Recém-criado, Instant Article recebe críticas de profissionais da comunicação

No embalo da internet e do advento do mobile, o jornalismo tem se deparado cada vez mais com a necessidade de veicular uma quantidade extensa de informações em um período gradativamente reduzido.

Atualizado em 27/10/2015 às 18:10, por Matheus Narcizo*.

do advento do mobile, o tem se deparado cada vez mais com a necessidade de veicular uma quantidade extensa de informações em um período gradativamente reduzido.

Crédito:Divulgação Marcelo Rech, Luís Fernando Bovo e Franklin Foer comentam prejuízos do Instant Article
A ideia é básica e já se tornou um dilema dentro das redações: quanto mais tempo o leitor leva para ter acesso a determinado conteúdo, maior será a rejeição ao veículo. Com o dilema, vem a questão: e como atrair a atenção do leitor de forma mais rápida?

Lançado em maio deste ano ainda em fase de testes, o Instant Article, criação do Facebook, permite a veículos de comunicação publicarem suas notícias, reportagens e vídeos diretamente no aplicativo móvel da rede social. Antes utilizado como "ponte" para o centro da informação, o Facebook agora tem reforçado sua posição como centro noticioso e, principalmente, filtrador de informação.

No último dia 20 de outubro, a rede social anunciou a liberação oficial do modelo de leitura a usuários que utilizam o aplicativo da rede em dispositivos iOS, decretando a nova posição do Facebook enquanto veículo de comunicação.

"Começando hoje, pessoas verão um relâmpago brilhante no topo direito de algumas matérias compartilhadas no feed de notícias. O relâmpago indica que se trata de um Instant Article. Quando você clica na história, ele carregará dez vezes mais rápido do que um artigo padrão na web", explicou o gerente de produtos do Facebook, Michael Rechow.

Além do carregamento mais rápido, as empresas que veicularem suas notícias na rede social poderão incorporar recursos interativos como vídeos, slideshows, imagens e mapas interativos.

Até momento, segundo dados do Facebook, grandes empresas do campo da comunicação como The New York Times , National Geographic, BuzzFeed, The Huffington Post , Washington Post e Rolling Stone adotaram a novidade.

Oposição

Apesar da aparência inovadora proposta pelo Instant Article, alguns especialistas da comunicação têm colocado em xeque a idoneidade do aplicativo em prezar a qualidade da informação em primeira instância.

Um dos palestrantes do 2° Festival Piauí GloboNews de Jornalismo, o jornalista norte-americano, Franklin Foer, não aparenta demonstrar confiança na "jogada" proposta pelo Facebook. Para ele, é bastante arriscado manter o jornalismo refém dos filtros de uma rede social.

"Eu não gosto, acho que o Facebook acaba tendo em mãos o poder de decidir quem ganha e quem perde. Além disso, não acho que ele seja o filtro mais confiável a quem quer procurar por publicações. Sou contra uma rede social ter esse poder em relação ao jornalismo", comentou Foer.
A cautela em relação à "inovação" proposta pela empresa de Mark Zuckerberg também é defendida pelo diretor-executivo de jornalismo do grupo RBS, Marcelo Rech. Nomeado recentemente como presidente do Fórum Mundial de Editores (WEF), ele agora é o encarregado de discutir, entre outras coisas, o futuro da profissão a partir da ascensão da mídia digital.

Como ponto principal, Rech defende a percepção por parte do internauta e, principalmente, do jornalista, de que o Facebook não nasceu com o intuito de ser um produtor de conteúdo. Ao contrário, segundo ele, a rede social procura audiência e visualizações que, muitas vezes, não se refletem em qualidade.

"Eu vejo com muita cautela. Acho 'ok' ver como experiência, mas é preciso saber que os donos das redes sociais não produzem conteúdo. O problema é deixar a informação na mão do filtro da rede social, que tem como seu diretor de redação um algoritmo que preza unicamente pela conveniência comercial. Não há responsabilidade social e ética e deixar isso nas mãos das redes sociais é perigoso até para a democracia", defendeu.

O diretor da RBS ainda refutou a entrega de conteúdos jornalísticos para as redes sociais. Em sua opinião, plataformas como Facebook e Twitter devem ser usadas por jornalistas como "fator de promoção de conteúdo".

"As redes precisam ser vistas como uma forma de marketing para contribuir na ampliação do interesse público por determinado conteúdo. Não acho que precisamos entregar o conteúdo para as redes e não cobrar por isso. Isso seria decretar a morte de jornalismo", apontou Rech sobre a partilha dos lucros entre o Facebook e a empresa que optar por aderir ao Instant Article.

Com olhar um pouco mais positivo para o projeto está o editor-executivo de Conteúdos Digitais do Estadão , Luís Fernando Bovo. Para ele, a experiência é válida por ir ao encontro da plataforma que tem ganhado força e receptividade no jornalismo: o mobile. "Eu acho superinteressante por ser uma ferramenta mobile. É muito mais fácil pra quem está nessa plataforma, e se você for parar para pensar, grande parte das pessoas está no mobile", comentou.
Apesar do posicionamento favorável ao experimento, ele ressalta que o jornalismo não pode se entregar ao Facebook. Exemplificando a atuação do próprio Estadão em relação às redes sociais, ele também defende as plataformas como divulgadoras de conteúdo.

"Dando o exemplo do Estadão , você nunca vai encontrar na rede social algo que não tenha sido veiculado no jornal, seja impresso ou digital. Tudo passa primeiro pelo jornal. O Instante Article é interessante, só temo como isso será amarrado para o futuro, porque você pode acabar sujeito ao Facebook e suas regras", concluiu.


* Com supervisão de Vanessa Gonçalves