ser vista como notícia comum
No Brasil, a maioria esmagadora das notícias sobre religião estão ligadas ao cristianismo. Para José Maria Mayrink, editor de O Estado de S. Paulo e jornalista especializado em religião desde 1962, isso é justificável. “Eu vejo, primeiro, que há uma predominância na cobertura, no tratamento da religião católica. O que é compreensível, pelo número de católicos no Brasil, pela influência que teve até hoje. Então, é possível que os jornais ou até mesmo as pessoas que trabalham em jornais, a imprensa em geral, tenham um nicho de formação católica, mesmo que não pratiquem a religião. Outras religiões, que são minoria, têm pouco espaço na imprensa”, diz.
O professor do departamento de teologia e ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Jorge Cláudio, vê nesse protagonismo da religião católica na mídia em geral – e não somente no jornalismo – como uma situação de oferta e demanda. “A maior emissora da TV do Brasil, a Globo, é muito católica. Mas não por convicção, mas por que ela tem que dar força para a sua maior audiência. E puxando pela tecla ‘católico’, ela atinge o maior contingente religioso do Brasil”, afirma.
É essa situação de oferta e demanda que gera o interesse pelo Papa Francisco, por exemplo. Segundo Cláudio, o pontífice está em destaque na imprensa não pela sua importância religiosa, mas pelo seu apelo midiático. “Tudo o que tiver relação ao Papa, gera interesse. Então, qualquer coisa sobre ele é notícia. Pensando nisso, deixa-se de lado questões muito mais importantes, como em que direção ele está levando a Igreja, para dar atenção a outros fatos, como a pombinha comida pela gaivota, por exemplo”, diz.
“Às vezes, por uma questão de falta de afinidade, a imprensa cobre aspectos não propriamente religiosos dentro da religião; por vezes com uma abordagem mais sociológica ou com uma análise mais quantitativa – quantos fieis têm cada igreja –, ou com uma abordagem política etc.”, comenta Cláudio.
Segundo ele, a imprensa deve discutir qualquer assunto com uma visão crítica, mesmo que isso contrarie interesses de líderes religiosos. Isso significa tratar religião como qualquer outro assunto, digno de apuração e de um discurso imparcial.
Mayrink acredita que o assunto não deve ter um caderno específico ou uma editoria especial de algum veículo de imprensa, mas deve disputar espaço nas manchetes com outras questões. “Eu acho que a religião tem que ser notícia como qualquer outra. Ela tem que entrar na imprensa, na TV, no rádio, como notícia. Quase não se vê mais hoje, acho que nem existe mais, por exemplo, colunas de religião como existia antigamente. O Estado de S. Paulo tinha até os anos 80 uma coluna chamada ‘movimento religioso’, com notícias sobre a igreja católica. Acabou essa coluna, como acabaram outras sobre outros assuntos. Não é um espaço privativo que a religião vai ter”.
Por outro lado, essa postura pode ser o ponto de início dos atritos entre a teologia e o jornalismo. O professor Cláudio lembra os escândalos envolvendo denúncias de pedofilia na Igreja Católica e como cardeais e bispos pressionaram veículos de imprensa a não divulgar tais fatos, por mais que fossem relevantes para a sociedade.
Essa “fiscalização” não é um fenômeno recente. Em 1910, nascia no Brasil a "Liga da Boa Imprensa", movimento criado pelo Frei Pedro Sinzing que tinha como objetivo monitorar as publicações brasileiras em busca daquilo que fosse considerado “pouco saudável” para a divulgação da igreja católica ou dos próprios conceitos da fé. “Eles queriam que fosse publicado somente aquilo que, do ponto de vista da igreja católica, seria a ‘boa notícia’. Então a gente [imprensa] está desde sempre na mira. Há muita queixa quando se escreve qualquer coisa que não agrada, a igreja logo acha que você está fazendo uma propaganda contra a religião”, diz Mayrink.
Em países onde religião e política muitas vezes se confundem, o trabalho da imprensa sofre com ainda mais obstáculos. Mayrink participou em outubro passado do Primeiro Encontro de Jornalistas de Religião da América Latina, promovido pela Associação Internacional de Jornalistas de Religião (AIJR), em Belo Horizonte (MG), e pôde conhecer mais sobre a situação no Oriente Médio. “Lá havia uma jornalista muçulmana que falava dessa dificuldade, dos países árabes, e é inseparável. Você não tem como falar de religião sem levar em conta que o país é muçulmano e a religião é quase estatal. Não há separação entre igreja e estado lá”.
“Se uma sociedade está muito submissa, ela não dará apoio a uma análise mais crítica. E isso vale pra qualquer sociedade”, afirma Cláudio. A dificuldade da imprensa em lidar com o assunto, por mais que tenha outro peso em países menos liberais, está presente em todo lugar. Para Mayrink, tudo que envolve grupos ideológicos é, naturalmente, um obstáculo para o trabalho dos jornalistas.
“Eu falo que é difícil cobrir religião como é difícil também cobrir partido político. Eu cobri o PT durante anos em São Paulo e não é fácil. Organizações militares, polícia, exército, que são organizações fechadas, também é complicado. Para um jornal de fora, é difícil fazer uma cobertura com bastante circulação lá dentro, com liberdade para tratar de qualquer assunto”, afirma o jornalista.
Para o professor Cláudio, por mais que haja dificuldades, o jornalismo não pode se acuar. “A imprensa deve discutir qualquer assunto. Deve! Se faz bem ou não, é outra questão, depende de cada caso”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves





