Radiografia da primeira edição de Veja
Radiografia da primeira edição de Veja
Radiografia da primeira edição de Veja
A Veja nasceu vermelha. Essa era o tom preponderante da primeira capa da publicação, a sua estréia editorial em 09 de setembro de 1968, ou seja, 40 anos transcorridos por estes dias que evidenciava um chapado rubro como pano de fundo de uma foice e um martelo. A ilustração criada pela equipe de George Duque Estrada relevava a chamada de capa: "O grande duelo do mundo comunista". A matéria principal com 10 páginas de texto e fotos (do Paris Match) não era assinada, como de resto todas as reportagens publicadas nesta edição de estréia. Tratava da divisão no mundo comunista que Veja qualificava de "rebelião na galáxia vermelha", focando os recentes acontecimentos da invasão da Tchecoslováquia e a tentativa de resistência da Romênia.
Veja de fato estreou e em grande estilo, apoiada por uma maciça campanha publicitária criada pela DPZ que também era debutante no mercado publicitário, a agência constituída em julho do referido ano. Campanha multimídia com cartazes de rua, spot de rádio, muitos anúncios em jornais e revistas e um comercial de TV. O mote era "Revista Semanal de Informação", conceito referendado por um discurso que estimulava o leitor a se manter bem informado. A argumentação radicalizava na mídia impressa: " Veja não é para quem quer fugir do mundo, mas para quem quer vivê-lo". Na telinha Hebe Camargo, Carlos Lacerda, Agnaldo Rayol, Roberto Campos e Paulo Machado de Carvalho, em entrevistas, falavam de suas expectativas em torno da revista a ser lançada.
Em fim, uma campanha de impacto, com cobertura de mídia adequada ao público alvo e imagens de referência de acontecimentos internacionais recentes. Por que? Posicionamento político para não tratar de passeatas de estudantes, bombas, repressão e ferir brios militares ? Ou editorial, mesmo, para destacar a sua categoria e preferência pela cobertura dos fatos mundiais, a primeira capa, por exemplo, tratando da divisão no bloco soviético.
Uma centena de colaboradores
Questionamentos aparte, Veja circulou na segunda feira 09 de setembro de 1968, embora o registro de capa seja de 11 de setembro, vendida em bancas a 1 cruzeiro. Apresentava 140 páginas, sendo 83 páginas editoriais e 57 de anúncios. Em torno de 100 profissionais trabalharam nessa primeira edição, com destaque para Roberto Civita (diretor de publicações), Mino Carta (diretor editorial), Henrique Caban (redator-secretário) e os editores José Roberto Guzzo, Roberto Muggiati, Sebastião Rubens Pinto, Sergio Pompeu e Ulysses A. de Souza. Cinqüenta desses profissionais eram trainees, universitários de várias regiões do país que Veja selecionou entre 1.800 candidatos para um Curso Intensivo de Jornalismo, ministrado por editores e repórteres mais experientes.
Chama a atenção nesse exemplar de estréia da revista a ausência de matérias assinadas, diferente de Realidade, a revista mensal da Editora Abril; a origem das fotos internacionais (Paris Match e Câmera Press); o destaque dado às seções de serviços e entretenimento (diversões, músicas, galerias, teatros, cinema, livros, discos...) ocupando quase um terço da publicação; a ausência de seções de humor e artigos de colaboradores e em especial a cobertura nacional, inferior em espaço à cobertura internacional. A opção pelos fatos do mundo como prioridade parece ter sido de fato uma estratégia editorial ou política, ou ambas as coisas.
Esgotou nas bancas
O fato é que o resultado (770 mil exemplares vendidos) dessa primeira incursão de Veja no mercado Victor Civita detalhou na edição seguinte de 18/09/68, na sua Carta do Editor. Mostrou números, fez confidências sobre a logística de distribuição e ainda narrou as circunstâncias da prisão de um homem em Curitiba por um agente do DOPS (a polícia política) apenas por que exibia num bar uma revista vermelha com a foice e o martelo na capa. Uma história hilária, mas a cara do Brasil naquele ano de 1968.






