Rádio Escuta: Mundo Novo
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Nada indicava que o ministro Antenor Palhares, em um gesto inesperado, apresentasse uma carta de renúncia ao presidente
A confusão no fechamento do Jornal da Caramelo aumentou quando todos foram tomados de surpresa com o anúncio do novo ministro da Fazenda. Era uma sexta-feira e todos trabalhavam com um olho no computador e outro no relógio. Mais algumas horas e todos poderiam partir para o final de semana. A redação da TV Caramelo de Taiaçupeba trabalhava a meio pano, modorrenta. Os comentaristas da tevê, como faziam religiosamente toda sexta-feira, sumiram. Mas a queda do ministro virou tudo de pernas para o ar.
A primeira reação de Gilberto Borges foi de pânico. Ele era o fechador. A segunda foi começar a gritar e mandar que se preparassem matérias para cobrir o fato. Depois de muita tensão a chefia de reportagem conseguiu encontrar o repórter da Caramelo em Brasília, o mesmo que tinha garantido a todos que nada aconteceria em uma sexta-feira. Os políticos tinham batido em retirada para "encontros com suas bases". Nada indicava que o ministro Antenor Palhares, em um gesto inesperado, apresentasse uma carta de renúncia ao presidente. O lufa-lufa chegou ao departamento técnico da Caramelo que teria que se virar para pôr no ar um pronunciamento ao vivo do presidente. Os técnicos diziam que não dava. A turma do deixa-disso logo propôs uma solução: tudo se arrumaria com uma nota lida ao vivo. Borges ficou mais nervoso e impaciente. Não aceitava a meia sola que queriam fazer para o telejornal. As tevês concorrentes entravam em edições extraordinárias com novas informações. A TV Caramelo trabalhava para fechar o jornal da noite. Havia um sentimento geral que o máximo que conseguiriam seria uma repetição do que todos já haviam noticiado.
Borges não se dava por vencido. A especulação política apontava o nome do senador nordestino Péricles de Atenas como o mais provável sucessor do ministro demissionário. A pressão do fechador fez com que o arquivo de texto e de imagem se movimentasse para que uma matéria com a biografia do novo ministro fosse apresentada logo depois da reportagem que mostraria sua nomeação. Pouco antes de ir para o ar, surgiu a dúvida se o ministro tinha se afastado ou renunciado ao cargo. Essa diferença era mais do que uma firula, o ministro estava sendo processado e a renúncia significava perder o foro privilegiado. Impensável algumas semanas antes quando Antenor era venerado como o novo mago das finanças de Taiaçupeba. Correria em busca de esclarecimento com advogados e juristas especializados em legislação eleitoral, o que rendeu notas, mudanças nas cabeças das reportagens. Tudo se ajustava em torno da saída de um ministro e a entrada de outro e o que parecia o caos ganhava corpo e dava cara de notícia para o Jornal da Caramelo. Fotos, textos, imagens de arquivo, comentarista tirado da festa à força, enfim, Péricles de Atenas estava cercado de todo lado. Borges tinha certeza que tinha arrancado a redação da letargia da sexta-feira. Pela primeira vez, não fechou totalmente o Jornal da Caramelo, como fazia todos os dias. Deixou tempo para encaixar notícias de última hora e até de pôr um repórter por telefone se fosse necessário e para isso não teve dúvida em movimentar a produção para que providenciasse slides com as fotos de repórteres e correspondentes.
A notícia estava cercada de todo lado. Péricles de Atenas seria anunciado com um noticiário digno de sua biografia. O repórter Edson Gavião já aparecia no telão na porta do Palácio do Planalto. Faltava meia hora para o jornal entrar no ar. Todos viram quando um carro oficial parou perto do Gavião e desceu o economista Giulio Scatenna e ouviram quando o repórter perguntou o que ele fazia no Palácio àquela hora. "Sou o novo ministro da Fazenda", disse Scatenna.
Coluna publicada na edição 211 (Abril) da revista IMPRENSA






